A história do Panamá, um pequeno país da América Central, com pouco mais de 75 mil quilômetros quadrados – menor do que Santa Catarina e algo muito próximo à área que tem a Escócia – e cerca de 4,6 milhões de habitantes, sempre teve sua história e destino ligados com o trânsito de pessoas e mercadoria. Antes da colonização, o istmo era habitado por diversos grupos indígenas, como os Cueva, Coclé e Guna. Em 1501, o navegador explorador Rodrigo de Bastidas foi o primeiro europeu a alcançar a região. Mais tarde, em 1513, o também espanhol Vasco Núñez de Balboa cruzou o seu território e “descobriu” o Oceano Pacífico, confirmando que o Panamá era a ponte definitiva entre os dois mares.
Durante os séculos XVI e XVII, o Panamá tornou-se o centro logístico da Espanha nas Américas. Todo o ouro e prata extraídos do Peru cruzavam o istmo (pelo Caminho Real) para serem embarcados rumo à Europa. Essa riqueza atraiu piratas famosos, como o galês Henry Morgan, que destruiu a Cidade do Panamá original em 1671.
Em 1821, o Panamá declarou independência da Espanha. No entanto, em vez de seguir a partir de então como uma nação soberana, uniu-se voluntariamente à Grã-Colômbia de Simón Bolívar (que incluía Colômbia, Venezuela e Equador). Mesmo após a dissolução daquela federação, o Panamá permaneceu como uma província colombiana, embora tenha tentado se separar algumas vezes ao longo do século XIX, sempre com movimentos incipientes, de minorias.
A virada para o século XX trouxe um fator determinante para a história moderna panamenha: o interesse dos Estados Unidos em construir um canal interoceânico. Em 1903, após a Colômbia rejeitar um tratado para a construção do canal, o Panamá — com o fundamental apoio militar e político dos estadunidenses — declarou sua separação definitiva, no dia 3 de novembro. Por uma dessas coincidências que acompanham nosso “Grande Irmão do Norte” ao longo do tempo, bastou isso para que fosse assinado, logo após, o Tratado Hay-Bunau-Varilla. Ele dava aos EUA o “controle perpétuo sobre a zona do canal”.
O Canal do Panamá foi inaugurado em 1914, transformando o país em um hub de comércio mundial. Entretanto, a presença de uma zona administrada por estrangeiros no coração do país gerou décadas de tensões nacionalistas. Em 1977, decorrente de muitos anos em que fizeram negociações, foi acordado que o controle da área seria então gradualmente transferido para os panamenhos (Tratado Torrijos-Carter). Em 1989 os EUA invadiram o Panamá para depor o ditador Manuel Noriega, que já não era tão “sensível” aos seus interesses. Só que esse evento terminou com um período de regime militar, levando ao retorno da democracia. E em 1999 o Panamá finalmente assumiu o controle total e soberano sobre o canal. Só que a sombra de Washington nunca se ausentou. Ou seja, o país era livre para fazer o que quisesse, desde que não contrariasse os interesses estadunidenses.
Em função disso, não caiu nada bem que o país centro-americano tenha assinado acordos com a China. A empresa chinesa CK Hutchison, por exemplo, passou a operar portos nas duas entradas do canal, a partir de contratos feitos em 2017. Dependendo fortemente do sistema financeiro dos EUA, o que reduz sua margem de manobra para dizer “não” às exigências impostas, visitas do alto escalão (como as do Secretário de Estado, Marco Rubio, em 2025 e 2026) vieram acompanhadas de avisos claros: ou por bem ou por mal, isso iria acabar. E o presidente José Raúl Mulino cancelou os contratos.
Ele fez isso com o apoio da Suprema Corte do Panamá, que anulou a concessão da gigante de Hong Kong, a retirando de operações nos terminais de Balboa e Cristóbal. A decisão foi celebrada por Washington e duramente criticada por Pequim, que pode inclusive optar por sanções comerciais. Ou seja, no meio desta mais recente versão da “Guerra Fria”, o Panamá encontra-se no que analistas podem chamar de “sanduíche geopolítico”. Enquanto o governo reafirma sua soberania institucional, na prática, ele precisa equilibrar as ameaças econômicas da China (que pode desviar rotas comerciais) com as ameaças de segurança, inclusive com risco militar, dos EUA (que detêm o poder de intervir sob o Tratado de Neutralidade se considerarem que o funcionamento do Canal está em risco).
Concluindo, a posição geográfica do Panamá, que pode ser vista como uma benção, sem dificuldade alguma se mostra também uma maldição.
27.03.2026

O bônus de hoje é a música Despacito, na voz de Erika Ender, cantora e compositora panamenha. Esta foi resultado de uma parceria entre a própria Erika, com o cantor porto-riquenho Luis Fonsi e Daddy Yankee, nome artístico de Ramón Luis Ayala Rodríguez, que é considerado o “Rei do Reggaeton”.
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