O BRASIL POSTO DE JOELHOS

Parece mentira deslavada ou talvez o roteiro de um filme de conteúdo duvidoso – como outro que está sendo produzido com objetivos políticos bastante claros. No entanto, trata-se da mais absoluta e vergonhosa realidade. O candidato Flávio Bolsonaro, que nas eleições de outubro representará a extrema-direita na disputa pela Presidência da República, foi à Casa Branca buscar apoio junto a Donald Trump e, em troca, sinalizou disposição para subordinar interesses estratégicos do Brasil aos dos Estados Unidos. Uma proposta que, se levada adiante, significará abrir mão de parcelas importantes da soberania nacional.

O que o atual senador, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ofereceu em troca não foi apenas um estreitamento nas relações bilaterais entre os dois países. O que fez foi abrir mão de recursos, de decisões e do destino do nosso país. Segundo analistas e setores da diplomacia brasileira, tal caminho levará a mudanças profundas e prejudiciais em áreas fundamentais, caso as propostas venham a ser implementadas a partir de 2027. Isso é tão absurdo que, se fosse o contrário, o cidadão norte-americano que viesse a oferecer algo parecido do Brasil seria preso por traição à pátria.

O primeiro item do saboroso “menu” propõe deter toda e qualquer iniciativa de regulação das plataformas digitais. O movimento acompanha a posição adotada por Trump e por empresários ligados às grandes empresas de tecnologia, que criticam medidas voltadas ao controle de conteúdos nas redes sociais, mesmo quando sejam apologia ao crime ou desinformação proposital.

No campo da segurança, Flávio Bolsonaro afirmou que pretende integrar o Brasil ao chamado Escudo das Américas, iniciativa anunciada pelo governo Trump para ampliar a cooperação militar no continente. A proposta prevê acordos de defesa, compartilhamento de informações – as que interessem aos estadunidenses – e fornecimento de alguns equipamentos aos países participantes. Especialistas em relações internacionais observam e apontam que os acordos firmados por Washington com outros países já incluem e vão incluir ainda maiores restrições à aproximação com potências consideradas suas rivais, como são a China, a Rússia e o Irã, além de impedir qualquer apoio para Cuba.

Outra posição defendida pelo senador é a de apoio e concordância com a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. A medida, segundo especialistas em segurança, não serviria apenas para ampliar a cooperação entre autoridades brasileiras e agências norte-americanas no combate ao crime organizado, como abriria brecha para intervenções em nosso território, inclusive militares.

O pré-candidato também já manifestou apoio a uma aproximação com os Estados Unidos na área de minerais estratégicos. Isso porque o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do planeta, recursos que são fundamentais para a indústria tecnológica e para a produção de equipamentos militares, sendo por isso a menina dos olhos (grandes) do “Grande Irmão do Norte”.

Na área econômica, Flávio Bolsonaro declarou que um eventual governo seu manteria negociações diretas com Trump para evitar barreiras comerciais contra produtos brasileiros. Entre os temas que podem entrar em debate está a abertura de mercados atualmente dominados por soluções nacionais, como o sistema PIX, alvo de críticas de setores do governo norte-americano. Ou seja, grandes grupos estadunidenses poderiam atuar livremente no setor.

A possibilidade de mudanças também alcança a atuação diplomática do país. Durante o governo Jair Bolsonaro, o Brasil passou a votar ao lado dos Estados Unidos em temas relacionados a Israel, Cuba, pautas de costumes e desrespeito a organismos como a OMS, Unesco e OMC. Voltará a fazer isso.

Diplomatas ouvidos por diferentes setores da imprensa avaliam que um retorno do bolsonarismo ao poder irá representar uma nova orientação da política externa brasileira, com maior proximidade em relação a Washington e revisão de posições tradicionalmente adotadas pelo Itamaraty. O que contraria toda uma tradição positiva e equilibrada do Brasil no cenário internacional.

Flávio Bolsonaro não parece candidato à Presidência do Brasil. Parece querer governar uma 51ª estrela da bandeira dos Estados Unidos e não um país soberano. Aceita ser um mero preposto, sem dignidade, sem autonomia real, comprovando que ele próprio e todo o seu grupo político são patriotas de ocasião e nada verdadeiros.

07.06.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é o clipe de uma das músicas da banda Green Day: American Idiot (Idiota Americano). A canção foi lançada em 2004 como o single principal do álbum homônimo. Misturando punk rock e crítica social, tornou-se um dos maiores sucessos do grupo e um hino de protesto da década de 2000.