SÃO GENOCIDAS, SIM!

Se alguém tinha alguma dúvida sobre ser ou não genocida o governo que perdeu as eleições presidenciais, em outubro, agora não poderá mais alegar ser esse um exagero cometido pelas esquerdas, uma acusação infundada. Porque existem provas documentais. Bolsonaro, seu vice Mourão, ministros como Damares (Direitos Humanos), Salles (Meio Ambiente) e Pazuello (Saúde), entre outros políticos e militares coniventes, estão expostos em sua hipocrisia. A situação na qual foram encontrados os índios yanomamis comprova a desumanidade absurda, a devastação, a indignidade deste grupo. E todos são como seu líder, que nunca escondeu seu ódio contra negros e índios, seu desprezo às mulheres e aos homossexuais, sua repugnância diante de miseráveis.

A reserva onde essa população se concentra, em Roraima, vem sendo invadida por garimpeiros ilegais nos últimos anos. E sua presença, além de se constituir numa ameaça direta à vida dos índios, que sofreram vários ataques a tiros – a televisão em mais de uma ocasião mostrou as barcas que passavam, com seus ocupantes atirando contra as aldeias – ainda trouxe outras consequências danosas. Com eles veio o contágio da covid, por exemplo, enquanto as vacinas suficientes para a imunização tinham sua entrega sabotada pelo governo. A destruição que causaram na mata afastou a caça. A contaminação que causaram nos rios, dizimou boa parte dos peixes. Os que eram pescados vinham com doses absurdas do letal mercúrio. Então surgiu a fome, que eles desconheciam.

Com a Funai tão contaminada quanto os rios, sem recursos, com equipe sendo reduzida, com chefia propositalmente omissa, nada mais foi feito para atender o povo indígena. Mesmo assim, ele denunciava, clamava por socorro. Nos últimos dois anos, nada menos do que 21 ofícios foram protocolados, solicitando providências e proteção. Nem sequer um deles recebeu a resposta esperada dos ministérios, do Exército e da Polícia Federal. Brasília exigia e obtinha o silêncio desses órgãos, todos eles com comandos conluiados. Algumas poucas operações pontuais de ajuda, promovida por funcionários que ousavam manter a dignidade dos seus cargos, foram impedidas ou abortadas. Assim, os donos daquela terra, que tinham legalmente direito de receber proteção e assistência, foram morrendo por doença, desnutrição e abandono deliberado.

Matéria publicada pelo The Intercept, que faz jornalismo de verdade, afirma que a organização Hutukara, criada pelos próprios índios numa tentativa de propor resistência pela informação, ao longo de dois anos vinha alertando para o fato de conflitos sangrentos estarem aumentando, “podendo atingir a proporção de genocídio”. De lá partiram os ofícios citados anteriormente. Ela teria ainda publicado três notas públicas sobre ataque sofrido pela Estação Ecológica do ICMBio (órgão que Bolsonaro fez de tudo para desativar), sobre a morte de duas crianças por uma draga de garimpo e sobre a situação crítica da Aldeia de Aracaçá, de onde sumiram moradores. Como resposta, apenas o silêncio. Tudo isso diante de um quadro que apontava crescimento de 46% na área do garimpo ilegal, apenas em 2021. Mais de 20 mil garimpeiros já estavam ocupando o território yanomami naquela época. E também o número de madeireiros era significativo.

O resultado foi a morte comprovada de 570 crianças yanomamis com menos de cinco anos, durante o Governo Bolsonaro. Uma catástrofe humanitária que continuaria escondida não fosse agora Lula presidente. Não houvesse agora uma ministra indígena, Sônia Guajajara, para dar voz aos povos originários. Em função disso foi organizada uma força tarefa que, comparecendo ao local, se deparou com o horror. A aldeia só não podia ser comparada com um campo de concentração porque não existiam as grades. Mas seus pequenos estavam esquálidos, muitos adultos também. Não havia nem alimento nem remédios suficientes. Não chegava socorro médico ou apoio para transporte. Nenhuma adolescente podia se afastar, temendo estupro, uma vez que esses casos eram comuns.

Bolsonaro esteve uma vez na região. Não para se encontrar com alguma liderança indígena. Foi participar de um churrasco com garimpeiros ilegais. Naquela oportunidade anunciou que havia proibido que máquinas e equipamentos usados pelos invasores, tanto nos rios – as dragas, por exemplo – como para derrubada da floresta, fossem inutilizadas. Isso neutralizava a pouca fiscalização que ainda se mantinha, à revelia dos superiores. Lula também foi lá, essa semana. Garantiu que um hospital de campanha será erguido no local, aprovou a transferência dos índios em estado mais grave, determinou a presença de segurança e apoio de modo permanente. E, principalmente, prometeu um combate sem tréguas aos garimpeiros e madeireiros ilegais. Em poucos minutos tomou todas as providências sonegadas pelos genocidas.

O pecado dos yanomamis foi terem um subsolo rico. Os garimpeiros buscam extrair ouro e também cassiterita, que é usada para fazer estanho. Bolsonaro prometeu a eles, ainda na campanha presidencial de 2018, que legalizaria a mineração em terras indígenas. Na estratégia adotada, foi importante nomear Marcelo Xavier para o comando da Funai. A Fundação virou uma fachada, uma farsa vergonhosa. O pedido de instalação de postos avançados do Exército, foi negado. Os invasores então tomaram a pista de pouso que era usada para levar remédios e outros bens para os índios, que ficaram ainda mais isolados. Com a redução drástica das condições para caça e pesca, esses passaram a ter que comprar seu alimento em postos de venda que os garimpeiros criaram. Nessas cantinas, um quilo de arroz custava R$ 400,00. Se a compradora era mulher, tinha a possibilidade de trocar o produto pelo uso do seu corpo. A fome e a desnutrição se tornaram crônicas. Por isso a ação enérgica do atual governo.

Entre novembro de 2019 e outubro de 2021, Bolsonaro foi denunciado seis vezes no Tribunal Penal Internacional. As acusações foram por razões como “crimes contra a humanidade” e “incitação ao genocídio de indígenas”. Também por “ações concretas ou omissões que estimularam o contágio e a proliferação do vírus da Covid-19”. Ainda por descaso no que tange a “providências necessárias ao combate de epidemia”. Há ainda uma sobre “ação deliberada para o extermínio de etnias” e sobre “ecocídio”. Com fatos como esse aqui relatado e pela pressão internacional, cada vez fica mais provável que ocorram condenações.

Houve omissão dolosa. Tudo foi feito – ou deixou de ser feito – de modo deliberado. Não houve apenas negligência: foi abandono. Foi genocídio. O objetivo era aniquilar o povo para se tornar desnecessária a existência legal das terras demarcadas. Para distribuir o espaço para grileiros e outros criminosos. Que talvez, em agradecimento, também passassem a usar preferencialmente as cores verde e amarela, que foram usurpadas pela extrema-direita genocida. As mesmas usadas na invasão na Praça dos Três Poderes, em Brasília, pelo seu braço terrorista.

23.01.2023

Equipe do Ministério da Saúde levou alimento para os pequenos yanomamis

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Zé Ramalho – Um Índio
Kaê Guajajara – Mãos Vermelhas
As crianças indígenas lembram as fotos histórias dos esquálidos de Biafra
Adultos também se encontravam na mesma situação extrema. Especialmente idosos
Bebês tiveram que ser removidos para hospitais, para ampliar chances de sobrevivência
Mãe tenta alimentar seu filho usando seringa para que beba café

PRISÃO DE VENTRE

Não é incomum que situações de estresse psicológico gerem reações orgânicas. Sob pressão no trabalho, com medo diante de algum perigo real ou imaginário, enfrentando uma prova de vestibular, as pessoas podem ter pressão arterial e seus batimentos cardíacos alterados, por exemplo. Sudorese é outra reação comum, assim como um descontrole intestinal, este em situações mais severas. Tremores, insônia, ansiedade e vários outros sintomas psicossomáticos são também frequentes.

O ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, pode ser um caso interessante para se estudar isso. Ou, no mínimo, para ser citado como exemplo. Sua previsível derrota nas urnas em outubro serviram como gatilho para um mutismo – que talvez seja visto apenas como uma rara vontade de ficar calado, em alguém que sempre falou demais –, passando por erisipela, que é uma doença infecciosa que acomete em geral a área subcutânea das pernas, e chegando também aos seus intestinos. Ele adora dizer que esse último problema é decorrente de sequelas de um suposto atentado que teria sofrido, quando da primeira campanha eleitoral para presidente. Aquela famosa facada sem sangue.

A verdade é que ele, assim como foi um presidente exatamente oposto de tudo aquilo que se espera de um ocupante desse cargo, também no que se refere a isso deu um giro de 180 graus. Agora mesmo, tão logo houve uma forte reação no Brasil e no mundo contra mais uma das suas tentativas de orquestrar um golpe – me refiro aos fatos do domingo, 8 de janeiro –, ele enfrentou não uma esperada frouxidão intestinal, mas uma nova prisão de ventre. Não é a primeira, nem aquela que a maior parte do eleitorado e do povo brasileiro espera, na Papuda ou em Bangu. E lá foi para um hospital na Flórida. A informação foi confirmada em redes sociais pela ex-primeira-dama, Michelle. E saiu em sites, como o UOL. A questão é saber quem irá pagar a conta, porque a viagem saiu dos cofres públicos.

O homenzinho saiu do país sem transmitir o cargo para seu vice, mas foi levado para os Estados Unidos pelo avião presidencial. E com ele foram cinco “assistentes”, uma vez que a legislação permite isso. Quanto aos familiares, nenhuma informação. Chegou a Orlando por volta das 23 horas da sexta-feira, 30 de dezembro. No Diário Oficial, uma mentira impressa para a posteridade. Mais uma, na verdade: iria cumprir “agenda internacional”. Se hospedou numa casa de veraneio em condomínio fechado, na região turística de Kissimmee. Esta é a mesma onde estão localizados os parques temáticos Universal e Disney.

Os proprietários do imóvel, que tem oito quartos e até sala de cinema, são o ex-lutador de MMA, José Aldo, e sua esposa, a “influencer” Viviane Pereira Oliveira, conhecida como Vika. O nome dela consta na relação de pessoas que receberam o Auxílio Emergencial concedido pelo governo Bolsonaro, no auge da pandemia. Foram cinco parcelas de R$ 600,00 e mais três de R$ 300,00, entre maio e dezembro de 2020. Não se trata de nenhuma acusação sem fundamento, uma vez que esta informação está disponível para conferência de quem quiser fazer isso, no portal da transparência. Os valores da diária do aluguel do imóvel, se estiver sendo pago, começam em US$ 519 dólares, o que equivale a cerca de R$ 2.750,00 em valores arredondados. Bolsonaro informou que permaneceria por pelo menos 30 dias.

O condomínio tem piscina, quadras de tênis, academia e oferece ainda transporte gratuito para quem quiser ir aos parques citados antes. Entre suas regras está a proibição de automóveis ficarem estacionados nas ruas internas, o que tem sido desrespeitado pelo grupo liderado por Jair Bolsonaro, desde o primeiro dia. Isso já desagradou ocupantes de outras casas, que registraram reclamação. O que também deve estar incomodando muito o “mito” é que congressistas norte-americanos estariam sugerindo ao governo que “convidasse Bolsonaro a se retirar do país”, depois dos atos terroristas do domingo.

Antes da sua internação, que ocorreu nesta segunda-feira, segundo foi noticiado pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, o ex-presidente já tinha sido informado da invasão dos seus correligionários, em ação terrorista, perpetrada nas sedes dos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo, em Brasília. Também soubera das intervenções determinadas por Lula e por Alexandre de Moraes, na segurança pública e no governo distrital, respectivamente. Uma terceira informação, que deve também ter chegado ao seu conhecimento, foi o imediato pedido por parte de alguns parlamentares norte-americanos, no sentido de que ele fosse convidado a se retirar do país. Esse somatório de circunstâncias parece ter sido determinante para bloquear, ao mesmo tempo, tanto as suas intenções golpistas quanto seu bolo fecal. Aguardemos pelos próximos boletins, tanto médicos quanto políticos.

11.01.2023

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