Tratemos de refrescar nossa memória, cada vez mais seletiva devido à ação dos meios de comunicação, especialistas em comunicar interesses. Pouco tempo após o término da Segunda Guerra Mundial, eleições livres no Irã tornaram Mohammed Mossadegh primeiro-ministro. Isso foi em 1951 e ele era um líder muito popular em seu país. Ao mesmo tempo, Reza Pahlavi era Xá – uma espécie de monarca – desde 1941, quando assumiu o trono no lugar do seu pai Reza Shah, que abdicara. Entre os dois se estabeleceu um impasse, uma vez que Mossadegh decidiu pela nacionalização do petróleo iraniano, que estava nas mãos de empresas britânicas, e Pahlavi era contra. Isso causou enorme descontentamento no exterior e levou ao início de uma campanha de desestabilização do seu governo.

Em 1953 foi desencadeada a Operação Ajax, um golpe orquestrado pelo MI6 (Reino Unido) e pela CIA (Estados Unidos), agências de inteligência de duas potências estrangeiras, que derrubaram o governo. O Irã então deixou de ser uma monarquia constitucional, que tinha um parlamento e primeiro-ministro fortes e se tornou uma monarquia autocrática. Isso foi sustentado e garantido pelos golpistas, com o país virando a partir de então o principal aliado dos EUA e de Israel no Golfo Pérsico. Quanto ao petróleo, evidentemente, saiu outra vez do seu controle.

Até 1979 o monarca ditador ficou exercendo poder supremo, a serviço de interesses externos. Era verdadeiramente um estado policial, que se mantinha pela força e a coerção contra quaisquer movimentos populares. Foi quando a Revolução Islâmica tomou o poder. Isso criou uma situação delicada para Israel, porque o seu vizinho de maior dimensão territorial e poder econômico não estaria mais amordaçado e cooptado.

No mesmo ano (1979) o presidente Jimmy Carter congelou doze bilhões de dólares em ativos iranianos e proibiu a importação do seu petróleo. Em 1980 os EUA incluíram o Irã na lista de Estados Patrocinadores do Terrorismo, o que bloqueou ajuda financeira internacional e a possível compra de armas. Nos anos 1990, sob Bill Clinton, os estadunidenses proibiram quase que a totalidade do comércio bilateral e aprovaram o Iran Sanctions Act (1996), para passar a punir também empresas de outros países que ousassem investir no setor de energia iraniano.

Com forte investimento interno, que incluía educação e ciência como alavancas para o desenvolvimento, o Irã iniciou um programa nuclear. Israelenses de imediato temeram que ele pudesse produzir armas atômicas que, aliás, existem em bom número nos arsenais de Israel. Isso desencadeou reações, como ataques e sabotagens. Em 2010 foi usado pela primeira vez, ao que se saiba, um vírus de computador como arma. Operação conjunta dos serviços secretos estadunidense e israelense infectou o sistema de usina de Natanz, fazendo com que as centrífugas girassem fora de controle, até se auto destruírem fisicamente. E uma série de atentados promovidos pelo Mossad foram vitimando um a um os cientistas iranianos que trabalhavam no projeto.

Masoud Ali Mohammadi (jan 2010) foi morto por uma bomba controlada remotamente, em sua moto. Majid Shahriari (nov 2010) perdeu a vida com uma bomba magnética colada em seu carro por motociclistas. No mesmo dia, outro cientista, Fereydoon Abbasi, sobreviveu a um ataque idêntico. Darioush Rezanejad (jul 2011) foi baleado e morto por homens em uma moto, quando buscava sua filha na escola. Mostafa Ahmadi Roshan (jan 2012), também acabou vitimado por uma bomba magnética acoplada ao seu veículo. Esse recurso extremo não foi abandonado, e bem mais recentemente, depois de outros desdobramentos que veremos a seguir, foi novamente utilizado. A vítima foi Mohsen Fakhri Zadeh, em novembro de 2020. Ele tombou assassinado em ataque mais sofisticado: era o chefe do programa nuclear e foi emboscado em uma estrada perto de Teerã. Relatos indicam que foi morto por uma metralhadora de alta precisão operada remotamente via satélite, utilizando inteligência artificial para compensar o atraso do sinal e o movimento do carro.

Voltando à ordem cronológica dos fatos, em julho de 2015 o presidente Barack Obama estabeleceu um acordo chamado de Plano de Ação Conjunta Global – conhecido pela sigla JCPOA, com suas iniciais em inglês – com o objetivo de garantir que o programa nuclear do Irã fosse voltado exclusivamente para fins médicos e de energia. Pacífico em outras palavras. A contrapartida obtida foi a suspensão de sanções econômicas sufocantes. E esse se tornou um dos marcos diplomáticos mais importantes daquele presidente dos EUA.

Em 2018 uma nova operação do Mossad, em Teerã, conseguiu roubar meia tonelada de documentos físicos e digitais de um armazém secreto. Eles foram usados por Benjamin Netanyahu para tentar provar ao mundo que o Irã mantinha planos para armas nucleares, influenciando a decisão de Donald Trump de sair do acordo nuclear naquele mesmo ano. O que acabou de fato acontecendo: a implosão do acordo firmado e a volta das sanções, com força total. E voltaram ainda as sabotagens. Apenas em Natanz se sabe de pelo menos duas. Em julho de 2020 uma explosão misteriosa destruiu a oficina de montagem de centrífugas avançadas. E em abril de 2021 um “apagão” causado por uma explosão no sistema elétrico interno destruiu milhares delas. Em junho de 2021 foi a vez do complexo de Karaj ser alvo. Um ataque de drone (quadricóptero) atingiu uma instalação que fabricava componentes. Essas ações todas não lembram o que chamam no Ocidente de terrorismo?

Com a volta de Donald Trump à Casa Branca, somada à dobradinha deste com o primeiro-ministro israelense, que é um dos atuais expoentes mundiais da extrema-direita, as relações com o Irã só poderiam mesmo deteriorar. A ponto de os dois países atacarem juntos o território iraniano, na guerra iniciada em 28 de fevereiro e ainda em curso. Ela começou justo quando estavam em mesa de negociações, tendo sido obviamente deflagrada para atender interesses de Israel. Com consequências que estão atingindo e afetando o mundo todo.

22.03.2026

TEERÃ a capital do IRÃ, em vista noturna

O bônus de hoje é السلام عليكم ou Assalamou Alaykoum (Que a Paz Esteja Com Você), com Shadia Mansour. Ela é conhecida como “a primeira dama do hip hop árabe”. Nasceu em Londres, mas seus pais são cristãos palestinos originários de Haifa e Nazaré. Ela grava suas músicas em árabe e em inglês, tendo as letras foco na política do Oriente Médio. Depois temos uma versão musicada da oração do Pai Nosso, em árabe, com Marcus Viana e Raya Hilal.

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