UM DOMINGO DOLOROSO

O amanhecer do último domingo em Shreveport – uma cidade com cerca de 180 mil habitantes situada no noroeste da Louisiana (EUA) – permaneceu coberto de escuridão, mesmo após o sol surgir. Por volta das seis horas da manhã deste dia 19 de abril, um homem armado abriu fogo contra pelo menos dez pessoas, sendo oito delas crianças e adolescentes que perderam suas vidas. Com idades entre um e 14 anos, sete das vítimas eram filhas daquele que puxou o gatilho. Para nenhuma delas houve tempo nem para o café da manhã, muito menos para o futuro.

O que assusta nesta tragédia não é apenas o número, embora ele seja absurdo por si mesmo, como seria se apenas uma tivesse sido atingida. Claro que é terrível saber que o adulto que deveria proteger e servir de exemplo desprotege, aniquila, extermina. Entretanto, o que realmente apavora é a rapidez com que eventos semelhantes têm sido processados e arquivados pela consciência coletiva, especialmente naquele país sem que seja apenas nele. A consciência coletiva está sendo degradada com a memória, com registros que não servem mais sequer como exemplo do que precisa ser evitado de uma vez por todas.

Essas mortes não são apenas um ruído de fundo, um acidente, exceção à regra. Há dados estatísticos em um gráfico de barra que sobe sem parar, revelando uma sociedade que, sob pretexto de garantir liberdade individual e a busca da segurança pessoal, assegura o estúpido direito do porte e uso de ferramentas de extermínio. Ou seja, abre mão daquela que deveria ser o primeiro e o mais básico de todos os direitos, que é o de sobreviver à infância.

Há uma patologia silenciosa instalada no coração do mundo ocidental. Vivemos uma dissolução lenta da ética, onde o valor da vida humana é pesado em um dos pratos da balança, estando no outro os interesses e o lucro de indústrias e a teimosia de ideologias armamentistas. Onde foi parar a dignidade, outrora pilar de democracias modernas? Isso agora não passa de um conceito volátil, incapaz de resistir ao impulso de um dedo posto no gatilho de uma arma. E na incapacidade de quem faz isso resistir a um impulso. Isso tudo associado à paralisia de legisladores que assistem por lá a barbárie com a mesma passividade burocrática e os interesses escusos que os seus pares daqui tentaram incutir no Brasil, recentemente.

O episódio que tornou Shamar Elkins um assassino frio e cruel se trata de um sintoma terminal de isolamento moral. Quando um homem decide que uma possível solução para sua instabilidade é o aniquilamento da própria descendência, e o Estado lhe fornece os meios necessários para fazer isso em minutos, o colapso não é individual e sim sistêmico. É o sinal de que a sociedade desistiu de se proteger e que, ainda pior, desistiu de sentir horror.

O homem acabou morto pela polícia, logo depois. Porém, essa não é a solução. Nunca será a solução eliminar quem elimina. Enquanto ocorre a investigação, se apagam os rastros de sangue e os vizinhos depositam flores, a pergunta que fica não é “por que isso aconteceu?”. Entretanto, a resposta é óbvia demais: aconteceu porque é permitido, incentivado e, por muitos, venerado. A pergunta real que deveria ser feita é quanto resta de humanidade em nós antes que o próximo massacre seja apenas mais uma notificação ignorada na tela de um celular.

Nos Estados Unidos, apenas do início do ano até agora – sem contar os números de Shreveport – já haviam ocorrido pelo menos 119 ataques a tiros em massa, contabilizando 117 mortes, sendo 79 delas crianças. Mas, o que esperar de um povo cujo presidente tem ameaçado destruir uma nação inteira, nos últimos dias? Ameaçado atacar a estrutura civil de um país contra o qual ele e o primeiro-ministro de Israel decidiram, unilateralmente e sem sequer declaração de guerra, lançar milhares de mísseis e bombas.

O Ocidente, em sua busca por um tipo distorcido de poder, parece ter esquecido que uma civilização que não consegue manter suas crianças vivas dentro de casa já não é mais uma civilização. Por isso, nossa indignação não pode mais ser adiada, não importando onde e com quem uma tragédia dessas ocorre. Gritar BASTA é essencial e urgente.

20.04.2026

O bônus de hoje é a música Youth on the Nation (Juventude da Nação), de P.O.D. Ela foi escrita após um ataque a tiros ocorrido em uma escola na Califórnia. A letra narra as histórias de jovens cujas vidas foram ceifadas ou marcadas para sempre pela violência armada e pela falta de sentido.