Eu tinha seis ou sete anos de idade, não tenho certeza. Morava em Bom Jesus, uma pequena cidade nos Campos de Cima da Serra, no extremo nordeste do Rio Grande do Sul, desde que nascera. Mas a família da minha mãe estava toda em Porto Alegre e na região metropolitana, para onde eu vinha com frequência, para visitar meus avós. Em uma dessas ocasiões, meu tio Bento, que também era meu padrinho, iria levar esposa, filhos e sogra para um daqueles veraneios antigos, de 30 ou mais dias, na praia do Pinhal. Tinha comprado uma casa por lá, em parceria com cunhados. Como eram várias pessoas e no litoral não havia, ao contrário do que existe hoje, acesso fácil a supermercados, também era bastante considerável o rancho que seguia sempre junto.

Então, como ainda estava com compromissos de trabalho, ele alugou uma Kombi para levar tudo o que se fazia necessário, programando um bate e volta dele até a praia. E resolveu me levar junto, para minha alegria. Saímos muito cedo, com a ideia que tinham os adultos de descarregar tudo por lá, aproveitar um pouco o dia e voltar antes do anoitecer. Tudo estava dando certo: minha euforia pela viagem, a visão dos ossos da baleia que eram uma espécie de monumento na entrada de Pinhal, ver a imensidão do mar, sentir o calor do sol e a carícia das águas que vinham até os pés, espumantes. No retorno, no entanto, a tal Kombi teve um problema mecânico sério. Ficamos na estrada horas a fio, aguardando e recebendo o socorro necessário. Eu resisti o que pude, mas acabei dormindo num dos bancos. Fiquei nele inclusive o tempo no qual se voltou sobre o caminhão guincho, chegando apenas durante a madrugada. Virou uma aventura e eu nunca esqueci dela.

O Rio Grande do Sul, especialmente na região serrana e nos arredores da minha terra natal, é muito frio no inverno. Mas tem temperaturas muito elevadas no verão. Não há amplitude térmica igual em nenhum outro local neste Brasil. Vivemos os dois extremos, entre o abaixo de zero e o facilmente perto dos 40 graus. Quem suporta isso na certa consegue estar sem problema algum em qualquer lugar do planeta. Por isso, boa parte da população gaúcha é nômade nos verões. Porque a proximidade do mar torna tudo mais ameno e agradável, apesar de termos as praias mais feias do país, em termos de paisagem, tirando a exceção que é Torres. Mas, aos meus olhos, asseguro que Pinhal pareceu linda e acolhedora. Na verdade, eu voltei depois várias vezes lá, nessas outras oportunidades ficando com eles, pela generosidade do meu tio, durante esses períodos de férias.

O mar sempre foi fascinante e misterioso. E não apenas na visão de uma criança. A humanidade, quando ainda era estúpida o suficiente para acreditar que a Terra era plana, temia viagens marítimas com medo de desabar de suas bordas para um abismo sem fim. Acreditavam também na existência de monstros sempre prontos a devorar embarcações e seus tripulantes, devido a um apetite voraz e uma fúria sem limites. Mas foi pelo mar que conquistamos novas terras, ampliamos o comércio e o nosso conhecimento, graças ao intercâmbio também de costumes e ideias. Os fenícios tinham domínio da construção naval e se destacaram no seu tempo. Os vikings se deslocavam desde o norte gelado pelo mar, para realizar os saques que lhes garantiam provisões. Ambos os povos, sem instrumentos, se guiavam pelas estrelas e pelas correntes marítimas. Os egípcios inventaram as velas, passando a usar a força dos ventos mais do que a dos braços de remadores. Os chineses contribuíram inventando a bússola. A engenharia naval lusitana tornou Portugal uma grande potência. E nos dias de hoje temos gigantescas estruturas flutuantes, sejam transatlânticos para fins turísticos, sejam porta-aviões com o seu poderio militar, entre outras tantas.

Na literatura, Ernest Hemingway nos brindou com O Velho e o Mar, que produziu em Cuba, no ano de 1951. Herman Melville escreveu sobre um imenso cachalote branco chamado Moby Dick. Júlio Verne nos deu Vinte Mil Léguas Submarinas. Todos esses livros eu li alguns anos depois de ter conhecido o mar. Desde muito pequeno eu me tornara, senão um desbravador de oceanos, certamente um bom rato de bibliotecas. Nosso escritor baiano Jorge Amado, com apenas 24 anos de idade, escreveu Mar Morto, mostrando a vida dos pescadores do cais de Salvador. E hoje em dia temos acesso às aventuras do melhor navegador brasileiro, Amyr Klink, em Cem Dias Entre o Céu e o Mar. É a história de quem constrói um barquinho de menos de seis metros por 1,52 de boca (largura) e atravessa o Atlântico, entre a Namíbia e a Bahia, levando 101 dias.

Os oceanos, que englobam todos os mares, seguem banhando costas e corpos, todo esse tempo. Mesmo que agora tenham em seu interior mais lixo do que peixes – e olha que eles têm uma população gigantesca. Existem tantas praias no mundo que se precisaria mais do que uma vida inteira para conhecer todas elas e bem que eu gostaria de ser apresentado a muitas. Mas Pinhal sempre terá um lugar especial na minha memória afetiva.

15.01.2022

Um dos ossos da baleia que encalhou e morreu em Pinhal, décadas atrás

No bônus musical de hoje temos primeiro Shimbalaiê, de Maria Corrêa Aygadoux, conhecida como Maria Gadú. Ela é uma compositora, cantora e instrumentista brasileira que já foi indicada cinco vezes ao Grammy Latino. O clip mostrado aqui foi feito quando do lançamento do seu trabalho na Alemanha.

Logo depois, a música Reggae na Casa Amarela, de Daniel Lucena e Maka Ferreira, com o Expresso Rural e a Orquestra Camerata de Florianópolis. O clip foi gravado no Teatro Ademir Rosa, na capital catarinense. Falam de (e cantam) Garopaba e arredores, a minha Pinhal promovida, que passei a visitar quando adulto.

Acima está a capa de uma edição em quadrinhos de O Velho e o Mar, clássico de Ernest Hemingway que rendeu ao autor o Pulitzer de Ficção, em 1952, e o Nobel de Literatura, em 1954. Esse trabalho foi feito por Thiery Murat e traduzido para o português por André Telles. Trata-se de uma forma diferente de apreciar literatura de qualidade. Recomendo muito. Basta clicar sobre a imagem e você será direcionado. Caso adquira o livro através desse link, o blog será comissionado.

Havia tempos que Santiago não pescava um só peixe. Sozinho, sem a companhia de seu melhor amigo ― um menino que o ajudava e a quem muito estima ―, o velho pescador rema mar adentro e se vê cercado por água cristalina e animais marinhos. Até que fisga um peixe especial: o peixe que mudaria sua vida. Dias se passam enquanto a batalha entre os dois é travada. Apesar dos sonhos e pensamentos que transcorrem em meio à solidão do alto-mar, o pescador não esmorece. Essa é a história de um homem de mãos calosas, cuja crença em si mesmo é a única coisa que importa. Nessa adaptação Thierry Murat propõe uma versão personalíssima, na qual o despojamento e a contenção de seu estilo combinam admiravelmente com a deriva solitária do velho pescador.

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