QUANDO A TEIMOSIA É ESSENCIAL

Me dei ao trabalho de procurar a matriz curricular do curso de treinador de futebol que a CBF oferece. Aliás, não é apenas um: são quatro os cursos, uma vez que há diferentes níveis de licenciamento. Começa pela licença C, que é voltada para atender crianças e iniciação. A licença B é direcionada para as categorias de base. Quando completa a licença A, o aluno está habilitado para treinar equipes profissionais, dentro do território brasileiro. E a mais elevada, a licença PRO, está voltada para o atendimento em nível internacional. Ou seja, habilita nossos treinadores para que atuem em clubes do exterior.

As disciplinas são muito abrangentes e variadas. Vão muito além do conhecimento das regras do jogo, aspectos técnicos e táticos. Elas se voltam para minúcias como identificação de talentos, pedagogia, biologia, psicologia, biomecânica, nutrição, planejamento, gestão e estatística. No total, são em média 15 disciplinas em cada uma das licenças, que são progressivas. Mas, em nenhum desses níveis encontrei algo como “A Importância da Teimosia”. E olha que essa é uma evidência das que mais se nota na carreira de praticamente todos eles.

Juro que, como jornalista, me dá um desespero ouvir as entrevistas feitas pelos colegas, em especial após derrotas, quando eles tentam ser educados nas perguntas e resilientes para suportar as desculpas que são esfarrapadas. E são raras as derrotas que não decorram – excluídas aquelas nas quais há diferença técnica evidente entre os contendores – de algum tipo de insistência irracional de quem está na casamata. Isso porque cada treinador tem seus “bruxos”, que asseguram ser craques, e seus sistemas de jogo, com os quais morrem abraçados por entender que são brilhantes. Em geral, as duas coisas são irrealidades.

Se a torcida em peso protesta contra uma escalação, podem contar que o jogador continuará sendo posto em campo. Se a crítica especializada antecipa que determinada postura não dará certo, que os atletas não têm características para aquele tipo de jogo, com certeza o improvável, para não dizer impossível, seguirá sendo tentado. Eles, todos eles, desafiam a lógica, se insurgem contra o óbvio, como se precisassem mostrar que têm um conhecimento muito acima dos demais. Só eles conseguem perceber o brilho de um jogador, a contundência de um esquema tático. São gênios mesmo sem lâmpadas. E dá em quem está na arquibancada ou vendo pela TV uma vontade de esfregar – ou sacudir –, não uma delas, mas a cara deles, depois de certos resultados, após o banho de bola levado, do crescimento do risco de queda.

Talvez entre os grandes culpados por isso estejam os dirigentes, que aceitam contratos milionários e que não podem ser rompidos a não ser que os valores sigam sendo pagos até o seu final. Então, raros são os clubes que não tenham um, mas vários treinadores nas suas folhas de pagamento, simultaneamente: o atual e pelo menos um ou dois dos teimosos anteriores.  Entre os treinadores dos 20 clubes que estão na Série A do Brasileirão em 2026, apenas dois estão no cargo desde antes de 2025: são eles Abel Ferreira, do Palmeiras (2020) e Rogério Ceni, do Bahia (2023). Os demais 18 têm no máximo um ano e cinco meses no posto. Em 2020, um levantamento citado pelo UOL apontava média de 5,2 meses de permanência, o que é um absurdo. Não melhorou desde então.

Agora, só tem um tipo de treinador que consegue ser ainda pior para a saúde mental dos torcedores e para a saúde financeira dos clubes: o que associa arrogância à teimosia. Algo ao melhor estilo de Renato Gaúcho. Esses se tornam mesmo inesquecíveis, porque seu legado precisa mais do que tempo para ser apagado, sendo necessária muita sorte. Ainda no Grêmio, instituição mais que centenária que Portaluppi afirma ter dois tempos distintos na sua história, a.R e d.R (antes de Renato e depois de Renato), mesmo que esses antes e depois já tenham sido vários, temos que salientar que Luís Castro é muito mais educado e não arrogante. Só que também segue a cartilha da teimosia à risca.

Depois de formar um meio de campo com Noriega, Dodi e Nardoni para enfrentar e perder para o Bolívar, em plena Arena do Grêmio, eis que ele repete a mesma formação contra o Atlético, na Arena MRV. Nova derrota, a primeira por 1×0 e a segunda por 3×0. Em ambas as ocasiões o Grêmio não teve sequer um chute a gol, no primeiro tempo. E nem vou me dar ao trabalho de citar outras das suas intransigências, renitências, contumácias, obstinações e inflexibilidades – dei vários nomes para que os leitores escolham sua preferência –, apesar de existirem tantas mais.

A razão principal dessa crônica não é contar o que todo gremista já sabe. Não é contribuir para que nossa raiva aumente mais um pouco. Não é para, masoquistamente, botar o dedo em uma ferida que já está doendo o bastante. O que quero é propor uma campanha: vamos todos exigir que ele mantenha esse meio-campo ineficiente, improdutivo, ineficaz, inadequado e limitado – mais cinco alternativas para a escolha ser feita a gosto. Se a gente afirmar que deseja isso, certamente ele fará o contrário.

17.08.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é Dias Melhores, com Jota Quest.