A vitória do Grêmio no primeiro dos dois jogos da decisão do Gauchão deste ano, principalmente por ter sido alcançada com um placar elevado, criou um clima tenso demais para o reencontro derradeiro, de amanhã. O Internacional, que chegara como favorito, uma vez que tinha obtido sua classificação de modo muito mais fácil e natural, com campanha superior e somando mais pontos, foi irreconhecível na partida disputada na Arena e perdeu por 3×0. Acontece que a comissão técnica e os dirigentes do clube, ao invés de reconhecerem a atuação abaixo do esperado com a merecida vitória do rival, preferiram culpar a arbitragem pela derrota. Isso apesar de todos os analistas especializados neste assunto, de todos os meios de comunicação que trabalharam na cobertura, terem sido unânimes na afirmação de que as críticas e queixas não procedem.
O que ocorreu, nos dias seguintes, foi o acirramento dessa postura com a participação inclusive de uma série de profissionais identificados com suas cores – e também com notas oficiais sendo emitidas pelo clube vermelho e branco. Assim, um clima perigosamente bélico está criado. Chegou ao ponto de um destes, na Bandeirantes, ter pedido literalmente para que Arthur seja perseguido e agredido durante o jogo. Isso por ter existido um suposto lance desleal deste contra Borré(*). Convém lembrar que o Grêmio, bem antes da primeira partida, havia pedido arbitragem de fora do Estado. O Internacional foi contra.
Situações como essa, historicamente são prenúncio de problemas, que podem ser bastante sérios. Depois de aceso o pavio, fica mais difícil impedir que a bomba exploda. O futebol gaúcho tem sido, nos últimos anos, um exemplo positivo para os outros Estados. Isso apesar de incidentes isolados, como a pedra que atingiu o rosto de Villasanti, durante deslocamento da delegação gremista, que forçou o adiamento de um Grenal que também seria disputado no reduto colorado. Por aqui nunca foi necessário que se tivesse torcida única nos clássicos. Ao contrário: em passado recente se teve inclusive setores reservados, tanto no Beira-Rio quanto na Arena, para torcida compartilhada. Sentavam lado a lado pessoas que usavam camisas distintas, sem registro de problema algum.
Essa tinha sido uma proposta do ex-presidente do Internacional, Giovanni Luigi, que foi imediatamente aceita pelo então mandatário tricolor, Romildo Bolzan Júnior. A medida foi adotada em 2015 e durou por cinco anos, sendo apenas abandonada quando da pandemia de Covid-19. A queda na procura dos ingressos, com a impossibilidade de os restantes serem vendidos para os torcedores comuns – eram comercializados sempre em pares –, também contribuiu para a desistência. Assim como a logística e ainda a segurança preventiva da Brigada Militar ser mais complexa, que foram os últimos fatores alegados para seu final.
Mesmo assim, aquele exemplo deveria perdurar. No entorno ainda se vê alguns problemas, hoje em dia. Mas, diminutos em relação aos que já foram no passado e seguem sendo, em outros locais. E olhem que nosso clássico é apontado como o mais disputado do país e um dos maiores do mundo, em termos de rivalidade clubística. Agora, o que não se pode perder de vista é que isso se trata apenas de esporte. São adversários e não inimigos quem ostentam o azul de um lado e o vermelho de outro. Ir ao jogo com amigos e familiares, muitas vezes com crianças, de modo algum pode se transformar em uma decisão de risco.
Amanhã isso poderá ser mais complicado. A irresponsabilidade de alguns dirigentes e influenciadores, no afã de dar um gás na esperança da virada – improvável, mas não impossível – é combustível esperando que alguém acenda um fósforo. Ter um lado nessa hora, como em todas as partidas e competições, é desejar ardentemente a vitória. Entretanto, ela não pode e não deve ser buscada a qualquer preço. O negócio é ser previdente, reforçando policiamento e, principalmente, encontrando as vozes certas para acalmar os ânimos antes, durante e depois do jogo. Dos dois lados.
07.03.2026
(*) No Grenal 409, disputado na Arena em 6 de março de 2016, o lateral-direito do Internacional, William, atingiu o rosto de Miller Bolaños com um cotovelaço, aos três minutos do primeiro tempo. Houve duas fraturas na mandíbula e perda de dentes. O jogador passou por cirurgia complexa, para colocação de placas de metal, ficando afastado dos gramados por 40 dias. O árbitro era Anderson Daronco, o mesmo do último domingo. E não marcou sequer falta.

O bônus de hoje é Somos Grenal, em videoclipe de criação coletiva de Mc Da VR, Mc Tchesko, Daya Moraes, Seguidor F e Paulista SambaTri.
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