Existem duas escalas diferentes de marcação da temperatura. Uma das medidas é feita em graus Celsius e a outra em graus Fahrenheit. A maior parte dos países do mundo faz uso da primeira, que se originou a partir de modelo proposto pelo astrônomo sueco Anders Celsius, em 1742. A segunda, que é menos usada, na verdade foi criada antes, pelo físico, engenheiro e soprador de vidro polonês Daniel Gabriel Fahrenheit, no ano de 1724 – o final invertido fica como sugestão para o jogo do bicho. Em termos de comparação, cada grau Celsius equivale a 1,8 Fahrenheit.

Um livro escrito em 1953 usou essa segunda escala em seu título, o que pode soar bem estranho se o leitor não souber a razão disso. Me refiro a Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Nele o autor conta a história de um tempo no qual os livros são proibidos, devendo ser queimados quando descobertos, sendo considerados criminosos os proprietários que os mantivessem escondidos. Essa obra é a versão ampliada de um conto que o escritor e roteirista norte-americano havia produzido antes, com o título de The Fire Man (O Bombeiro), na sala de datilografia existente no porão da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Ele alugava para tanto uma máquina de escrever, pagando dez centavos de dólar. O nome dado ao trabalho ampliado refere à temperatura na qual o papel entra em combustão e é destruído.

Na sociedade distópica que é descrita, as pessoas passam boa parte de suas vidas consumindo doses maciças de comprimidos tranquilizantes e sentadas em frente à televisão. A soma destes dois recursos garante que a sociedade permaneça alienada, com ambos cumprindo o fundamental papel da “pacificação”, do estímulo ao não pensar. E para garantir que ninguém saia dessa situação e busque a centelha desafiadora que os livros propiciam, existem os “bombeiros”, um grupo de agentes responsáveis pela “higiene pública”. É sua a responsabilidade de queimar todos os livros que sejam encontrados a partir de denúncias.

A reação das pessoas se dá através de grupos que se organizam para memorizar as obras, como forma de resistência. Mas o ponto central da narrativa está no momento em que o personagem Guy Montag, que é um dos bombeiros, se depara com uma mulher que se recusa a abandonar seus livros localizados pela censura, optando por ser incinerada junto com eles. Ele percebe que deve haver algo muito importante naqueles objetos de papel, pois só isso explicaria alguém preferir sua própria morte do que passar a viver sem eles. Mas essa sua nova postura questionadora se torna um desafio ao sistema, passando ele próprio a ser vítima, precisando ser reeducado sob pena de prisão.

Ray Bradbury era apaixonado pela leitura desde criança. Consumidor contumaz de todas as obras de Júlio Verne, Edgar Allan Poe e H.G. Wells, ele frequentava quatro vezes por semana as bibliotecas de sua cidade. Como autor, escreveu mais de 400 contos e publicou perto de 50 livros, com ensaios, poesias, peças de teatro, roteiros para filmes e toda a sorte de narrativas ficcionais, com ênfase para ficção-científica, fantasia e horror. Recebeu merecido reconhecimento profissional ainda em vida, sendo agraciado com várias premiações, a última delas o Pulitzer Prize Special Citation, no ano de 2007. Outras de suas obras marcantes são Os Frutos Dourados do Sol e Crônicas Marcianas, ambas de literatura fantástica, além de O Homem Ilustrado. Faleceu em 2012.

Na vida real, a queima de livros já aconteceu – e ainda acontece – em inúmeras ocasiões. Em quase todas foram rituais que pretendiam apagar a história e silenciar aspectos da cultura ou de ideologias opostas aos detentores do poder. Em 1258 destruíram a Biblioteca de Bagdá. O mesmo foi feito na China, durante a dinastia Qin. As fogueiras públicas organizadas pelos nazistas na Alemanha são dos registros mais tristes daquele regime. Nos Estados Unidos, ainda nos anos 1950, houve determinação do governo para destruição de milhares de obras que consideravam “contrárias aos bons costumes”. Algo semelhante foi feito no Chile, no período da ditadura de Pinochet. E aqui no Brasil, poucos dias atrás, bolsonaristas promoveram queima de livros de Paulo Coelho por ele ter criticado o atual presidente. Ao mesmo tempo está sendo anunciada taxação que tornará os livros ainda mais caros e distantes da maioria da população brasileira, talvez buscando acabar com o “problema” na sua origem. Se isso não resolver, o próximo passo provavelmente seja eliminar os escritores. Por segurança, não convém duvidar.

19.10.2020

Na foto, uma das muitas “cerimônias” de queimas de livros promovidas pelos nazistas

No bônus de hoje não teremos música. Nele o ator Antônio Abujamra declama o poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira. Foi publicado no livro Libertinagem, em 1930, com características modernistas. Retrata a ideia de uma fuga imaginária, para um local que é muito melhor do que a realidade.

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