Eu gosto muito dos comentários feitos pelo jornalista Paulo Germano, na RBS-TV. Ele tem a qualidade e a dimensão que muitos colegas seus, da mesma emissora e de outras, imaginam que possuem. Digo isso tanto pela clareza dos seus argumentos quanto pela coragem que demonstra ao abordar temas mais sensíveis, resistindo à tendência de tantos, que ficam em cima do muro. Ele tem opiniões próprias e as expressa sempre, além de fazer análises claras e contextualizadas. O que é bastante raro em um meio onde nem sempre convém fazer isso.

Formado pela PUC-RS, Germano construiu a sua carreira praticamente toda no mesmo grupo de mídia. Iniciou como repórter de “geral”, na Zero Hora, cobrindo o cotidiano de Porto Alegre. Até hoje o seu trabalho tem uma ligação muito forte com a capital dos gaúchos, tendo consolidado, com toda a sua experiência, profundo conhecimento das dinâmicas sociais e urbanas da cidade. Com o passar do tempo, fez uma transição muito bem-sucedida da reportagem factual para a análise e a opinião, onde agora se destaca pelo estilo direto, racional e eventualmente provocador.

Assim, diante da inadiável necessidade de ser discutido o assunto do crescimento do número de feminicídios no Rio Grande do Sul – e não apenas nele –, teve ele a sensibilidade de abordar o tema em seus comentários mais recentes. E o fez com toda a lucidez de sempre. Começou chamando a atenção para o fato de que nunca se falou tanto sobre os direitos das mulheres como hoje, nunca o machismo foi tão condenado publicamente como agora e, mesmo sendo isso algo aparentemente paradoxal, jamais se teve índices tão elevados de mortes.

Ao tentar estabelecer motivos para isso, ele primeiro lembrou que nosso país teve um recorde absurdo, no ano passado, quando foi registrado um salto de 316% nos feminicídios verificados desde 2015. Foi naquele ano que essa espécie de crime terminou sendo incluída no Código Penal. Depois, citou a carnificina que o Rio Grande do Sul está vivendo, com 20 assassinatos de mulheres nos primeiros 40 dias do ano. Então, levantou uma hipótese interessante sobre as possíveis causas.

Segundo o seu entender, isso não ocorre apesar dos avanços, mas sim em razão deles. Seria como uma reação inconsciente contra o aumento de campanhas e o estabelecimento de políticas públicas apropriadas. Diz que a consciência social, mais do que necessária e oportuna, não tem como mudar comportamentos em curto prazo, não tem como estabelecer uma mudança imediata. Ao contrário disso, a conscientização poderia estar circunstancialmente sendo causadora de tal desconforto, de um absurdo descontrole do velho poder.

A mulher antes não era vista apenas como uma companheira de vida. Aliás, raramente era considerada assim. Sua presença era muito mais simbólica, uma prova pública de valor e autoridade, transitando no mundo criado por ele, o homem. Era alguém sem autonomia. Então, o masculino não “necessitava” matar, porque não era questionado. Era algo naturalizado, com as mulheres continuando nas relações, com elas não tendo nem mesmo um vocabulário apropriado para designar os abusos sofridos. Agora, sendo isso diferente, a violência doméstica explode justo porque o homem não manda mais, uma vez que o modelo anterior colapsou, implodiu. Se trataria da revolta contra a percepção da sua obsolescência na relação.

A mulher não vista como um ser autônomo, ao definitivamente não mais permitir tal visão, de ser dele e pronto, escancara uma insignificância para a qual o homem não está preparado. Quando ela se afasta, toda a narrativa que o sustentava desmorona. Assim, defendendo essa sua explicação para o fenômeno, Germano alerta para o fato de estarmos em um momento delicado. Porque o processo civilizatório não deixará de crescer, a evolução não cessará, apesar dessa reação masculina. E o que precisa aumentar, com urgência, é uma proteção efetiva, que possa impedir o aumento brutal do número de vítimas. Que possa estancar essa sangria. Para que tal aconteça, o Estado tem que ser mais forte do que essa cultura enraizada. Isso além dos homens comuns terem a coragem de rever comportamentos ou, no mínimo, admitir e enfrentar as suas omissões.

11.03.2026

Paulo Germano, jornalista

O bônus de hoje é a música Maria da Vila Matilde, com Elza Soares. A gravação do vídeo foi feita ao vivo, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo.

Você gosta de política, comportamento, música, esporte, cultura, literatura, cinema e outros temas importantes do momento? Se identifica com os meus textos? Se você acha que há conteúdo inspirador naquilo que escrevo, considere apoiar o que eu faço. Contribua por meio da chave PIX virtualidades.blog@gmail.com ou fazendo uso do formulário abaixo:

Uma vez
Mensal
Anualmente

FORMULÁRIO PARA DOAÇÕES

Selecione sua opção, com a periodicidade (acima) e algum dos quatro botões de valores (abaixo). Depois, confirme no botão inferior, que assumirá a cor verde.

Faça uma doação mensal

Faça uma doação anual

Escolha um valor

R$10,00
R$20,00
R$30,00
R$15,00
R$20,00
R$25,00
R$150,00
R$200,00
R$250,00

Ou insira uma quantia personalizada

R$

Agradecemos sua contribuição.

Agradecemos sua contribuição.

Agradecemos sua contribuição.

Faça uma doaçãoDoar mensalmenteDoar anualmente

Descubra mais sobre VIRTUALIDADES

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário