Tenho uma gaveta em móvel da sala reservada só para guardá-los. Eles são muitos e estão cada vez mais sofisticados, com número crescente de botões. Os aparelhos de controle remoto, que no início eram inovação que nos incentivava a uma vida sedentária, ninguém tendo mais que levantar do sofá e ir até o televisor, por exemplo, agora só faltam decidir por nós. Tem pause, tem mute, chek list e também exit – viva a língua portuguesa! –, tem botão para guia de programação, outro que mostra o manual no aparelho na própria tela, mais um que escolhe legenda para os filmes, tem o que alterna as duas últimas escolhas de canal e muito, muito mais mesmo. Agora até uma tal “função futebol” que dá efeito de som e deixa as cores totalmente irreais, sem que eu compreenda qual é a vantagem disso. E ninguém duvide: logo podem aparecer uma função noticiário, com trilha de suspense ou de falsa surpresa; função comédia romântica, com tela nas cores de algodão doce; e outras inimagináveis.

Seria tão mais simples se tivessem mantido os iniciais liga e desliga, aumenta e diminui volume, troca de canais e pronto. Assim é difícil. Eu confesso minha ignorância ou inaptidão! Uso metade dos recursos que estão disponíveis, mas sou feliz assim mesmo. Esses meus controles sofisticados ficam pertinho, ao alcance da mão, talvez lamentando não ser eu um dono mais atento e carinhoso. Tenho um da TV e outro da NET, um terceiro do aparelho de blu ray, outro mais de um gravador de DVDs que comprei, para copiar alguns dos programas prediletos. E tem ainda o do ar-condicionado, ao qual nem me referi. Com ele posso escolher a temperatura, o que é óbvio, mas também fazer oscilar as aletas, escolher direção do deslocamento do ar, determinar velocidade, usar o timer para operação por um certo tempo. Mesmo que eu demore tentando inutilmente entender tudo isso, até sobra um tempinho para aproveitar a brisa refrescante, com os olhos fechados e sorrindo ao invés de ter que enfrentar o calor lá de fora, um território hostil onde cada vez menos eu transito.

Os controles remotos estão mesmo tão inseridos na nossa vida que até motivam algumas criações no campo das artes. Para quem quiser ver um filme, por exemplo, onde um destes aparelhinhos termina sendo o protagonista, recomendo Click. Realizado pelo diretor Frank Coraci, ainda em 2006, ele conta a história de um profissional que vive frustrado por estar sempre trabalhando demais. Isso até encontrar um inventor que lhe dá um controle remoto universal que possibilita, pasmem, passeios no tempo. Como observador, ele pode rever acontecimentos passados. Outra função do aparelho é a sua capacidade de acelerar o tempo na vida real, não na televisão. Com ele, o protagonista passa a evitar todas as situações tediosas que enfrenta, sem dar-se conta de que está perdendo também os preciosos momentos que tem para conviver com as pessoas que ama. Não tem nada de especial no filme, no qual Adam Sendler e Kate Beckinsale fazem os papéis centrais. Mas pode ser um bom passatempo, desde que não se espere encontrar nele arroubos intelectuais.

Quem prefere uma dica mais quente, tem os quatro volumes da série Click!, história em quadrinhos de cunho erótico, escrita e ilustrada pelo talentoso italiano Milo Manara. É sobre uma mulher muito atraente que não consegue se apaixonar e nem conhece prazer sexual. Até que ela é sequestrada por um cientista – são sempre eles – que lhe implanta no cérebro um dispositivo. Assim, passa a ter suas emoções disparadas por um controle remoto, se envolvendo em situações bem embaraçosas, de êxtase em lugares públicos e ocasiões impróprias. Lançada em 1983, tem edições em diversos idiomas, incluindo o nosso.

Aqueles todos que contei ter aqui na sala de casa – ainda existem outros no escritório e no quarto – não têm, nenhum deles, os poderes que a ficção confere a dois esses últimos. De utilidade mais restrita, mesmo com a parafernália tecnológica oferecendo muito, seguem eles me auxiliando e me desesperando. Como numa noite dessas, quando tentei sem sucesso entrar em página da Conmebol no Facebook para ver, na tela da smartv, muito maior do que a do computador, um jogo da Libertadores. Não estranhem meu fracasso, pois já admiti, alguns parágrafos atrás, ser pouco afeito a eles. Talvez um dia inventem um aparelho simples, que controle os controles. Nesse caso eu comprarei um, podem ter certeza.

12.12.2020

No bônus musical de hoje a música Linger, do grupo The Cranberries, uma banda irlandesa formada em 1989. Ela integra a trilha sonora de Click, havendo nesse clip algumas cenas do filme.

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