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MORTO SEM GRIFE, MORTE SEM COMPAIXÃO

Semana passada, em padaria localizada perto da praça Nossa Senhora da Paz, bairro de Ipanema, na Zona Sul do Rio, um morador de rua entrou no ambiente, tentando conseguir algum pedaço de pão que pudesse mitigar sua fome crônica. Mas ela, a fome, não era o seu maior problema naquele momento. A fraqueza dessa vez tinha outra origem e ele caiu morto no chão do estabelecimento. O que ocorreu a seguir é o exemplo cuspido e escarrado da sociedade atual, desumana e capitalista. As pessoas ao redor continuaram comendo seus lanches, fazendo suas compras, como se fosse normal e corriqueiro agir assim ao lado de um cadáver. O homem, que já era invisível enquanto vivo, permaneceu inexistente depois do desencarne.

Ele não tinha olhos azuis, não trajava terno e gravata, não portava pasta de executivo nem documentos, não costumava praticar esportes na praia próxima. Provavelmente nunca tenha tido, mesmo em tempos melhores, algum cartão para apresentar ao caixa, fosse de crédito ou de visita. Dificilmente alguém nas redondezas o conhecesse pelo nome. E se ele era desimportante vivo, por que razão atingiria qualquer notoriedade morto? Seu único erro – ou acerto, porque agora ao menos vão saber que existiu –, foi não saber escolher lugar mais apropriado para se despedir. Por que não ficou sob a marquise de sempre, ou no beco do dia-a-dia? Tinha que ser numa das padarias do bairro, em hora na qual homens e mulheres de bem apenas queriam comer em paz seu brioche ou sanduíche, beber seu café com leite ou suco de frutas?

A banalização da morte é um dos sintomas mais tristes daquilo em que estamos nos tornando. Moradores do Rio de Janeiro, então, são quase pós-graduados nesse tema. Não bastassem os morros que vez por outra deslizam, há três grupos que adoram se revezar fazendo vítimas. São as milícias, a polícia e os traficantes – que, aliás, muitas vezes se misturam e confundem –, gerando estatísticas impunemente. E não bastassem todas essas “mortes matadas” ainda há, como a desse homem, tantas “mortes morridas”. O negro de idade indefinida ficou lá por duas horas ao menos, esperando a chegada de autoridades. No início, exposto. Depois, coberto com um plástico preto. Como não o moveram, prejudicou um pouco o acesso a um dos freezers do local. Mas nada que impedisse a alimentação dos ainda vivos.

O fato aconteceu por volta das oito horas da manhã da sexta-feira, 27 de novembro. Como as providências legais estavam demorando, o empresário providenciou também um cercadinho com as cadeiras. Para um cliente espantado, que lhe perguntou se não seria melhor fechar a padaria, por questão sanitária e respeito humanitário, respondeu com uma pergunta: “Por que querem que eu tenha humanidade, agora que ele veio morrer jogado aqui dentro, se ninguém teve humanidade enquanto ele estava na rua?”. Um pouco de frieza, um pouco de verdade.

Estamos terceirizando nossa condição de sentir, nossa capacidade de indignação. Dane-se a dor, não sendo minha; dane-se quem a sente, não sendo eu! Se o que acontece de ruim não é conosco, nem com alguém muito próximo de nós, não nos interessa. Não nos diz respeito, não nos choca. Vamos mastigar nosso pão, no máximo agradecendo porque ainda o temos, sem ter que depender da caridade alheia.

Quando o corpo foi retirado, sem reverência, sem prece e sem pressa, ninguém quis saber para onde seria levado. Um a menos para pedir, um a menos para incomodar. Se nenhum familiar for descoberto, uma cova rasa a mais para ser aberta. Nossa vergonha deveria ser enterrada junto. Mas essa sequer adubaria uma flor.

02.12.2020

No bônus musical de hoje, Thaís Morell, violão e voz interpretando De Frente Pro Crime, de João Bosco e Aldir Blanc. A música integra originalmente o álbum Caça à Raposa, lançado por ambos em 1975.