Numa época tão estranha, onde até mesmo a rígida hierarquia militar parece ter sido subvertida, com um capitão valendo mais do que vários generais e alguns generais tendo pouco valor, escrevo aqui sobre dois desses “personagens”. Eles levam nos seus nomes a referida patente – no sentido de posto, ordem na linha de comando, não de privada onde se tente inutilmente resolver oclusão intestinal –, mesmo nunca tendo estado em qualquer quartel. Vamos a eles, na ordem de seu nascimento.

Os criadores Joe Ruby e Ken Spears realizaram, pouco mais de quatro décadas atrás, um total de 40 episódios ao longo de três temporadas, de um desenho animado que alcançou sucesso entre os tantos produzidos pela Hanna-Barbera. Me refiro ao Capitão Caverna, originalmente levado ao ar pela rede American Broadcasting Company (ABC), de setembro de 1977 até junho de 1980. Aqui no Brasil também tivemos oportunidade de acompanhar suas aventuras, tempos depois. O Capitão Caverna era um troglodita, um homem coberto de pelos, que sempre tinha um porrete nas mãos. Baixinho, mas metido a grandão.

Personagem de pouquíssimas luzes e sempre disposto a gritar, tirava da barba espessa que cobria seu rosto os objetos mais variados, que usava contra seus adversários ou para solucionar situações inesperadas. Assim como uma espécie de “cinto-de utilidades”, do Batman. Caverna – não confundir de modo algum com caserna – tinha ainda sérias dificuldades de comunicação, usando expressões de um entendimento bem difícil, como um “unga-bunga” sem significado algum, junto com palavras mais comuns. Referia-se a si próprio como “mim”. Era quase limítrofe, com suas atitudes beirando a imbecilidade em muitas ocasiões. Ele fora libertado de um bloco de gelo, onde permanecera por milênios, tendo por isso mesmo um modo todo próprio de ver e interpretar o novo mundo que agora o cercava. No Brasil, quem lhe emprestava a voz era o ator e dublador Pietro Mário, que faleceu em meados de 2020, com 81 anos. Ele também dublara O Rei Leão e participara de O Mágico de Oz.

Muito mais recente é o Capitão Cueca, lançado no Brasil em 2017. Esse era um super-herói totalmente improvável, um diretor de escola que se transformara depois de ser acidentalmente hipnotizado por dois dos seus mais agitados alunos. Foi criado pelo escritor estadunidense Day Pilkey, que desenhava histórias em quadrinhos desde quando ainda frequentava o ensino fundamental. Esse personagem ele fez surgir em 1997 e, com o sucesso alcançado, foi produzindo mais livros, até um total de 12, que com a vendagem o catapultaram para o rol dos mais afamados da sua geração. Depois deles, veio o filme, que é realmente hilário.

Nas histórias, dois meninos hiperativos chamados Jorge e Haroldo, que são colegas de aula e muito amigos, estão na quarta série da escola primária. O que mais gostam de fazer é dar vazão à imaginação fértil de ambos, criando personagens para quadrinhos e depois vender por alguns tostões as historietas para os demais alunos, no intervalo das aulas. Um desses personagens que criam é justamente o Capitão Cueca. Mas o diretor da escola que ambos frequentam é o rabugento Sr. Krupp. Ele é que sem querer assume a personalidade da criação dos meninos e sai pela cidade, apenas de cuecas e com uma cortina do seu escritório servindo de capa, afirmando que veio para salvar o mundo.

Resumindo: temos um autêntico dois em um. Esses capitães somam características que se conhecem bem. Idiotia, incapacidade explícita, arrombos de grandeza e inconsequência, entre outras. Só não são desonestos e trazem a vantagem, pelo menos o segundo deles, de fazer com que aflore um pouco de humor. São trapalhadas que trazem graça, não preocupação e desespero. Que nos remetem a um passado bom, de vivências saudosas na infância, e não a tempos sombrios, de insanidade e violência gratuita. Recomendo.

17.07.2120

Capitão Caverna

Abaixo, um pequeno trecho do filme Capitão Cueca.

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