SERMÃO CURTO E VIGOROSO
Uma das principais diferenças dos episcopais para outros grupos mais “moderados” do cristianismo tradicional é que eles não se furtam de tratar das questões mundanas, ao lado do apelo e cuidado espiritual. Há o entendimento que a igreja precisa mesmo ter um papel de indutor, no que se refere a estes outros temas. E em relação aos cristãos recentes e sem história, como os grupos neopentecostais, os difere o fato de não buscarem postura controladora, como cobrar votos em determinados partidos e candidatos, quando o assunto é política. Simplificando, os episcopais estão de algum modo mais para a vanguarda do que para o atraso.
Com a predominância da ala liberal, defensora de uma interpretação bem mais social das escrituras, a IELB rejeita o fanatismo e defende, como foi colocado acima, uma teologia social. Por isso, nela são debatidos temas como racismo, homofobia, concentração fundiária, machismo e violência doméstica, entre outros. E ela acolhe marginalizados como membros da comunidade LGBTQIA+, indígenas e sem-terra. Em junho de 2018 emendou seus cânones e passou a permitir o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo ou gênero, tratando com naturalidade as relações homoafetivas. Nos processos internos, a ordenação feminina começou ainda em 1944, em Hong Kong. No Brasil isso ocorreu a partir de um discurso apologético feito pela irmã Maria Elvira Zimmermann Noble, no ano de 1973, em Concílio na cidade de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul.
Os Estados Unidos da América, que mantêm tradições cheias de pompa e circunstância para tudo, não deixariam de fazer isso quando da posse de seus presidentes. Apesar da Constituição exigir apenas que o eleito leia um juramento para ser empossado, diversos eventos agregados têm sido mantidos ao longo dos anos. O próprio juramento foi dividido em dois, com o vice o fazendo antes. O do presidente é posterior e bem mais curto. Isso acontece depois de ambos e suas esposas terem se dirigido juntos para o Capitólio. Segue-se o discurso e as primeiras assinaturas de decretos, que registram algumas decisões tomadas, de um modo simbólico. Geralmente são assinadas nomeações, memorandos, ordens executivas e proclamações.
Uma tradição de décadas é o “almoço de posse”, que ocorre no Statuary Hall. Nele há falas, troca de presentes e brindes ao novo governo. Se o clima permite, é feita uma revista de tropas militares e um desfile com bandas marciais pela avenida Pennsylvania até a Casa Branca. Bailes também ocorrem, em número variáveis. Trump já anunciou que terá três este ano, em dias distintos, com ele discursando em todos e dançando com a primeira-dama Melania. E não se pode esquecer a celebração de um culto ecumênico na Catedral Nacional de Washington. Algo que, desta feita, não teve a condução com a qual o presidente sonhava.
No sermão que foi proferido pela bispa Mariann Edgar Budde, da Igreja Episcopal de Washington, ele foi repreendido publicamente devido aos primeiros decretos que assinara pouco antes. Ela pediu que ele tivesse misericórdia com os migrantes, com as crianças e com as pessoas gays, lésbicas e transgêneros, citando que estas existem “em famílias de democratas, de republicanos e independentes”. Lembrou ainda que os trabalhadores estrangeiros não são criminosos em sua grande maioria. E seguiu serena com seu puxão de orelhas, se tornando a primeira pessoa que teve coragem de enfrentar Trump publicamente. Ele, como era de se esperar, não gostou nada disso, uma vez que detesta qualquer pessoa que não comungue com suas ideias – Caetano, na música Sampa, disse que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Por isso atacou a líder religiosa em suas redes sociais, exigindo desculpas públicas (que ela já disse que não pedirá) e afirmando que “o seu sermão foi muito chato e pouco inspirador”. Para ele, com certeza; para defensores da democracia se tratou de um alento, de um sopro de decência.
23.01.2025

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Agradecemos sua contribuição.
Faça uma doaçãoDoar mensalmenteDoar anualmenteO bônus de hoje é o vídeo com o sermão curto e incisivo proferido pela bispa Mariann, que atua como líder espiritual de 86 congregações e dez escolas episcopais que ficam no Distrito de Columbia e quatro condados de Maryland. Depois temos a música Trump, Trump, Trump, lançada pelo Supla em 2016, antes da primeira eleição do bilionário, quando isso ainda parecia algo totalmente improvável.