EU NÃO CONHEÇO O GENILDO
Nos últimos tempos, pelo menos umas seis ou sete vezes por dia toca meu celular e uma voz não humana me pergunta se eu sou o Genildo. Como eu respondo que não, ela segue o roteiro que a programou e quer saber se eu conheço o Genildo. Como eu volto a dizer que não, ela pede desculpas e desliga. Na sequência, eu bloqueio o número do qual foi feita a ligação. Não adianta nada: fazem outra vez, de outro número. Trava-se uma batalha de paciência comigo sempre negando e o sistema sempre insistindo, talvez na esperança de que em algum momento eu assuma a identidade que não é minha. E provavelmente uma dívida.
Sei que existem pessoas com dupla personalidade – desconfio também que exista quem não tenha nenhuma. Até porque é desta possibilidade que nascem expressões como “mosca morta”, “banana-mole” ou “sem sal”, se bem que aplicadas muito mais corretamente a quem é sem graça, demonstra pouca energia, iniciativa e determinação. Ou seja, uma “água de salsicha”. Posso afirmar a vocês, no entanto, que Genildo não é uma segunda personalidade minha e tampouco eu me enquadro em algum destes tristes enunciados.
O que eu tenho mesmo, neste caso específico, é um bocado de azar. Ao que parece, este rapaz ou senhor, considerando que o nome não parece nem de longe ser de um jovem, simplesmente chutou um número de celular no momento em que foi preencher alguma ficha solicitando crédito, fazendo uma compra, sendo avalista para alguém. E ninguém teve sequer o cuidado básico de confirmar na hora, deixando o problema vir à tona apenas quando a inadimplência chegou. Nem posso afirmar que tenha sido má-fé: existe também a possibilidade de um engano, ainda mais se não foi ele próprio quem preencheu. Inverte uma dezena, troca uma unidade e pronto: cá estou eu pagando o pato.
Genildo foi adquirindo existência devido à insistência dos algoritmos, o que torna razoável que eu tente adivinhar sua idade, a aparência, seus hábitos, a profissão que exerça. Além disso, numa época em que tanto já se falou em coisas como o multiverso, se ele forneceu outros números aleatórios além do meu – ou se o engano desprezou probabilidades e se repetiu – podemos constituir uma comunidade involuntária de conhecidos seus. Afinal, eu posso não ser o único e ele próprio também ter se multiplicado. Assim, o homem sem rosto pode ter vários deles.
A verdade é que estou quase me tornando íntimo do Genildo. Ficando preocupado com sua situação, com problemas que talvez esteja ele enfrentando. Pensando na hipotética família do cidadão, imaginando onde ele mora. Em plena epidemia das bets, quem sabe a dívida dele não decorre de apostas? Ou decorrente de algum infortúnio, como uma inesperada doença, a perda do emprego, um golpe ironicamente também aplicado por celular.
Genildo é um brasileiro, como eu. Então, tudo isso é muito provável. Na próxima ligação, vou continuar dizendo que não sou ele. Porém, já está me faltando convicção para responder que não o conheço.
02.09.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a música Noite dos Mascarados, com Ana Belén e Chico Buarque.