O tempo sempre foi um assunto que me intrigou muito. Vivemos através dele, mas ele é etéreo, imponderável e tem muitas acepções. Começa com essa história de ser grosseiramente dividido em passado, presente e futuro. A primeira fatia é como um queijo suíço, cheia de buracos. Não nos lembramos de tudo, mas de fragmentos que foram mais marcantes, tanto pelo aspecto positivo quanto pelo negativo. Deste modo, o passado é simplesmente a memória, seja ela individual ou coletiva. Quanto ao presente, este é uma fração de segundo, que quando se pensa nele já passou. Você fecha os olhos e quando os abre, o momento deles cerrados já é passado. Então, de fato ele nem sequer existe: é apenas uma área de contato entre o passado e o futuro. Esse último, também não dominamos. São apenas projeções, desejos, vontades, esperanças. De qualquer modo, pensar no tempo é pensar no antes e no depois. Sem essas “entidades” ele não se constitui. E nós simplesmente estamos, estivemos e estaremos, sem dominarmos nada disso.

Mesmo assim, com toda essa presunção humana que nos é peculiar, com essa vontade de sermos deuses, resolvemos marcar a passagem do tempo. E fomos inventando instrumentos que nos permitem ter essa ilusão de controle. As antigas civilizações observavam padrões na natureza e com eles programavam seus plantios e colheitas. Assim, a primeira divisão que fizeram, além da clássica entre o dia e a noite, foi a das quatro estações. As fases da Lua foram observadas há uns 30 mil anos. Mas com a evolução das sociedades e sua estruturação mais complexa, não bastava mais identificar apenas isso, sendo necessário uma contagem cada vez mais curta, de intervalos menores. O que foi feito pela primeira vez com o uso das sombras, surgindo a expressão “quadrante solar” – egípcios sabiam fazer isso 1.500 anos antes de Cristo. O problema é que em dias nublados não podia ser feito.

Depois foram inventados os medidores que usavam água, as clepsidras, com cada intervalo sendo avaliado pela velocidade do escoamento do líquido, permitindo determinar frações de cinco em cinco minutos. As ampulhetas, que usavam areia, foram inventadas na Judéia, em 600 a.C.; enquanto um monge budista chinês chamado Yi Ching fabricou o primeiro relógio mecânico do qual se tem notícia. Os de bolso surgiram em 1.500, fabricados por Peter Henlein, em Nuremberg. Quando o astrônomo Galileu Galilei descobriu o isocronismo, que é a regularidade de movimentos de um pêndulo, o holandês Christiaan Huygens criou os de parede, em 1656. O brasileiro Alberto Santos Dumont, como precisava estar atento a um relógio para cronometrar os seus voos, adaptou um de bolso para uso no pulso, com a ajuda do seu amigo Louis Cartier, em 1904. E a descoberta das propriedades de certos cristais, como o quartzo, deram início à era dos digitais, que perdura até hoje com avanços até pouco tempo inimagináveis, em termos de precisão e de design. Já a palavra relógio vem do grego horologion, que significa “marca do tempo”.

Se por um lado marcar sua passagem foi sendo algo facilitado, entender o tempo é bem mais complexo. A filosofia, a ciência e a literatura, não é de hoje que tentam esclarecer isso. E são tão precisas suas observações que mais nos confundimos, com sua aparente simplicidade. O grego Platão afirmava que existe aquilo que nunca se transforma e sempre “é”, como Deus, e as coisas que se sempre mudam e nunca “são”, como o tempo e a matéria. Para Aristóteles tempo e movimento estão sempre associados, não sendo possível identificar um sem o outro, pois cada um deles definiria o outro. Santo Agostinho, em suas Confissões, coloca a questão “o que estaria fazendo Deus antes da criação?”, e reafirma que o tempo teria nascido com ela.

Einstein explica que o tempo é um lugar, uma dimensão onde “a gente caminha e nunca para”. E comprova que o tempo não passa de forma igual para corpos parados e corpos em movimento. Baseado em sua Teoria da Relatividade, o professor Bradford Skow diz que o tempo não se comporta como nós o percebemos, sendo diferente de “um rio que corre”. Ele afirma que passado, presente e futuro existem de modo simultâneo, mas em dimensões diferentes. Esse é o fundamento do que chama de “Bloco Universal”. E agora, em 2021, o astrofísico Ron Mallett publicou estudo defendendo a tese de que viajar no tempo é possível não apenas na ficção e no cinema.

Diante dessas colocações que fazem a parte lógica do nosso cérebro precisar se ater muito, melhor recorrer ao talento de quem dominava a palavra. João Guimarães Rosa coloca que “as coisas mudam no devagar depressa dos tempos”. E nosso poeta terno e eterno, Mário Quintana, lembra que “o mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família”. Machado de Assis, por sua vez, prefere falar da memória e defende que “esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito”. Sobre esse escrever e reescrever, quando lembro de mim eu já estava aqui. E quando todos me esquecerem, não sei onde vou estar. Talvez por aí, em alguma dobra do tempo.

25.02.2021

O homem sempre tentou dominar o tempo. Ao mesmo tempo, tem a sensação de estar preso a ele.

No bônus de hoje, trabalho da 89FM Rádio Rock e Dado Villa-Lobos, que fizeram juntos uma nova versão da música Tempo Perdido, composta por Renato Russo e lançada pela banda Legião Urbana, ainda em 1986. Como a letra é atemporal, foi escolhida para pontuar o momento no qual nos encontramos, com “manhãs cinzas de sol” e cheios de vontade de nos sentirmos “distantes de tudo”. Foi uma maneira de pontuar essa pandemia com um pouco de arte e até leveza. Na performance coletiva, vozes poderosas de André Frateschi, Dadauí, Bianca Jhordão, Branco Mello, Bruno Gouveia, Dado Villa-Lobos, Digão, Dinho Ouro Preto, Egypsio, Érika Martins, Frejat, Humberto Gessinger, Léo Jaime, Lourenço Monteiro, Lucas Vasconcellos, Mingau, Miranda Kassin, Nasi, Pedro Calais, Pitty, Rincon Sapiência, Rogério Flausino, Supla e Thedt Correa. Todos gravaram em suas próprias casas, respeitando o período de isolamento social e criando nova versão e sem fins lucrativos de um dos maiores sucessos do rock nacional.

5 Comentários

  1. Muito bom. Adorei o bônus, mais que apropriado e as referencias dos filósofos, poetas e outras personalidades da história do mundo muito bem relacionados.

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  2. Como sempre, degustei o texto. E degustei também a música. Trouxeste de volta o que estudei sobre o tempo para minha tese em Educação de Jovens e Adultos: O tempo fora dos eixos. Bergson e Deleuze me ajudaram muito. Foi uma boa conversa. Obrigada.

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  3. Gostei do seus pensamentos sobre o tempo.Fico especialmente intrigante com o que o professor Bradford Skow “afirma que passado, presente e futuro existem de modo simultâneo, mas em dimensões diferentes.” Assim, poderemos ver o nosso futuro!

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