O QUE FAZ A TIMIDEZ

Eu passei o ano letivo inteiro olhando para a Joice e suspirando por ela. Pior é que ela também olhava muito para mim. Mesmo assim, jamais tive coragem de conversar com ela, de dizer que nunca havia visto uma menina tão linda em toda a minha até então curta vida. E não tive outra oportunidade, porque depois nunca mais a encontrei. Ela sumiu mais rápido do que o restante daquela pré-adolescência. Para mim restou apenas sua figura na memória e uma cicatriz deixada por aquele silêncio, filho legítimo da timidez imobilizante.

A vida seguiu em frente. Com absoluta certeza, muitos Solon e muitas Joice foram se sobrepondo, se sucedendo, uma vez que o tempo nos transforma de modo contínuo e permanente. Conversar com ela em qualquer outro momento ao longo de todos esses anos – até mesmo hoje – não seria a mesma coisa. Como disse o filósofo grego Heráclito, “nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos”. Isso porque a correnteza das águas não difere da correnteza da vida. Nossa realidade está em constante transformação, ainda que tantas vezes isso seja imperceptível. Por isso certas oportunidades só existem uma vez. Quando e se parecem voltar, já pertencem a outra história.

A timidez é uma característica de personalidade marcada por inibição, desconforto ou ansiedade em determinadas situações sociais. Ela pode ocorrer especialmente em momentos nos quais a pessoa se sinta mais observada, avaliada ou exposta ao julgamento de terceiros, sendo isso algo real ou imaginado. Existe em diferentes graus e não significa que valha o tempo todo e para tudo. Eu mesmo, que sempre tive bem mais facilidade em falar e escrever sobre qualquer coisa além de mim, posso afirmar que nem sempre fui assim. E que isso variava muito em função do momento e das circunstâncias. Em muitas ocasiões era e sou bem mais desinibido.

Quem é tímido – ou tímida – em geral costuma pensar mais em alguma possível consequência de sua atuação social do que a média das demais pessoas. Isso é um fato. Algo como perguntar a si mesmo “E se eu disser algo inadequado?”, “E se acharem que sou ignorante?”, “E se eu for rejeitado?”. Isso gera tensão. Muitas vezes, o problema não é falta de habilidade social, mas sim um excesso de vigilância sobre si. Agora, é necessário que se evite confundir timidez com introversão. Não são de modo algum a mesma coisa.

Um introvertido recarrega as suas energias na solidão ou em ambientes tranquilos. Sendo necessário, pode falar em público sem inibições. Ele consegue interagir sem maiores dificuldades, quando deseja fazer isso. Já o tímido, mesmo quando quer fazer o mesmo encontra obstáculos emocionais que o podem impedir. Há introvertidos nada tímidos e extrovertidos bastante tímidos. Talvez eu tenha me enquadrado em boa parte da vida no segundo grupo.

Quanto às origens, a timidez parece resultar da combinação de fatores distintos. Se pode citar temperamento mais cauteloso na infância, experiências de humilhação ou crítica excessiva, ambiente familiar muito controlador ou excessivamente exigente e até mesmo aprendizagem social. Não existe uma única causa. Entretanto, ela também pode trazer algumas vantagens, embora em geral seja vista como um problema. Como exemplos se pode citar uma capacidade maior de observação, escuta mais atenta, reflexão importante antes de falar, sensibilidade às emoções alheias e menor impulsividade.

A timidez passa a exigir atenção maior quando impede a pessoa de fazer amizades, estudar, trabalhar, expressar suas opiniões ou mesmo buscar oportunidades importantes. Nesse ponto, ela pode se aproximar do que a psicologia costuma chamar de Transtorno de Ansiedade Social, condição mais intensa e incapacitante. Deste modo e neste nível ela se torna sim um problema. O que, obviamente, requer auxílio profissional.

Quanto à melhora com o tempo, que citei antes, talvez decorra de que a nossa experiência de vida vai demonstrando que erros sociais trazem consequências muito menores do que imaginávamos na juventude. E a maturidade costuma reduzir a importância que damos aos julgamentos alheios. Para finalizar, dando alento para algum tímido ou tímida que me esteja lendo agora, alguns dos melhores comunicadores começaram a vida enfrentando isso. Assim como cientistas, artistas e pensadores bem famosos. Posso citar, em diferentes categorias, Charles Darwin, Franz Kafka e Johnny Depp. É bastante provável que eles também tenham tido suas Joice, quando jovens. Bem que eu queria terminar como eles.

21.06.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é Oceano, música de Djavan, que a compôs e lançou em 1989. O contexto da composição é curioso. Ele queria criar algo influenciado pela música flamenca. Assim, a melodia surgiu inicialmente acompanhada de uma letra em espanhol, mas ele acabou deixando a gravação esquecida. Anos depois, sua filha Flávia ao encontrar a fita (era uma fita mesmo) gostou muito do que ouviu e o incentivou a retomar a ideia. Dessa recuperação nasceu a versão definitiva de “Oceano”.