O paulista de Ribeirão Preto, Clóvis de Barros Filho, tem bacharelado em Jornalismo e em Direito, além de possuir mestrado em Ciência Política pela Sorbonne e doutorado em Ciências da Comunicação pela USP. Ele consolidou sua vida como professor na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), onde se tornou professor livre-docente em cadeiras de Ética. Mesmo com essa formação sólida, prefere se apresentar como um “explicador”, termo que adotou a partir de um conselho dado por seu pai. Transitando entre o rigor acadêmico e a comunicação social, se trata de uma das figuras mais singulares da intelectualidade brasileira contemporânea.
Clóvis se tornou conhecido por suas palestras cheias de energia e sem o uso de recursos convencionais, tipo PowerPoint e outras alternativas da tecnologia. Confiando apenas na retórica, traduz para entendimento das pessoas leigas com maestria conceitos complexos, como de Spinoza, Kant e Nietzsche. Mais recentemente, devido a ter sido diagnosticado com Doença de Behçet, tomou um rumo mais introspectivo. Esta é uma síndrome autoimune rara e incurável, que causa inflamação dos vasos sanguíneos.
Em entrevistas recentes, ele tem sido muito direto e franco sobre a sua situação e a finitude. E afirma que “a vida precisa valer agora”. Valiosos continuam sendo seus ensinamentos, mesmo que mais esporádicos. Devido ao tratamento com imunossupressores potentes, reduziu muito o seu ritmo de trabalho e de viagens. Entretanto, continua extremamente ativo em se tratando da produção de conteúdo digital, livros, podcasts e cursos. Entre esses últimos, acaba de estrear um inédito, sobre filosofia, que a plataforma CasaFolha oferece, sempre focada em grandes pensadores.
As palestras de Clóvis têm uma característica interessante. Ele sempre as começa com a descrição de uma situação banal. Algo doméstico, como o ocorrido enquanto tomava café ou em uma conversa com o neto. Depois disso, fazendo ilações, costuma ir crescendo em conceitos mais complexos. Este recurso prende a atenção das pessoas e delineiam uma estrada que pode ser percorrida sem percalços.
Essa forma de usar o cotidiano como uma isca, de certo modo é o que todo cronista busca fazer. Ambas as narrativas partem do micro para o macro, da visão singular para a pluralidade, do detalhe cotidiano para a condição humana. Quando se consegue fazer isso com proximidade e com cumplicidade, fica perfeito. Tanto para uma palestra quanto para o texto que se escreve na solidão do escritório. Até porque, no caso de Clóvis, o que ele faz é performar crônicas orais. E um ingrediente que tem grande valia na receita é a humildade. Algo sobre o que ele também alerta constantemente.
Dias atrás eu o ouvi contando uma história. Estava estudando na França e Bordier, que era seu professor, soltou uma frase que ele não entendeu. “Os circuitos de consagração social serão tanto mais eficazes quanto maior a distância social do objeto consagrado”. Na aula seguinte então ele, mesmo que um tanto envergonhado, confessou não ter conseguido decifrar aquilo. Como resposta, ouviu um “mesmo assim é evidente”. E como o aluno continuou com a expressão vazia, recebeu um exemplo que não apenas o esclareceu como recuperou sua autoestima.
“O senhor lança um livro e recebe de imediato três elogios. O primeiro é da sua mãe, o segundo de um colega de faculdade e o terceiro é de um cara que você não conhece, mas que veio de longe e é um leitor contumaz. Qual dos três elogios é o mais consagrador?” Como a resposta óbvia é que o maior de todos é o do estranho, se apreende que o elogio mais ineficaz de todos é o próprio, considerando que a distância nesse caso é zero. Sintetizando, em qualquer atividade é imprescindível que, além de se tentar sempre fazer o melhor, se fique atento para não nos iludirmos com a crença em um brilho falso, com a aparente impressão de que estamos ótimos e, portanto, sem a necessidade de se melhorar.
31.03.2026

O bônus de hoje é Paciência, música de Lenine e Dudu Falcão, na voz de Lenine.
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