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UM COLOSSO (E MAIS DUAS MARAVILHAS)

O meu avô materno, Ulysses Gusmão da Cunha, nascido no final do Século XIX em Dom Pedrito e criado em Bagé, duas cidades da região da campanha gaúcha, tinha o hábito de chamar de “colosso” tudo aquilo que queria identificar como grandioso, fosse em tamanho ou qualidade. Se referia assim ao que considerava muito bom, surpreendente ou diferenciado. Tenho a impressão de estar ouvindo ele agora, adjetivando algo que se via ou comentava, nos nossos encontros e conversas. Sempre sério, com o último botão da camisa abotoado, como se fosse colocar uma gravata; e retinho, costas firmes sustentando seus mais de 80 anos que lhe deram rugas, não curvaturas. Considerando a fidelidade canina que tem comigo uma dor considerável que mora na minha lombar, esse aspecto físico dele a mim dá uma inveja boa, um desejo não atendido de ter herdado dele essa predisposição, que poderia muito bem ser genética.

Nosso convívio foi mesmo maravilhoso e dele só consigo lembrar com um imenso carinho. Há muito não está mais entre nós, como também não existe mais o Colosso de Rodes, uma estátua erguida em lugar hoje incerto, para homenagear o Deus do Sol, a quem chamavam de Hélios. O que se sabe é que ela ficava na entrada de acesso à cidade de Rodes, lá pelos anos 280 a.C.. E que chegou a ser identificada como uma das sete maravilhas do mundo antigo. Fui pesquisar quais teriam sido as outras seis. Eram elas a Grande Pirâmide de Gizé, o Mausoléu de Halicasnasso, a Estátua de Zeus, o Farol de Alexandria, os Jardins Suspensos da Babilônia e o Templo de Ártemis. Todas receberam essa titulação por serem consideradas símbolos do ápice da engenharia, da arquitetura e da beleza artística, na Antiguidade. Seis desapareceram, vitimadas pelo tempo, por guerras e até por terremotos. Apenas a pirâmide permanece existindo, imponente apesar de danificada pelo tempo, no norte do Egito. Ela que foi construída por volta de 2.500 a.C., para ser a tumba do faraó Quéops.

Halicarnasso era a capital de um território onde fica a atual Turquia, então Pérsia. A cidade foi construída pelo imperador Mausolo, cheia de estátuas e de templos feitos em mármore. Um destes locais foi sendo preparado para ser o leito final dele e sua esposa Artemísia. Mas ele morreu antes da conclusão da obra, tendo sua amada ficado tão triste que afirmam ter misturado as cinzas dele com água e bebido. O túmulo estravagante continuou sendo construído, com supervisão dela – dele vem o termo “mausoléo”. A estrutura ficava sobre uma coluna, com vista privilegiada. Foi obra dos arquitetos gregos Pythius e Satyros, tendo três níveis nos quais combinavam estilos arquitetônicos egípcio, lício e grego. A base era constituída por degraus, tendo 20 metros de altura. Depois vinha um patamar rodeado por 36 colunas. O teto tinha o formato de uma pirâmide e havia no topo a escultura de uma carruagem sendo puxada por quatro cavalos. No total eram 41 metros e quatro dos artistas mais renomados da época foram contratados para decorar cada um dos seus lados. Seu desaparecimento se deveu a uma série de abalos sísmicos que ocorreram na região, ao longo dos anos.

O Templo de Ártemis na verdade foram vários. Isso porque foi sempre muito conturbada a sua existência, tendo enfrentado várias e sucessivas destruições. No Século VII a.C. uma inundação o colocou abaixo; em 356 a.C. um maluco incendiário o destruiu em busca da fama – seu nome era Herostratus –; no Século III d.C. foi a vez de uma invasão de godos, uma tribo de bárbaros germânicos que foi responsável pela sua pilhagem completa; e finalmente em 401 d.C. ele foi posto abaixo e não voltou mais. Na sua versão mais suntuosa era feito em mármore, com área de seis mil metros quadrados, adornado com esculturas em todo o seu comprimento e com nada menos do que 127 colunas. A maior e mais importante estátua obviamente era dedicada à deusa Ártemis, que na mitologia romana veio receber o nome de Diana. Era venerada por cuidar da caça, dos animais selvagens e também dos partos. Afirmam que ela se dedicava a proteger crianças e jovens e também a aliviar as doenças femininas.

Voltando ao Colosso de Rodes, ele esteve em pé por menos de seis décadas, tempo que separou sua conclusão da data em que foi posto abaixo. Mas a curta duração não lhe tirou o merecido posto entre as maravilhas, mesmo tendo sido a última a ficar pronta e a primeira a desaparecer. Era uma estátua com 32 metros de altura – o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, tem 38 metros –, que levou 12 anos para ser concluída pelo escultor Cares de Lindos, tendo sido erguida para comemorar a resistência da cidade a cerco que durou um ano inteiro. As armas que os inimigos deixaram para trás foram derretidas, oferecendo o ferro e o bronze que eram necessários para a obra. Consta que os barcos tinham acesso ao porto passando entre suas pernas. Um terremoto, em 226 a.C. foi mais forte que a estrutura. Pedaços do gigante teriam ficado no local para atrair visitantes, por mais de 800 anos. Quando forças inimigas tomaram o local e venderam seus restos, historiadores garantem que foram necessários 900 camelos para transportar os fragmentos. Recentemente, em 2015, foram anunciados planos de construção de um novo Colosso, mas a localização exata do original não é conhecida. Na próxima publicação, abordo as quatro maravilhas que ainda faltam.

03.05.2022

Ilustração do que teria sido do Colosso de Rodes

O bônus de hoje é o samba-enredo da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis, em 1981: Carnaval do Brasil, a Oitava das Sete Maravilhas do Mundo.

Bandeira/Estandarte da Beija-Flor de Nilópolis

DIA DAS MÃES

NISE WEST DE PULSEIRA, MODELO FEMININO

Que tal um relógio para sua mãe? Ele tem lente de cristal mineral ligeiramente abobadada; mostrador azul marinho fosco com marcadores em relevo; pulseira de elos ajustáveis em tem de ouro rosa; e fecho dobrável com botão duplo de segurança.

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MEDIDA PROVISÓRIA

O filme, que tem 101 minutos de duração, ficou pronto ainda em 2019. Mas só agora, em meados de abril de 2022, após quatro adiamentos das estreias programadas, conseguiu ser lançado. O atraso se deveu a vários fatores, a maioria dos entraves colocados no caminho dos produtores pelo Governo Federal. O que não impediu que fosse alcançado o expressivo número de 237 mil espectadores nas duas primeiras semanas em que ocupou algumas salas de cinema, em nosso país. O número está longe daqueles que são atingidos por muitas das superproduções hollywoodianas, mas é bastante razoável. Superou outro lançamento nacional, também recente e perseguido pelo autoritarismo encastelado em Brasília: Marighella, em tempo igual no ano passado, conseguira 216 mil pagantes. Portanto, perdeu a posição para Medida Provisória por um total de 21 mil bilhetes.

Os dois filmes têm em comum a crítica a pecados históricos do nosso país, além de contarem com Seu Jorge no elenco. Se no primeiro deles Wagner Moura mostrou todo o seu talento como diretor, no segundo foi a vez de Lázaro Ramos estrear nessa função. Outro traço que pode ser por ambos dividido é que seus detratores, mesmo sem ser essa a sua vontade, terminaram por impulsionar o interesse das pessoas. No caso de Medida Provisória, o filme não parte de um personagem real, de uma biografia. É ficção pura, uma distopia que de tão absurda ainda poderia ser pensada por Bolsonaro e seus seguidores. Esses, na vida real, são como os que exercem o poder na história e também detestam negros. Por isso, usando como pretexto uma reparação ao que os escravocratas fizeram no passado, determinam que os descendentes dos trazidos à força da África sejam para lá devolvidos.

Essa irônica forma de encarar o racismo estrutural de nosso país fez com que Sérgio Camargo, que presidia a Fundação Palmares, juntamente com Mário Frias, ex-secretário da Cultura, fizessem de tudo para deter a realização do filme. O primeiro pediu publicamente um boicote, que as pessoas não fossem ver as exibições, sob a alegação de que nele o governo era acusado de racista. O rapaz, além de nunca ter entendido exatamente o que é o racismo, sequer sabia que o trabalho começou a ser concebido em 2012. Ou seja, seis anos antes do “mito” ter chegado à presidência. E o embrião ainda mais um ano antes, quando o texto da peça teatral Namíbia, não! foi apresentada pelo diretor e dramaturgo Aldri Anunciação para Lázaro Ramos. Esse se interessou de imediato pela força que poderia ter um roteiro cinematográfico que fosse baseado nela, e foi isso que fez.

As filmagens foram conduzidas com dificuldades. E, depois de pronto, o filme ficou um ano ainda aguardando que a Ancine desse resposta a um pedido de investimento, que seria utilizado para a distribuição. A resposta era sempre a mesma: está em análise. Mesmo assim, Medida Provisória começou a ser visto em festivais, com uma recepção extremamente satisfatória da crítica especializada. No Indie Memphis Film Festival, dos EUA, coube ao longa o troféu de melhor roteiro. No mesmo país recebeu os prêmios de melhor direção e de melhor ator, essa para Alfred Enoch, no Pan African Film, de Los Angeles. Os mesmos dois troféus também lhe foram concedidos no Festival de Huelva, na Espanha. Em Lisboa, Portugal, entregaram para Lázaro Ramos o prêmio de melhor realizador, no Festin Festival. Enquanto tudo isso acontecia, aqui no Brasil não tinham tempo sequer para autorizar o lançamento da obra. O que só aconteceu depois que houve divulgação na imprensa dos empecilhos burocráticos propositalmente criados.

O trio central da trama é composto pelo advogado Antônio, vivido pelo britânico filho de mãe brasileira, Alfred Enoch – trabalhou em Harry Potter e em Lições de Um Crime –; sua esposa, a médica Capitu (Taís Araújo); e pelo jornalista André (Seu Jorge). No total, são 77 os atores que trabalham, sendo 70 deles negros. Duas atrizes brancas vivem também papéis destacados para o desenrolar da história. São elas Adriana Esteves, que é uma assistente social que trabalha para o inacreditável Ministério da Devolução; e Renata Sorrah, uma moradora do mesmo prédio onde vivem Antônio, Capitu e André. Ambas são a exata personificação do racismo, também disseminado entre os demais personagens brancos do filme e as forças de segurança. A função desse grupo repressor ganha força justo após o decreto presidencial ter sido publicado, uma vez que isso os autoriza a perseguir a população negra que desejam ver banida.

Na trilha sonora estão nomes como Rincon Sapiência, Baco Exu do Blues, Elza Soares e Cartola. Quanto ao seu gênero, o filme passeia entre o drama e o suspense, conseguindo ter ainda doses de humor. E, mesmo sendo seu primeiro trabalho, Lázaro Ramos conseguiu fugir de clichês que poderiam ter de alguma forma aparecido. Entre as providências que tomou para evitar isso foi colocar as figuras centrais da história como integrantes da classe média. A tensão central se estabelece pelo fato de o decreto determinar a “extradição”, sem autorizar que as casas possam ser invadidas para a prisão das pessoas. Então, Antônio e André ficam entrincheirados no seu prédio, enquanto Capitu estabelece rota de fuga, até ser resgatada e recolhida no Afrobunker. Esse é o nome dado a uma espécie de quilombo que é criado na quadra abandonada de uma escola de samba, tornada sem uso depois que o carnaval, considerado também uma manifestação negra e não bem-vinda, termina sendo proibido. Na vida real, se pudessem – ou ainda vierem a poder – iriam proibir é que se vá ao cinema. Aproveite para ver enquanto isso é possível, porque vale a pena.

1º.05.2022

Alfred Enoch, Taís Araújo e Seu Jorge

Os bônus hoje são múltiplos. Começo com o trailer do filme. Depois, vamos para sua trilha sonora, com duas das músicas que a compõem. O áudio de Preciso Me Encontrar (Cartola) e um clipe com O Que Se Cala (Elza Soares). Tudo para que você entre no clima e dê um jeito de ir ao cinema.

Trailer de Medida Provisória
Preciso Me Encontrar – Cartola
O Que Se Cala – Elza Soares

DIA DAS MÃES

Canecas com frases alusivas à data. Um presente simples, mas carregado de afeto. Exatamente como todas as mães adoram.

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