O REVÓLVER E O CINZEIRO

Desde o início de 1967 e até 31 de dezembro de 1969, o general da reserva José Fonseca Valverde integrou a administração da Unicamp. Ele era chefe da área de Engenharia da universidade, mas também desempenhava um papel obscuro dentro da instituição, em uma época na qual ocorria endurecimento da ditadura militar, fato responsável por diversas tensões sobre o corpo docente.

Havia um professor, de nome César Lattes, que dava aulas de Física Experimental e era responsável por um dos campos de pesquisa mais importantes da Unicamp. Ele foi um dos fundadores do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) e integrava o corpo docente da instituição desde quando ela foi criada. Era conhecido também por sua irreverência e, embora fosse um cientista de renome internacional, mantinha contato direto com os estudantes de graduação e pós-graduação. Ainda eram características conhecidas suas o fato de ser pouco afeito à hierarquia, não medir palavras e ser temperamental.

A certeza de terem ocorrido muitos conflitos envolvendo Valverde está amplamente documentada em relatórios da Comissão da Verdade, que foi instituída em outubro de 2013, para apurar fatos acontecidos entre março de 1964 e março de 1985. Mas, evidentemente, não se limitam a ele essas situações. Entrevistas feitas com José Aristodemo Pinotti, Zeferino Vaz e outros pioneiros da universidade comprovaram muitas das arbitrariedades, assim como histórias curiosas. E nesse segundo grupo está aquela que justifica essa crônica. A fonte é sólida: um artigo que foi publicado no Jornal da Unicamp, em 2004.

O episódio teria se dado poucos dias após o AI-5 ter sido promulgado, endurecendo ainda mais o regime. O general Valverde entrou em uma reunião da Comissão de Ensino, portando uma valise. Sentou-se, abriu a pasta e colocou sobre a mesa um Colt .44. Depois, em alto e bom som, declarou: “Agora tem lei neste país. Vou botar esses comunistas na cadeia”. Foi quando César Lattes calmamente se levantou e respondeu: “Considerando que isto aqui é uma universidade, e não a caserna de onde o senhor veio, eu mijo para esse seu revólver.” E, no momento seguinte, com o general ameaçando se levantar, arremessou contra ele um cinzeiro pesado que tinha na sua frente. Felizmente a turma do “deixa disso” agiu rápido e evitou coisa pior.

A Comissão da Verdade e Memória Octávio Ianni, da Unicamp, em seu relatório destaca casos de docentes, alunos e funcionários que foram presos, expulsos, demitidos ou perseguidos, mas não inclui César Lattes nessa condição. Sua notoriedade e reputação – e talvez uma boa rede de proteção – foram capazes de mantê-lo a salvo disso. E o incrível é que Lattes seguiu ironizando o governo militar até em aspectos pessoais. Um episódio frequentemente lembrado é o de um cachorro seu que teria recebido o nome de Costa e Silva, numa referência direta e satírica a um dos generais impostos pelo regime como presidente da República.

Octavio Ianni foi um dos maiores sociólogos brasileiros do século XX e integrava a chamada Escola Paulista de Sociologia, ao lado de Florestan Fernandes e outros. Foi professor na USP e na Unicamp. Dedicou toda a sua vida ao estudo das desigualdades sociais, das relações raciais, do Estado, do capitalismo, do populismo e, mais tarde, da globalização. Ele foi aposentado compulsoriamente em 1969 e, posteriormente, preso pela ditadura. Seu nome ser dado à Comissão da Verdade foi uma decisão simbólica.

Cesare Mansueto Giulio Lattes, nome completo do professor brasileiro que preferia ser chamado de César Lattes, participou diretamente dos trabalhos e foi codescobridor da partícula subatômica méson-π. Isso levou à concessão do Prêmio Nobel de Física de 1950 a Cecil Frank Powell, físico britânico que era o líder da pesquisa.

16.07.2026

Foto: professor César Lattes dando aula. Crédito: Revista Veja.

O bônus de hoje é a música Quanta, de Gilberto Gil, com o próprio e a participação de Milton Nascimento. Ela dialoga diretamente com a relação entre ciência, conhecimento e criação artística. A canção afirma, um de seus versos mais célebres: “Sei que a arte é irmã da ciência.”