É simplesmente inacreditável: a matéria publicada pelo jornal O Globo, na sua edição digital, sobre o descarrilamento e choque de dois trens na Espanha, ocorrido esta semana, foi ilustrada com uma foto do presidente Lula. Exatamente isso que estou descrevendo. Nada de fotografia que as agências de notícias devem ter se apressado em ofertar, mostrando os vagões, seu entorno, a prestação do necessário socorro. Como a notícia era ruim e grave, boa oportunidade para tentar associar o fato à imagem dele. Esta postura tem sido recorrente, com este e outros “jornalões” fazendo o mesmo, em inúmeras situações. Mas desta vez de fato a editoria exagerou.
O acidente em questão ocorreu no último domingo, 18 de janeiro, logo após às 19h30 pelo horário local. Um trem de longa distância, operado pela Iryo, que fazia o trajeto de Málaga para Madrid, descarrilou quando acessava uma via auxiliar na estação de Adamuz, província de Córdoba, invadindo os trilhos adjacentes. Logo depois, um trem de alta velocidade, da Renfe, que havia partido de Madrid com destino a Huelva, colidiu violentamente com os vagões tombados e também descarrilou. Não se sabe se este segundo não foi informado sobre o obstáculo ou se apenas não conseguiu frear a tempo. O trecho é uma linha reta e o trem que se chocou com o outro se deslocava a 200 km/h. O primeiro transportava mais de 300 passageiros e no outro estavam cerca de 200. Pelo menos 40 perderam a vida, enquanto o número de feridos ultrapassa 150.
Naquele dia o presidente Lula estava em Brasília. Como costuma fazer nos finais de semana nos quais se encontra na capital, realizou reuniões privadas e de articulações políticas, no Palácio da Alvorada. Não estava e nem estará na Espanha. O seu próximo compromisso internacional será no Panamá, onde vai participar de um evento, ainda em janeiro. Quanto ao acidente, ele se manifestou oficialmente através de suas redes sociais e por canais diplomáticos, na segunda-feira. Expressou solidariedade ao povo espanhol e ao primeiro-ministro Pedro Sánchez. Bem depois de ter “ilustrado” a matéria de O Globo, postada ainda no domingo.
Essa tática de associação de adversários ou desafetos com fatos ruins é uma forma de manipulação psicológica e semântica. Ela é prática comum no marketing político, mesmo sendo bem pouco honesta. É um modo de realizar aquilo que chamam de “associação por contiguidade” ou ainda de “transferência de culpa”. Evidente que provar responsabilidade é sempre muito improvável e custoso, na hipótese de estar sendo atribuído um crime, por exemplo. O objetivo real é causar um “curto-circuito” na mente do eleitor, ou da pessoa que vê ou ouve. Com isso, quando voltar a pensar nele ou nela, psicologicamente tende a sentir o mesmo desconforto sentido ao ler a notícia ruim. Parece uma bobagem, mas o resultado pode mesmo ser devastador.
De forma reversa, se trata da mesma lógica de associar o próprio nome ao fato de ter sofrido um ataque, uma injustiça, um atentado. Fernando Collor, quando candidato a presidente, em comício realizado próximo à data do pleito, na cidade de Caxias do Sul, colocou correligionários para forjar tentativa de agressão contra si. O detalhe é que todos usavam camisetas do seu opositor. José Serra foi conduzido para um hospital, após acertarem a sua cabeça com uma bolinha de papel. E Jair Bolsonaro sofreu a única facada da história que não produziu uma gota de sangue sequer.
Sendo mais específico na explicação de manipulações, o “Mecanismo da Mancha” é utilizado, por exemplo, em telejornais. Matéria sobre parcela da população passando fome e uma propaganda política logo depois, com o adversário ao lado de uma mesa vazia. Temas como corrupção, crises em geral e violência podem ser facilmente associados. Há ainda o método “Dog Whistles” (Apitos de Cães). Sai uma notícia real, sobre um escândalo. E por absoluta “coincidência” há uma foto do adversário cumprimentando alguém que esteja envolvido nele. Pouco importa se ela foi tirada uma década antes e em evento público. Causa proximidade moral. E existe também o “Efeito de Primazia”, uma vez que a mente humana tende a simplificar informações complexas. É muito mais fácil lembrar de uma montagem visual impactante do que ler um relatório técnico posterior, que prove a inocência de alguém.
Contra Lula, a grande imprensa já usou mais de uma vez outro recurso mais do que conhecido nas editorias. Dão manchete em letras de corpo destacado, sobre uma desgraça qualquer, sobre a ação de bandidos, sobre perdas dos trabalhadores. Ao lado, colocam matéria distinta, relativa ao presidente, com destaque muito menor, mas com foto imensa. Olhando para a capa se vê a foto dele junto à notícia negativa. Sendo ela lida ou não, ocorre a esperada associação. Quem conhece essas “falsas malandragens” nem se surpreende mais. Agora, cá entre nós, no exemplo inicial foi mesmo um exagero. O Globo descarrilou mais feio do que os trens espanhóis. Sem vítimas fatais, evidente. Mas atingindo a democracia mais uma vez.
21.01.2025

O bônus de hoje é Erasmo Carlos, com a música Pega na Mentira.
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