XINGAMENTOS RETRÔ
Baixou muito o nível na política e até no judiciário, nos últimos tempos. Haja vista o que tem acontecido no Supremo Tribunal Federal. Agora, eu sou do tempo em que, na Câmara dos Deputados, por exemplo, até para xingar um colega de quem discordava pontualmente, o integrante fazia uso de pronomes de tratamento rigorosamente protocolares. Inaceitável chamar o outro de mentiroso. Melhor usar algo como “Vossa Excelência mantém com a verdade uma relação tão distante que dificilmente ambas serão encontradas no mesmo recinto.” E antes que alguém me critique, quero dizer que são AMBAS, sim: a Vossa Excelência, uma expressão gramaticalmente feminina independentemente do destinatário; e a verdade. O insulto continuava lá, mas com inegável elegância, com elaboração.
No Judiciário, a tradição era ainda mais acentuada. “Eminente ministro”, “ilustre advogado”, “com a devida vênia” e outras tantas fórmulas não significavam necessariamente concordância ou cordialidade pessoal. Eram parte de um código institucional destinado a separar o conflito de ideias do ataque pessoal. Chamar de ignorante ou meramente desatento, jamais. Melhor dizer “É preciso extraordinário esforço interpretativo para chegar à conclusão sustentada por Vossa Excelência.” Ou ainda “A tese é engenhosa, embora inteiramente desprovida de fundamento jurídico.”
Pois foi revendo alguns vídeos de embates recentes entre integrantes desses poderes da República que eu me peguei relembrando algumas expressões que caíram em desuso. São aquilo que se convencionou, ao menos hoje em dia, chamar de retrô, num galicismo compreensível, que evoca ou reproduz esteticamente o passado. Xingamentos “vintage”, acreditem, podem ter muito sabor e oportunidade.
Proponho, inclusive, que se revivam alguns deles, tão essenciais quanto sonoros. Estrupício poderia abrir a lista. É gostoso até de pronunciar. Ele ocuparia um lugar especial, ao lado de outros tantos que parecem exigir que se esteja vestido à altura para pronunciá-los: paletó e gravata, ou roupa de festa. Assim como biltre ou ainda sacripanta. É bem capaz de o ofendido, se lhe faltar conhecimento, sentir-se elogiado. Não duvido que inclusive agradeça.
Há ainda o salafrário e o mequetrefe, que envelheceram bem menos do que outros e, por isso, ainda é arriscado recuperá-los. Não estão a sete palmos e podem ser entendidos em momentos inadequados. Como quando você está sozinho ou em minoria. Posso citar palerma, tratante e paspalho. Evite riscos optando por mentecapto, néscio ou ignaro.
Existem xingamentos que requerem dicionário. São eruditos, quase diplomáticos. Não dá para partir para a briga. Quem ainda vivo pode ter usado estólido, estafermo, sicofanta ou sevandija? Essa última palavra, então, se trata de verdadeira preciosidade. Refere pessoa desprezível, que vive às custas dos outros, um ser vil. E, para fechar, recorro a outro que também admiro pela pronúncia, como aquele usado na abertura do texto. Falar energúmeno é quase uma fisioterapia para as cordas vocais. Tem força, tem vitalidade, faz voltas antes de sair pela boca.
Estou pensando sinceramente em enviar essa crônica para integrantes dos Três Poderes, em Brasília. Eles se atualizariam com o passado, o que não deixa de ser paradoxal. E seria mais divertido para aqueles que acompanham as reuniões.
02.10.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é Arte do Insulto, do Matanza. Esta banca carioca foi dissolvida em 2018, depois de 22 anos na estrada. Se caracterizava por uma mistura de hardcore punk, heavy metal e country, sobretudo no que se poderia chamar de universo Johnny Cash. Suas letras falavam de bares, brigas, sujeitos mal-encarados, azar, bebida e ressaca.