AINDA O GENOCÍDIO YANOMAMI

A investigação sobre o crime contra a humanidade, que foi cometido por Jair Bolsonaro e ministros seus, que trabalharam diretamente para que o povo indígena yanomami fosse dizimado, cada dia tem mais dados sobre os quais ser fundamentada. Os “indícios” se materializam de tal forma e em tamanho número, que basta um mínimo de boa vontade para que a Justiça chegue aos responsáveis. As violações ambientais, o crime de prevaricação, o desvio de verbas e a omissão de autoridades saltam aos olhos. Tudo isso foi uma constante, uma ação deliberada levada a cabo nos quatro anos do governo anterior, não tendo ocorrido apenas em Rondônia, a bem da verdade.

O jornal O Globo, por exemplo, realizou uma checagem básica feita junto ao Portal da Transparência – o que qualquer pessoa física pode acessar, sem dificuldade alguma – e descobriu bem rapidinho que uma ONG chamada Missão Caiuá, criada por evangélicos e que diz “estar a serviço do índio para a glória de Deus”, recebeu repasses de R$ 872 milhões, feitos pelo último governo. Sua sede fica em Mato Grosso do Sul. Nas redes sociais a organização afirma que cuida da saúde física e espiritual dos indígenas, contando com sete campos avançados de trabalho. Uma das três igrejas que são suas apoiadoras tem o nome de Igreja Indígena Presbiteriana no Brasil, que existiria desde 2008. Mas, aqui entre nós, os povos originários precisam que alguém lhes aponte para uma nova fé ou que respeitem a que eles têm, desde seus primórdios? E ainda custando tudo isso? Eles necessitam é de saúde, acesso à educação, comunicação e transporte, além de respeito à cultura e aos hábitos que lhes são próprios.

Voltando ao caso dos yanomamis, uma das maiores aberrações que foram encontradas mostra que boa parte dos recursos que deveriam ser destinados aos indígenas foram parar justo nas mãos de quem tem invadido e destruído a sua reserva. Como o caso de garimpeiros que constituíram empresas de transporte aéreo, com esse incentivo. Então, passaram também a decidir quem poderia ou não acessar os territórios. Agentes públicos fiscalizadores, profissionais de saúde, sociólogos, jornalistas e antropólogos, por exemplo, começaram a ser barrados. Seis unidades básicas de saúde fecharam por falta de pessoal, de gestão e pelo medo.

Esses mesmos grupos começaram a controlar o alimento disponibilizado para os nativos, que chegavam em quantidades cada vez menores e por preços exorbitantes. Deste modo, além de entrarem as incontáveis doenças que os invasores traziam, também passou a morar lá dentro a fome. Com a floresta sendo derrubada, sumia a chance da caça; com as águas sendo contaminadas por mercúrio, desapareciam os peixes. Ou eles eram pescados trazendo consigo o veneno nas entranhas.

Enquanto isso, o então ministro da Justiça, Anderson Torres, que agora está preso devido aos atos terroristas ocorridos em Brasília, no dia 08 de janeiro, concedia debochadamente medalhas do Mérito Indigenista para membros do governo do qual fazia parte. Receberam indevidamente a honraria Jair Bolsonaro e os ministros Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), Tereza Cristina (Agricultura) e o general Braga Netto (Defesa). Essa condecoração, que existe desde 1972, foi criada para agraciar pessoas que se destacam pelos trabalhos de proteção e de promoção dos povos indígenas brasileiros.

O então vice-presidente, um outro fardado, general Hamilton Mourão, ocupava a presidência do Conselho Nacional da Amazônia. Em tese, seria de sua responsabilidade a apresentação de planos e políticas para toda a região. Estava sentado na cadeira desde abril de 2020, tendo ampliado enormemente a participação de militares no órgão, ao mesmo tempo em que restringia a atuação e sequer aconselhamentos que vinham de técnicos do Ibama e da Funai. Nenhum projeto relevante foi gestado nesse tempo todo. Isso até quando faltavam apenas duas semanas para o governo se despedir da mamata. Foi quando ele divulgou o Nossa Amazônia – que ninguém critique o nome, pois ela estava mesmo à disposição apenas do grupo que os apoiavam. Estava se tornando uma propriedade privada.

A Folha de São Paulo, ao noticiar o surpreendente feito no apagar das luzes, foi contundente na apreciação: “se trata de uma coleção de frases e ideias genéricas, com propostas que representam o contrário do que fez o governo Bolsonaro ao longo de quatro anos”. Nesses papéis ficaram as digitais do agora senador pelo Rio Grande do Sul, com eles estando sujos de sangue. Dos indígenas, evidente. Nenhuma gota dos garimpeiros ilegais, dos grileiros, desmatadores, contrabandistas e toda a gama de bandidos que passaram a habitar sem quaisquer dificuldades aquela terra, que virou de ninguém. Foi essa impunidade, por exemplo, que matou o jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista brasileiro Bruno Pereira.

Apenas a pronta reação do governo Lula está conseguindo estancar o genocídio. Foi decretada Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional, criando-se um comitê para gerenciar a crise. Cestas básicas e suplementos alimentares para as crianças desnutridas foram de imediato disponibilizadas. Uma Força Nacional do SUS, com 13 profissionais, passou a agir, com outros oito sendo depois deslocados. E um Hospital de Campanha da Aeronáutica, que estava no Rio de Janeiro, foi levado para Boa Vista. Estas e várias outras iniciativas são louváveis e terão continuidade. O trabalho das ministras Nísia Trindade (Saúde) e Sônia Guajajara (Povos Indígenas) está sendo exemplar. Mas precisamos também exigir a remoção dos invasores, mesmo que seja necessário fazer uso de contingentes das Forças Armadas. E também que haja a responsabilização e a punição de todos os envolvidos neste quadro de horror que lá foi constatado. É sem anistia, com o rigor da lei sendo aplicado. Devemos isso não apenas aos sobreviventes, mas a todos os que foram massacrados; para as 570 crianças que por lá morreram; e para mostrar que a Nação brasileira não concorda com essa postura fascista de menosprezo à vida e à dignidade das pessoas.

P.S.: Em 2021 Bolsonaro esteve visitando uma área de garimpo ilegal, dentro da terra indígena Raposa Serra do Sol, no Estado de Roraima. Participou de uma confraternização com os invasores, a quem prometeu apoio. Ele pagou as despesas da festa usando o cartão corporativo, conforme foi confirmado a partir da quebra do seu sigilo de cem anos. Custou R$ 163 mil aos cofres públicos.

Também em 2021, uma empresa ligada ao filho O4 (Renan Bolsonaro), recebeu do Governo Federal, no prazo recorde de dois dias, licenças para mineração em vários pontos do país. As áreas juntas somam um total de 6.868,85 hectares. A organização doou para Renan um carro elétrico, estando a situação agora sob investigação da Polícia Federal.

27.01.2023

Precário e estarrecedor: esse é o estado de saúde com a qual a população yanomami foi encontrada

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De Milton Nascimento e Chico Buarque, Cio da Terra

SÃO GENOCIDAS, SIM!

Se alguém tinha alguma dúvida sobre ser ou não genocida o governo que perdeu as eleições presidenciais, em outubro, agora não poderá mais alegar ser esse um exagero cometido pelas esquerdas, uma acusação infundada. Porque existem provas documentais. Bolsonaro, seu vice Mourão, ministros como Damares (Direitos Humanos), Salles (Meio Ambiente) e Pazuello (Saúde), entre outros políticos e militares coniventes, estão expostos em sua hipocrisia. A situação na qual foram encontrados os índios yanomamis comprova a desumanidade absurda, a devastação, a indignidade deste grupo. E todos são como seu líder, que nunca escondeu seu ódio contra negros e índios, seu desprezo às mulheres e aos homossexuais, sua repugnância diante de miseráveis.

A reserva onde essa população se concentra, em Roraima, vem sendo invadida por garimpeiros ilegais nos últimos anos. E sua presença, além de se constituir numa ameaça direta à vida dos índios, que sofreram vários ataques a tiros – a televisão em mais de uma ocasião mostrou as barcas que passavam, com seus ocupantes atirando contra as aldeias – ainda trouxe outras consequências danosas. Com eles veio o contágio da covid, por exemplo, enquanto as vacinas suficientes para a imunização tinham sua entrega sabotada pelo governo. A destruição que causaram na mata afastou a caça. A contaminação que causaram nos rios, dizimou boa parte dos peixes. Os que eram pescados vinham com doses absurdas do letal mercúrio. Então surgiu a fome, que eles desconheciam.

Com a Funai tão contaminada quanto os rios, sem recursos, com equipe sendo reduzida, com chefia propositalmente omissa, nada mais foi feito para atender o povo indígena. Mesmo assim, ele denunciava, clamava por socorro. Nos últimos dois anos, nada menos do que 21 ofícios foram protocolados, solicitando providências e proteção. Nem sequer um deles recebeu a resposta esperada dos ministérios, do Exército e da Polícia Federal. Brasília exigia e obtinha o silêncio desses órgãos, todos eles com comandos conluiados. Algumas poucas operações pontuais de ajuda, promovida por funcionários que ousavam manter a dignidade dos seus cargos, foram impedidas ou abortadas. Assim, os donos daquela terra, que tinham legalmente direito de receber proteção e assistência, foram morrendo por doença, desnutrição e abandono deliberado.

Matéria publicada pelo The Intercept, que faz jornalismo de verdade, afirma que a organização Hutukara, criada pelos próprios índios numa tentativa de propor resistência pela informação, ao longo de dois anos vinha alertando para o fato de conflitos sangrentos estarem aumentando, “podendo atingir a proporção de genocídio”. De lá partiram os ofícios citados anteriormente. Ela teria ainda publicado três notas públicas sobre ataque sofrido pela Estação Ecológica do ICMBio (órgão que Bolsonaro fez de tudo para desativar), sobre a morte de duas crianças por uma draga de garimpo e sobre a situação crítica da Aldeia de Aracaçá, de onde sumiram moradores. Como resposta, apenas o silêncio. Tudo isso diante de um quadro que apontava crescimento de 46% na área do garimpo ilegal, apenas em 2021. Mais de 20 mil garimpeiros já estavam ocupando o território yanomami naquela época. E também o número de madeireiros era significativo.

O resultado foi a morte comprovada de 570 crianças yanomamis com menos de cinco anos, durante o Governo Bolsonaro. Uma catástrofe humanitária que continuaria escondida não fosse agora Lula presidente. Não houvesse agora uma ministra indígena, Sônia Guajajara, para dar voz aos povos originários. Em função disso foi organizada uma força tarefa que, comparecendo ao local, se deparou com o horror. A aldeia só não podia ser comparada com um campo de concentração porque não existiam as grades. Mas seus pequenos estavam esquálidos, muitos adultos também. Não havia nem alimento nem remédios suficientes. Não chegava socorro médico ou apoio para transporte. Nenhuma adolescente podia se afastar, temendo estupro, uma vez que esses casos eram comuns.

Bolsonaro esteve uma vez na região. Não para se encontrar com alguma liderança indígena. Foi participar de um churrasco com garimpeiros ilegais. Naquela oportunidade anunciou que havia proibido que máquinas e equipamentos usados pelos invasores, tanto nos rios – as dragas, por exemplo – como para derrubada da floresta, fossem inutilizadas. Isso neutralizava a pouca fiscalização que ainda se mantinha, à revelia dos superiores. Lula também foi lá, essa semana. Garantiu que um hospital de campanha será erguido no local, aprovou a transferência dos índios em estado mais grave, determinou a presença de segurança e apoio de modo permanente. E, principalmente, prometeu um combate sem tréguas aos garimpeiros e madeireiros ilegais. Em poucos minutos tomou todas as providências sonegadas pelos genocidas.

O pecado dos yanomamis foi terem um subsolo rico. Os garimpeiros buscam extrair ouro e também cassiterita, que é usada para fazer estanho. Bolsonaro prometeu a eles, ainda na campanha presidencial de 2018, que legalizaria a mineração em terras indígenas. Na estratégia adotada, foi importante nomear Marcelo Xavier para o comando da Funai. A Fundação virou uma fachada, uma farsa vergonhosa. O pedido de instalação de postos avançados do Exército, foi negado. Os invasores então tomaram a pista de pouso que era usada para levar remédios e outros bens para os índios, que ficaram ainda mais isolados. Com a redução drástica das condições para caça e pesca, esses passaram a ter que comprar seu alimento em postos de venda que os garimpeiros criaram. Nessas cantinas, um quilo de arroz custava R$ 400,00. Se a compradora era mulher, tinha a possibilidade de trocar o produto pelo uso do seu corpo. A fome e a desnutrição se tornaram crônicas. Por isso a ação enérgica do atual governo.

Entre novembro de 2019 e outubro de 2021, Bolsonaro foi denunciado seis vezes no Tribunal Penal Internacional. As acusações foram por razões como “crimes contra a humanidade” e “incitação ao genocídio de indígenas”. Também por “ações concretas ou omissões que estimularam o contágio e a proliferação do vírus da Covid-19”. Ainda por descaso no que tange a “providências necessárias ao combate de epidemia”. Há ainda uma sobre “ação deliberada para o extermínio de etnias” e sobre “ecocídio”. Com fatos como esse aqui relatado e pela pressão internacional, cada vez fica mais provável que ocorram condenações.

Houve omissão dolosa. Tudo foi feito – ou deixou de ser feito – de modo deliberado. Não houve apenas negligência: foi abandono. Foi genocídio. O objetivo era aniquilar o povo para se tornar desnecessária a existência legal das terras demarcadas. Para distribuir o espaço para grileiros e outros criminosos. Que talvez, em agradecimento, também passassem a usar preferencialmente as cores verde e amarela, que foram usurpadas pela extrema-direita genocida. As mesmas usadas na invasão na Praça dos Três Poderes, em Brasília, pelo seu braço terrorista.

23.01.2023

Equipe do Ministério da Saúde levou alimento para os pequenos yanomamis

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Depois tem o bônus musical, que hoje é outra vez duplo. Oferecemos os áudios de Um Índio, com Zé Ramalho. Após, ouça Mãos Vermelhas, com Kaê Guajajara. E temos mais fotos na sequência.

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Zé Ramalho – Um Índio
Kaê Guajajara – Mãos Vermelhas
As crianças indígenas lembram as fotos histórias dos esquálidos de Biafra
Adultos também se encontravam na mesma situação extrema. Especialmente idosos
Bebês tiveram que ser removidos para hospitais, para ampliar chances de sobrevivência
Mãe tenta alimentar seu filho usando seringa para que beba café