O PATETA E OS PATÉTICOS

Walt Disney, primeiro sozinho e mais tarde apoiado por uma equipe talentosa, criou muitos personagens que habitaram nossa infância e, inclusive, seguiram conosco depois dela. Uma das figuras, mesmo não estando entre as centrais no início, era o Pateta – em inglês o seu nome é Goofy, mas antes era identificado como Dippy Dawg. Esse nasceu em 1932, sendo companheiro de aventuras do Mickey e também do Pato Donald, formando o trio mais famoso daquele estúdio. Como os demais, ele também surge baseado em um animal. Se os parceiros são um rato e um pato, ele é um cão da raça Bloodhound, tendo uma aparência esguia e desengonçada.

Essa raça de cães é famosa por ter grande habilidade em caçadas. Tem uma sensibilidade olfativa apurada e se trata de um bicho dócil, apesar de assustar pelo tamanho, quem esteja desavisado. Atinge cerca de 60 centímetros de altura e uns 40 quilos. Sua energia é grande o suficiente para exigir passeios constantes e seus donos precisam também garantir atividades que desafiem sua inteligência. Ou seja, não é recomendável a escolha, se a pessoa mora em apartamento.

Não se pode precisar com exatidão a época na qual a raça se originou. Mas a probabilidade maior gira em torno do Século XVII, quando viviam entre os monges do Monastério de Santo Humberto, que os usavam para rastrear caça e farejar trufas e cogumelos. Sabe-se, por exemplo, que todos os anos os monges costumavam presentear o rei da França com dois exemplares: um preto e outro marrom. Isso contribuiu também para que eles fossem se tornando favoritos entre os nobres em geral.

O primeiro personagem criado por Disney foi o Oswald the Lucky Rabbit (Osvaldo, o Coelho Sortudo), em 1927. Mas ele acabou perdendo os direitos autorais, tendo então que criar um outro. A alternativa se tornou a maior de suas criações: Mickey Mouse, em 1928 – o Pato Donald é de 1931. Foi naquele ano que o desenhista lançou o curta Steamboat Willie (O Vapor Willie), no qual se via pela primeira vez o camundongo. Aliás, essa aparência original estará liberada para uso sem acordo de licença, a partir de 2024, uma vez que a lei de propriedade intelectual dos EUA garante exclusividade apenas por 95 anos.

Voltando ao Pateta, estranho na história é que seu amigo Mickey se relacionava, de outra forma, com mais um cão da raça Bloodhound: o Pluto, seu bicho de estimação. Ou seja, enquanto animais se comportam como seres humanos, eles mesmos possuem seus pets. Isso fez, por exemplo, com que se presenciasse situações bem estranhas. Horácio, um outro personagem, que é um cavalo, pratica equitação em alguns episódios. Em uma outra história Mickey aparece como caçador de patos, mesmo sendo o melhor amigo de Donald. É importante salientar que ainda no Século VI antes de Cristo tinham surgido as fábulas, histórias nas quais os animais falam. E quem primeiro adotou esse recurso nos quadrinhos foi o norte-americano James Swinnerton, em 1895, com O Pequeno Urso.

A aprovação do público para com Pateta foi imediata. Quem não gosta de um personagem que faz papel de bobo, quase que o tempo todo? A ingenuidade é divertida, exceto quando causa problemas mais sérios do que nossa capacidade de resolvê-los. Mesmo assim, o personagem só atingiu seu auge com o longa-metragem Goofy and Wilbur chegando aos cinemas em 1939. Pluto, por sua vez, sequer tinha um nome em seu desenho de estreia, The Chain Gang.

Com o passar do tempo e o surgimento de tantos super heróis, criados por outros estúdios, o pessoal da Disney fez uma brincadeira com o seu Pateta. Em 1965 os criadores Del Curry e Paul Murry deram também a ele superpoderes. Bastava que ele comesse um determinado tipo de amendoim – Popeye ficava forte com espinafre – e sofria transformação. Surgia assim o Super Pateta, com um uniforme trazendo as cores da bandeira do seu país. Ele era um patriota. Entretanto, a capa foi feita com uma toalha de mesa e seu corpo ficava coberto por uma ridícula ceroula, que tinha inclusive uma abertura na altura da bunda, presa com botões. Mas ele pouco se importava com isso. O importante era estar em condições de enfrentar seus inimigos: Doutor Tic-Tac, Doutor X e Doutor Estigma.

Hoje em dia nos deparamos seguido com patetas – ou seriam apenas patéticos? – fora dos gibis. E fora da casinha. Combatem não doutores, mas um homem que frequentou pouco os bancos escolares. E também a maioria da população. Podemos vê-los sem comprar nenhuma revistinha e, com certeza, a sua força não vem de amendoins. Preferem carne de boa qualidade, em fartas porções distribuídas de graça. Não usam ceroulas, mas moralmente estão com a bunda de fora. O Pateta da Disney existe há 90 anos: os patéticos têm prazo de validade de 90 dias, que já estão correndo. Depois, tanto um quanto os outros serão apenas histórias. Nem todas engraçadas.

16.11.2022

P.S.: Depois de publicada a crônica de hoje, me dei conta de que praticamente repeti o título dado para outra, em 17.10.2021. Asseguro que o personagem usado na comparação foi o mesmo, mas o conteúdo é diverso. Se desejaram comparar, recomendo a leitura do anterior, que pode ser facilmente acessado clicando na sugestão que aparece um pouco abaixo do bônus musical.

Loucura por loucura, o bônus musical de hoje é Cachorro Louco, de Jorge Mautner.

 

COMO DESTRUIR A NAÇÃO ATÉ 2035

Militares de três diferentes “institutos” – General Villas Bôas, Sagres e Federalistas – acabam de elaborar e divulgar documento no qual apresentam uma proposta e projeções para o nosso país, com ações que se estenderiam até o ano de 2035. Com o pomposo nome de Projeto de Nação, suas 93 páginas defendem coisas como a cobrança pelo atendimento do SUS, que constitucionalmente é universal e gratuito; o fim da autonomia das universidades; a ocupação total da Amazônia, com a remoção de todas as restrições da legislação ambiental e indígena sobre áreas que sejam atrativas para o agronegócio e a mineração; e o afastamento do Brasil daquilo que passaram a chamar de “globalismo”, que é interdependência dos países. Fazem ainda referência à suposta “falência do sistema jurídico”; à necessidade de ampliar a indústria bélica; sobre controlar a imprensa; adaptar a educação básica para o sistema das escolas cívico-militares; coibir a ação das ONGs; e ampliar a produção nacional de agrotóxicos. Ou seja, é um plano minucioso para doutrinar as pessoas, controlar as narrativas, destruir a capacidade pensante, impedir a existência dos movimentos sociais e acabar de vez com qualquer perspectiva de desenvolvimento real, nos relegando à eterna dependência e subserviência. Tudo ao melhor estilo “bater continência para uma bandeira estrangeira”.

Se fossem só essas e outras ideias absurdas, não haveria novidade alguma e nenhum problema. Mas o ponto alto é que eles propõem ainda que seja instituído uma espécie de Central de Governo, que teria a atribuição de implementar tudo o que está sendo proposto, independente dos presidentes que venham a ser democraticamente eleitos no período. Ou seja, o país do orçamento paralelo teria também um governo paralelo. Esse é o ponto alto do delírio, do abuso de poder, do desejo de ir além das suas prerrogativas constitucionais, estabelecendo uma ditadura militar sem a necessidade de armas. Ou sem elas num primeiro momento.

Adotando essas propostas a nação sem dúvida alguma estará destruída muito antes de 2035. Mas, vamos examinar esses tópicos citados, isoladamente – lembrando que não para nisso, uma vez que escolhi pela aparente relevância e não citei a totalidade dos seus 37 “temas estratégicos”. Começando pelo SUS, nosso sistema é exemplar e já foi reconhecido como destaque mundial, com o ex-presidente Obama o usando como referência para propor alterações nos Estados Unidos. Foi graças a ele, por exemplo, que não morreram ainda mais brasileiros devido à pandemia de Covid. Apenas ele pode atender a integralidade da atenção e o acesso universal, não atuando apenas no que se refere à doença. Desde a vigilância sanitária, o controle sobre a fabricação e consumo dos medicamentos e da alimentação são também atribuições suas.

A partir do SUS é que nasceu a municipalização da saúde, com a distribuição de recursos nos três níveis de governo, garantindo melhor planejamento e o seu uso de acordo com as necessidades e prioridades de cada região. Entenda-se que mesmo sendo ele fundamental para os mais necessitados, atende pessoas de todos os níveis socioeconômicos. E o seu financiamento está longe de “falir” o país, existindo recursos para sua manutenção. Mesmo que ainda existam problemas de gestão, o que deve ser discutido é o seu aprimoramento e não a adoção de cobrança pelo serviço prestado. Saúde não é mercadoria, mas um direito constitucional. Interessante é que na proposta dos “institutos” nada é falado sobre os vários Hospitais Militares, que continuariam disponíveis para os atender e a seus familiares, sem custo algum.

As universidades públicas, tão criticadas pelo atual governo, desde a sua posse, são responsáveis pela excelência em pesquisa científica. Com os resultados alcançados o país desenvolve tecnologia própria e gera desenvolvimento. Na sua autonomia está centrada a condição de atuar independente da política e de suas oscilações. No que se refere à Amazônia o atual nível de desmatamento, a contaminação dos rios com mercúrio por parte do garimpo ilegal e o desrespeito para com os povos originários são fatores que envergonham o país, além de causar enorme destruição e prejuízo econômico. Quando o mundo todo clama pelo enfrentamento dessas questões, o documento militar propõe agravar tudo. E globalismo é o termo usado por detratores da globalização, que têm a ideia de que é possível se viver fora do sistema que integra as nações, fora da cooperação internacional. Sem ela, como teríamos por exemplo resolvido o recente problema da necessidade de vacinas durante a pandemia? A rapidez com que se descobriu e passou a produzir os imunizantes se deveu ao esforço que foi feito em várias partes do mundo, simultaneamente. O Brasil mesmo contribuiu para o resultado positivo alcançado.

Se podemos dizer que o nosso sistema jurídico foi falho, isso foi quando não responsabilizou quem deu o golpe militar de 1964. Ou quando da condenação de Lula sem provas. Hoje, ao esquecer em gavetas os pedidos de investigações contra a familícia; e na morosidade com que algumas decisões de importante cunho social são tomadas. Investir em indústria bélica, quando nossos vizinhos não têm tamanho e interesse em nos causar qualquer mal, ao mesmo tempo em que não teríamos como resistir a um ataque de grandes potências, se torna uma decisão ridícula, que retira recursos de áreas prioritárias. O controle da imprensa de certa forma já está sendo feito, através de uma mídia que está no poder de poucas pessoas e de redes sociais contaminadas.

A ideia de “desideologizar” tanto a Educação Básica quanto o Ensino Superior trata-se de uma falácia. A tática de criticar exatamente aquilo que pretendem fazer. As poucas escolas cívico-militares já implantadas estão com sérios problemas. As comunidades reclamam e já comprovaram em vídeo violência física contra estudantes, na alegação de disciplina; além de intromissão na questão pedagógica, que não deveria ocorrer segundo a proposta original. Censuram os trabalhos dos alunos e conteúdos que os professores podem ou não ministrar. E se mostram cabides de emprego para oficiais aposentados. Coibir a ação de ONGs significa tirar de boa parte da população acesso a serviços que deveriam estar sendo prestados pelo governo e elas é que terminam fazendo isso. Vale para as áreas da saúde, educação, assistência social e muito mais. Quanto aos agrotóxicos, basta lembrar que o atual governo já autorizou a entrada de 1.560 novos produtos, a maioria deles com uso proibido em seus países de origem. Ou seja, seria a continuidade do desserviço de contaminar alimentos e o solo, pensando apenas nos interesses do agronegócio, que teriam acesso barateado e consequente aumento dos lucros em detrimento da saúde pública.

Simplificando, a adoção do Projeto de Nação, por parte daqueles que se julgam mais patriotas que todos os outros cidadãos, seria um verdadeiro crime de lesa-pátria. E a simples proposta aponta para a necessidade mais do que urgente de estarmos atentos às eleições de outubro deste ano. A menos que não se deseje deixar nada de herança positiva para as futuras gerações.

1º.06.2022

O bônus musical de hoje é Cálice, de Chico Buarque de Holanda, com ele e Milton Nascimento. Trata-se de uma triste lembrança de um tempo que não deixa de assombrar a nossa história e nossas vidas. Época que alguns insistem em tentar fazer com que retorne.

DICA DE LEITURA

A MENTE MORALISTA, de Jonathan Haidt

(448 páginas – R$ 57,90)

“Um best-seller revelador e despretensiosamente ambicioso… Sem dúvida, um dos livros mais comentados do ano.” – The Wall Street Journal

 “Majestosamente escrito, sofisticado e estimulante. Pode muito bem mudar a maneira como você pensa e fala sobre política, religião e natureza humana.” – Edward O. Wilson, Universidade Harvard, autor de Consiliência: A unidade do conhecimento.

Enquanto os Estados Unidos mergulhavam na recente polarização e na paralisia, o psicólogo social Jonathan Haidt fez o aparentemente impossível ― desafiar o pensamento convencional sobre moralidade, política e religião de um modo que encanta a todos no espectro político. Com base em seus 25 anos de pesquisa inovadora em psicologia moral, ele mostra em seu livro como os julgamentos morais não surgem da razão, mas das emoções. Haidt explica por que liberais, conservadores e libertários têm intuições tão diferentes sobre certo e errado, e demonstra por que cada lado tem, de fato, razão sobre muitas de suas preocupações centrais. Neste livro perspicaz, porém acessível, Haidt nos dá a chave para entender o milagre da cooperação humana, bem como a maldição de nossa eterna segregação e conflitos.

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