A GOLEADA SOLIDÁRIA

O Haiti viveu um longo período ditatorial, desde o final dos anos 1950 até 1986. Apoiados por Washington, François Duvalier (o Papa Doc) e depois o seu filho Jean-Claude Duvalier (o Baby Doc) se mantiveram no poder ao longo de 29 anos, governando com uso de extrema repressão. Com o término deste período, devido à pobreza devastadora do povo e também à forte pressão internacional, as coisas mudaram. A crise resultou em revoltas com centenas de mortes. Entretanto, o país não alcançou estabilidade social e sim mergulhou em anos de governos provisórios, uma sucessão de golpes, disputas militares e crises intermináveis.

Em 2004 o presidente haitiano era Jean-Bertrand Aristide, um ex-padre católico eleito democraticamente, mas que enfrentava acusações de não ter conseguido afastar uma estrutura corrupta e de permitir o uso de grupos armados para intimidar adversários. Em fevereiro daquele ano, uma rebelião armada iniciada no norte do país avançou rapidamente sobre várias cidades. Diante do colapso do governo, Aristide deixou o Haiti, em circunstâncias que permanecem controversas. Primeiro foi levado para a República Centro-Africana e posteriormente viveu exilado na África do Sul.

O país, no entanto, seguiu mergulhado na violência. Grupos rebeldes, gangues urbanas e partidários de Aristide disputavam territórios. Com as forças de segurança pública enfraquecidas e sem condições de controlar a situação, a ONU interveio e criou a missão de paz conhecida como MINUSTAH, em junho de 2004. O Brasil aceitou liderar a força militar da missão, assumindo papel central na tentativa de estabilizar o país. Logo após, usando um recurso tipicamente nosso, tratou de organizar uma partida de futebol, amistoso entre as seleções haitiana e brasileira, na capital Porto Príncipe.

A partida ocorreu em 18 de agosto de 2004 e ficou conhecida como “O Jogo da Paz”. O Brasil venceu por 6×0 com três gols de Ronaldinho Gaúcho, dois de Roger Flores e um de Nilmar – curiosamente, os três jogadores com trajetórias ligadas a Grêmio e Internacional. O técnico era Carlos Alberto Parreira. A equipe brasileira foi escalada com Júlio César; Belletti, Juan, Roque Júnior e Roberto Carlos; Gilberto Silva, Edu Gaspar, Juninho Pernambucano e Roger Flores; Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo Nazário. Depois entraram Nilmar, Adriano, Renato, Magrão, Pedrinho, Cris, Adriano Correia e Fernando Henrique. O público foi de mais de 35 mil pessoas, no estádio Sylvio Cator, que nem tinha capacidade para tanto. Muita gente ocupou áreas improvisadas, nos corredores e outros pontos improváveis. Chegou a se temer pela segurança.

A missão de paz era liderada pelo general Augusto Heleno. Ele terminou afastado tempos depois, após divergências públicas com alguns setores da comunidade internacional sobre a condução política da missão. As críticas mais comuns referiam-se ao uso da força em operações militares em bairros pobres de Porto Príncipe, especialmente em áreas como Cité Soleil. A operação mais famosa ocorreu em julho de 2005, justo durante o comando do general brasileiro. A ONU afirmou que a ação tinha como alvo líderes de gangues fortemente armadas. Organizações de direitos humanos contestaram a versão oficial e alegaram que civis teriam sido propositalmente atingidos.

Augusto Heleno foi um dos generais envolvidos na tentativa de golpe de 2023 aqui no Brasil, quando pretendiam fazer Jair Bolsonaro voltar ao poder, depois de ter sido afastado pelo voto. Está condenado a 21 anos de prisão. Em novembro de 2025, ele foi levado ao Comando Militar do Planalto, em Brasília, para iniciar o cumprimento da pena, por ser general da reserva do Exército. E atualmente está em prisão domiciliar.

Brasil e Haiti voltam a se enfrentar em campo nesta sexta-feira. O jogo ocorre a partir das 21h30, horário de Brasília. Será disputado no Lincoln Financial Field, na cidade de Filadélfia, nos EUA. A partida é válida pela segunda rodada do Grupo C da fase de grupos da Copa do Mundo. A vitória é essencial para as pretensões brasileiras. E nem precisa ser por 6×0.

19.06.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a música haitiana Ayiti Se, com Mikaben. O título da canção é na língua oficial daquele país, o crioulo. Em uma tradução livre quer dizer “O Que é o Haiti”. Bonita e emotiva, ela fala do orgulho e da identidade haitiana e evita tanto o tom folclórico quanto a visão trágica tantas vezes associada a eles. Mikaben era um artista muito querido, que faleceu em 2022 em pleno palco, durante apresentação, vitimado por um infarto.