EXPRESSÕES COM ORIGEM NA ESCRAVIDÃO

Não são poucas as expressões que usamos no nosso dia-a-dia sem a devida noção de sua origem. E muitas delas, acreditem, têm histórias associadas ao vergonhoso período da escravidão no Brasil. Ou seja, são agora aplicadas com um sentido socialmente aceito, diferente do primeiro, talvez apenas porque as pessoas não conheçam como elas surgiram. Vejamos hoje apenas quatro, entre tantas que existem:

Disputar a negra – Essa todo desportista ou jogador sabe o que significa. Quando os confrontos anteriores terminaram empatados, ou com número de vitórias iguais para dois contendores, eles se enfrentam uma última vez para ver quem levará a vantagem final. É o desempate, a decisão definitiva. Mas sua história é bem simples: senhores de escravos quando se envolviam em alguma disputa apostavam a posse de uma mulher negra. Ela era o prêmio, o brinde, o gozo da vitória literalmente falando. Ou seja, há misoginia e estupro no seu surgimento.

Lavar a égua – Usada no sentido de “se dar bem”, conseguir uma boa e inesperada vantagem ou lucro. Começou devido ao fato de alguns negros escravizados que trabalhavam em minas escondiam pequenas pepitas nas crinas nos animais e, depois do trabalho diário, se ofereciam para lavá-los. Era uma rara oportunidade de recuperar o ouro que haviam escondido, que seria posto em local seguro até que somasse quantia possível para comprar sua liberdade. Quando descobertos, muitos eram açoitados até a morte.

Fazer nas coxas – Embora exista quem prefira apontar para essa uma conotação de ordem sexual, a verdade é bem outra. A expressão é hoje usada para identificar algo feito às pressas, sem capricho, sem a devida qualidade, algo impreciso. Surgiu quando escravos moldavam nas suas coxas as telhas de barro que produziam para seus senhores. O resultado é que o produto final ficava irregular, com tamanhos diferentes, de tal forma que na hora de serem as telhas utilizadas os encaixes não davam certo.

A dar com pau – É dito sobre existir muita coisa ou muitas pessoas em determinado local. Por exemplo: o evento tinha gente a dar com pau. Mas é muito triste a história desse uso popular: nos navios negreiros, havia quem preferisse morrer antes de chegar ao destino e se tornar um escravizado. Na travessia, acorrentados, muitos dos negros faziam greve de fome. Em função disso, para não “perder” parte de sua carga valiosa, os responsáveis usavam uma grande colher de pau para obrigar a maioria a se alimentar. Ela era enfiada a força goela abaixo dos aprisionados, contendo uma suspeita ração de subsistência. Mas a quantidade ofertada era a maior possível, até para que evitassem a repetição do ato muitas vezes. Ou, quando não havia fartura, vinha com a ironia dos algozes, dizendo que eles estavam comendo demais.

22.08.2021

Para ilustrar o texto de hoje, uma foto histórica tirada por Marc Ferrez. Ele foi um fotógrafo brasileiro, de família francesa, que trabalhou no Rio de Janeiro durante o Império e nas primeiras décadas da República. Era, de certa forma, o nosso cronista visual da época. Sua obra é muito vasta, com valiosos registros de costumes, paisagens e obras do período. A foto escolhida é considerada a única tirada dentro de um navio negreiro, em sua chegada ao Brasil. Mostra o estado degradante dos negros que vinham como mercadoria, numa prévia do tratamento desumano que teriam dali em diante, como escravizados.

Como bônus temos, desta feita, uma música muito dançante, composta pelo sul-africano Master KG. Jerusalema se tornou famosa mundialmente a partir de vídeo feito pelo grupo angolano Fenômenos do Semba (assim mesmo, com a letra “e”). No ano passado ele atingiu mais de 11 milhões de visualizações e coreografias semelhantes foram reproduzidas em vários países da Europa. Mas a gravação mais recente e conhecida é de uma cantora sul-africana de nome Nomcebo Zikode, que mostramos aqui em performance junto ao autor. Essa canção popular por muitos é vista como uma verdadeira demonstração de fé.