O FESTIVAL DE BESTEIRAS QUE ASSOLA O PAÍS

Os mais desavisados podem achar que a estupidez da qual temos tido notícia, através de textos de uma imprensa boquiaberta com o que tem sido levada a publicar, se trata de algo novo em nosso país. Lamento, mas afirmo a vocês não ser verdade. Aliás, o mesmo grupo pouco afeito à inteligência que tomou o poder em duas etapas, 2016 e 2018, já teve representantes seus fazendo coisas inacreditáveis como as atuais, no passado. Um primeiro exemplo, risível como convém: em junho de 1966 a peça teatral Electra fazia sua estreia no Theatro Municipal de São Paulo. Descontente com o conteúdo da mesma, o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), o braço mais violento da repressão política da época da ditadura militar, determinou que agentes fossem imediatamente ao local para dar voz de prisão ao autor do texto, um tal de Sófocles. E eles foram, sem saber que o cidadão havia morrido 406 anos antes do nascimento de Cristo.

Essa história absurda, mas absolutamente verdadeira, foi uma das mais de 250 que um jornalista carioca colecionou e publicou em crônicas suas no jornal Última Hora. Fazia isso usando o pseudônimo (heterônimo, na preferência de alguns críticos) de Stanislaw Ponte Preta, sendo Sérgio Porto o seu nome verdadeiro. Depois do enorme sucesso e maior risco que ele corria com tal trabalho, entre os anos de 1966 e 1968, seus textos foram reunidos em três volumes que receberam o mais do que apropriado título de Festival de Besteiras Que Assola o País – que usei para titular esse texto de hoje –, ou simplesmente Febeapá. São várias preciosidades que, fosse ele ainda vivo, teriam um impulso gigantesco em termos de número e possibilidades, em tempos atuais.

O jornalista, que morreu em 1968 – e só por isso parou de escrever –, tinha o hábito de todas as manhãs, depois do café, ir para a praia de Copacabana com suas três filhas. Enquanto Ângela, Gisela e Solange aproveitavam a água e o sol, ele usava uma tesoura para fazer recortes de textos que selecionava em todos os jornais do dia. O único critério era aquilo que surpreendia pelo contrassenso e pela ilogicidade, fossem eventos ou declarações de autoridades. Isso se tornava matéria prima para o que ele viria a escrever à tarde. E era tanta coisa que sobrava, pois era impossível redigir na mesma proporção na qual eram fornecidas essas “inspirações”.

Querem exemplos? Um deputado federal tentou a proibição da venda e consumo de vodka em Brasília, alegando que sendo a bebida de origem russa isso era importante para “combater o comunismo”. Outras duas preciosidades vieram das Minas Gerais: em Ouro Preto os defensores dos bons costumes barraram a realização de serenatas, enquanto em Belo Horizonte policiais tinham ordem de dar voz de prisão a torcedores que pronunciassem mais de três palavrões num jogo de futebol. Mais para o sul, em São Paulo, o pessoal do DOPS recolheu um liquidificador como um dos tantos objetos considerados suspeitos após terem invadido a casa da escritora e jornalista Jurema Finamour.

Em Porto Alegre, a Delegacia de Costumes mandou retirar de todas as livrarias, sem dar a menor satisfação aos livreiros, obras que fossem pelos policiais consideradas pornográficas. Apreenderam exemplares de O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence. Quando o delegado soube que se tratava de um livro inglês, devolveu dizendo que a decisão valia apenas para pornografia nacional. Outra asneira na área esportiva: time de futebol da então Alemanha Oriental veio disputar partidas amistosas no Brasil e o Itamaraty distribuiu nota informando que só autorizaria se os jogos não tivessem cunho político. Na mesma época, o prefeito de Petrópolis, no Rio de Janeiro, baixou portaria com normas de comportamento para moças e rapazes em banho de mar. Só que a cidade é serrana, ficando distante das praias.

Existiam ainda despautérios resultantes da presença constante dos censores nas redações dos jornais, cortando ou alterando o que esses pretendiam publicar. Deste modo, nos deparamos com títulos de fato constrangedores, como “Todo fumante morre de câncer a não ser que outra doença o mate primeiro”. Esse deve ter revolucionado a medicina. Ou ainda “É necessária muita cautela para revidarmos uma autocrítica”. O que é inegável, evitando um auto nocaute. Para um jornal do Mato Grosso, o delegado responsável pela investigação de determinado crime político relatou que a vítima fora encontrada às margens do rio Sucuriú, desmembrada em quatro pedaços, dentro de um saco plástico. E concluiu a declaração com uma pérola: “Ao que tudo indica, podemos afastar a hipótese de suicídio”.

Ontem nos grupos de WhatsApp criados pela extrema-direita circulou a “forte suspeita” de que recentes aparições de objetos voadores não identificados, como os avistados por tripulações da Azul e da Latam em voos entre o Sudeste e o Sul, poderiam indicar influência alienígena no resultado das eleições. Ou seja, não apenas toda a Terra como também outros planetas estariam conjuminados contra o seu Mito. Além disso, imagens da cantora Lady Gaga passaram a ser compartilhadas nesses mesmos grupos que, sem reconhecer a figura pública, afirmavam ser ela funcionária do Tribunal de Haia, que iria promover uma “intervenção federal” no Brasil. 

Aquela porto-alegrense histérica de joelhos, batendo no peito com a mão direita e gritando de modo ensandecido “o Brasil é nosso”, diante da notícia falsa da prisão de Alexandre de Morais, não teria escapado de Stanislaw, podem ter certeza. Mas, genial mesmo foi a forte reação verificada no sábado, com a extrema-direita dizendo que “não iria tolerar de modo algum” se fosse confirmada a notícia de que Paulo Freire iria assumir o Ministério da Educação, após a posse de Lula. Ainda bem que eles não ainda descobriram que Oswaldo Cruz vai assumir o Ministério da Saúde.

Para concluir: a extrema-direita está organizando listas de estabelecimentos de comércio e profissionais liberais que fazem parte da “esquerdalha”, para que sejam boicotados, em diversas cidades pequenas e médias do interior do Estado. Em Ijuí a APAE foi incluída na relação. Sérgio Porto voltaria do mundo dos mortos, se pudesse. E precisaria de litros do colírio aquele que usava, segundo suas próprias palavras, nas poucas vezes que levantava os olhos da máquina de escrever, quando estava trabalhando. Teria mesmo muito trabalho. E nós, muita coisa de qualidade para ler.

08.11.2022

O bônus musical de hoje é Mortal Loucura, com Maria Bethânia. Essa canção foi feita sobre poema de Gregório de Matos Guerra, no qual ele aborda a questão da fragilidade humana. O trabalho de musicar foi de José Miguel Soares Wisnik.

DICA DE LEITURA

FEBEAPÁ, de Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)

(488 páginas – R$ 41,90)

O fato é que nossos políticos capricham. Inventam leis estapafúrdias, castigam o idioma, têm mão leve, adoram um agradinho e são loucos por um esquema. E não é de hoje. Há mais de cinquenta anos, Stanislaw Ponte Preta fustigava os despautérios cometidos pelos donos do poder em textos brilhantes e devastadores em jornal. Febeapá, o “Festival de Besteiras Que Assola o País”, reúne hilariantes textos em que generais, capitães, deputados, prefeitos e outras figuras da cena política são pulverizados pela verve satírica do autor. Não sobra nada. Foram poucos os escritores brasileiros que tiveram coragem de “peitar” a Ditadura com tanta corrosão e petulância.

A VELHA JOVEM GUARDA

Numa época na qual a TV Record tinha uma programação que não era contaminada pelo atual evangelismo pentecostal, quando buscava oferecer ao seu público entretenimento real e alguma dose de jornalismo, ela foi o canal que propiciou a criação de um movimento autêntico na música brasileira. O ano era 1965, mês de agosto. No dia 22 entrava no ar o programa Jovem Guarda, apresentado por um trio de cantores em início de carreira: Wanderléa, Erasmo e Roberto Carlos. O último já havia gravado a música Splish Splash, uma versão de Erasmo para a canção original de B. Darin e J. Murray, dois norte-americanos, feita em 1958 – ela chegou a ocupar a terceira colocação na cobiçada lista da Billboard Hot 100, o que não era mesmo pouca coisa.

Por aqui, com o sucesso repentino e explosivo do programa, Erasmo e Roberto emplacaram também sucessos como Vem Quente Que Eu Estou Fervendo e ainda Quero Que Tudo Vá Para o Inferno. Apesar dos títulos, eram letras quase ingênuas, que embalavam uma parcela mais alienada da juventude brasileira, enquanto outra preferia as letras de protesto que começavam a brotar, nos tempos nebulosos da ditadura militar que tinha apenas pouco mais de um ano. Ficaram no ar, com enorme audiência e ditando moda, até 1968. As gravações eram todas feitas no Teatro Record, em São Paulo, mas a atração era levada para várias outras capitais brasileiras, como Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife, essas em videoteipe.

As apresentações eram mais ou menos padronizadas, com os três que comandavam o espetáculo intercalando canções próprias com outras, de convidados especiais. Em função disso, terminaram lançando muito gente que também conseguiu ganhar notoriedade nos anos seguintes. Como Wanderley Cardoso, Rosemary, Jerry Adriani, Martinha, Antônio Marcos, Evinha, Waldirene, a dupla Leno e Lílian, e os grupos Renato e seus Blue Caps, Os Incríveis e os Golden Boys, entre outros. Diante de todos, a plateia se descabelava e dava gritos histéricos, exaltando os “reis do iê-iê-iê”, como o pessoal passou a ser identificado. Esse nome era uma alusão a um filme dos Beatles, A Hard Day’s Night, que no Brasil foi rebatizado com essa expressão. Aliás, parênteses: eu sempre fico intrigado, tentando saber em que as pessoas encarregadas de darem títulos locais aos filmes estrangeiros se baseiam, porque existem verdadeiros absurdos.

Interessante citar que esse movimento “espontâneo” na verdade surgiu dentro de uma agência de publicidade, a Magaldi, Maia e Prosperi, que foi contratada para resolver um problema na grade de programação. Foram seus profissionais que propuseram preencher o horário das tardes de domingo com música, quando o governo decidiu proibir a transmissão de partidas de futebol ao vivo, evitando que manifestações populares contra o governo vazassem, sem o controle dos censores. Os militares jamais souberam, mas o título do programa foi inspirado na frase do revolucionário russo Vladimir Lenin. Ele dissera que “o futuro pertence à jovem guarda, porque a velha está ultrapassada”.

O apoio interessado das gravadoras e o aporte de várias campanhas publicitárias mantiveram a audiência crescente. Apenas na capital paulista a estimativa era de três milhões de jovens ligados, quando ele atingiu seu ápice. Números expressivos para aquela época. Assim, mesmo depois de tirado do ar, o programa rendeu notoriedade residual para muita gente. Wanderléa se manteve ao nível dos convidados que foram catapultados. Com o passar dos anos Roberto, acreditando piamente que de fato era um rei, passou a viver recluso em seu castelo. E sua aparição clássica se tornou o especial de final de ano, da Rede Globo, onde desfila as mesmas canções, roupas brancas e o repetido arremesso de rosas vermelhas que são antes beijadas – fora alguns poucos shows, para público seleto. Erasmo seguiu mais fiel ao seu histórico de roqueiro, envelhecendo com uma enorme dignidade e sendo ainda hoje referência para muita gente jovem. Mesmo com seus cabelos raros e ralos estando completamente brancos.

05.04.2022

Erasmo Carlos, Wanderléa e Roberto Carlos, os apresentadores da Jovem Guarda

O bônus de hoje é Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, de Roberto e Erasmo Carlos. Essa é sem dúvida uma das músicas mais lindas da dupla e foi composta em homenagem a Caetano Veloso, quando esse foi exilado em Londres, pela ditadura militar.

DICA DE LEITURA

JOVEM GUARDA: moda, música e juventude

O livro de Maíra Zimmermann aborda a emergência de um estilo de vida jovem nos anos 1960. Ele foi resultado de um grande esforço da indústria cultural, que buscava criar ídolos pop, com inspiração no modelo britânico. As transformações comportamentais do período são analisadas dentro do contexto da formação do mercado consumidor adolescente, associado ao início do prêt-à-porter no Brasil.

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