MAIS PERTO DO CÉU DO QUE A CATEDRAL

Durante décadas Porto Alegre construiu uma relação quase cerimonial com sua Praça da Matriz. Nesse ponto elevado do Centro Histórico da cidade, ergueu-se uma espécie de resumo arquitetônico do poder gaúcho. A Catedral Metropolitana observando o passar do tempo e a evolução dos costumes, com sua cúpula italiana. O Palácio Piratini encenando solenidades e suportando crises. A  Assembleia Legislativa produzindo discursos, acordos e escândalos. O Palácio da Justiça exibindo sua imponência austera diante da praça. O Theatro São Pedro sobrevivendo ao abandono e várias reformas. E o velho Museu Júlio de Castilhos guardando pedaços materiais da memória estadual.

A praça é território dominado pelo Monumento a Júlio de Castilhos, que está carregado de simbolismos positivistas e presente na paisagem há mais de um século. Outros haviam, como o Monumento ao Conde de Porto Alegre, inaugurado em 1885 e depois levado para local que hoje leva o nome do militar e antes era a Praça do Portão – um pequeno triângulo localizado entre a Duque de Caxias e a Rua Riachuelo. E o antigo Chafariz do Imperador, instalado no século XIX, com esculturas de mármore representando os rios da bacia do Guaíba. Porém, as estátuas foram removidas no ano de 2014, sendo transferidas para a Hidráulica Moinhos de Vento. Mas, estão lá os murais e a escultura de Themis, no Palácio da Justiça. E, nos arredores, existem edificações históricas de enorme valor arquitetônico e simbólico, como o Solar dos Câmara, que foi construído entre 1818 e 1824, sendo considerado a residência urbana mais antiga ainda preservada na capital gaúcha. O prédio, de estrutura colonial portuguesa original, passou por reforma neoclássica em 1874.

Enfim, a Praça da Matriz não se trata apenas de um espaço formado por caminhos entre árvores e bancos, cercado de prédios antigos isolados. Ela forma todo um conjunto arquitetônico, político, artístico e afetivo que dialoga entre si. Talvez por isso tanta gente reaja à ideia de uma torre gigantesca que a especulação imobiliária está planejando implementar naquele ponto. Seria como um megafone sendo instalado no meio de um concerto de câmara, um letreiro de neon em mosteiro medieval, um trio elétrico dentro de uma biblioteca.

A vida na Praça da Matriz sempre pareceu obedecer a uma espécie de pacto silencioso. Não escrito, talvez nem consciente, mas perceptível: nada deveria esmagar o complexo. A altura atual dos prédios, permitindo a entrada apropriada da luz e o respiro urbano, está subordinada à geografia simbólica do poder e da história, de forma harmônica. E agora surge a promessa – melhor seria dizer a ameaça – de uma torre de 41 andares, com quase cem metros de altura, fincada justamente naquele entorno delicado da Duque de Caxias. Não em um bairro novo, não em uma avenida empresarial afastada, não em uma zona de verticalização consolidada. Mas praticamente dentro do coração histórico da cidade. Tudo com a conivência da atual administração municipal, no atendimento a interesses estreitos, embora extremamente lucrativos para seus parceiros.

Existe algo de quase metafórico nisso. Como se o capitalismo imobiliário contemporâneo já não se contentasse em ocupar espaços urbanos: ele precisa dominar o horizonte. Precisa ser visto de longe. Precisa impor presença física. Precisa subir mais alto do que tudo o que veio antes. Talvez por isso a imagem provoque tamanho desconforto. Não é apenas um edifício. É uma mudança de escala. E mudanças de escala alteram também relações psicológicas e afetivas. Coisas com as quais nem a Melnick nem o Grupo Zaffari, sócios nessa empreitada desrespeitosa, demonstram preocupação alguma.

É normal que se viva tensões entre preservação e crescimento. Porém, não se pode abrir mão da história, da memória coletiva, dos cenários consolidados, da sensibilidade humana. Mesmo com todo o esforço de narrativas que se opõem ao cenário real. Os defensores da ideia de construir o tal prédio gigantesco usam expressões que supostamente apontam para o futuro, como se apenas lá estivesse tudo de bom. Eles adoram e adotam palavras como desenvolvimento, modernização, adensamento urbano, dinamização econômica. O que não se ouve nunca, das mesmas bocas, é algo como integração urbana e respeito à coletividade. Haja vista que as empresas envolvidas e o atual mandatário do município nunca propuseram visão inovadora alguma para a periferia da capital, para a população que está mais distante de recursos básicos, com infraestrutura precária, com transporte deficiente e tantos outros problemas.

A questão está judicializada. O Ministério Público já emitiu um parecer apontando impactos negativos relevantes sobre o conjunto histórico da Praça da Matriz. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul (IPHAE) negou autorização ao projeto ainda em 2024, afirmando na ocasião que a proposta ultrapassa amplamente os limites previstos para o entorno protegido. Mas isso não tem se mostrado o suficiente para arrefecer o ímpeto dos especuladores, que não estão sozinhos nessa sanha. Ou a população abre bem seus olhos – e muito mais sua boca – ou verá a obra subir acima da própria cúpula da nossa bela catedral.

31.05.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é Moment of Peace (Momento de Paz), com o grupo alemão Gregorian. Ela foi lançada em 2001, abrindo o álbum Masters of Chant Chapter II, tendo se tornado uma das faixas mais emblemáticas do projeto, destacando o contraste entre vozes masculinas e femininas em um ambiente etéreo e espiritualizado. O grupo, que fez sucesso no Brasil, se tornou conhecido por reinterpretar músicas pop e rock em estilo coral, se inspirando no canto gregoriano.