Graças aos Beatles, mesmo que indiretamente, a medicina passou a contar com uma tecnologia médica fundamental para a realização de exames de imagem: a tomografia computadorizada (TC). Ela funciona como se fosse uma espécie de “Super Raio-X”, fazendo não apenas uma imagem única e plana, mas capturando dezenas de imagens enquanto a máquina gira em torno do corpo. Depois, o computador as combina para criar “fatias” detalhadas dos órgãos, ossos e tecidos, permitindo uma visão interna profunda e até reconstruções em 3D. Isso garante precisão muito maior para diagnosticar, monitorar e orientar tratamentos, desde que foi criada.

Quem desenvolveu o sistema foi a Electric and Musical Industries (EMI). Essa empresa surgiu em 1931, no auge da Grande Depressão, resultado da fusão de duas outras também britânicas e até então rivais: a Columbia Graphophone Company e a The Gramophone Company (famosa pela marca “His Master’s Voice”). Entretanto, ao contrário do que se pode imaginar, a EMI estava longe de trabalhar apenas com música. Havia todo um empenho em inovação e tecnologia, em várias áreas distintas. Assim, ela se tornou uma potência ao longo dos anos, em especial nas décadas de 1930 e 1940. Foi responsável, entre tantas outras coisas, pela produção de equipamentos de radar usados na Segunda Guerra Mundial. Desenvolveu também o sistema de transmissão de TV em alta resolução.

Vivendo uma crise financeira, a partir de meados dos anos 1950, teve que abandonar alguns dos seus projetos. Um deles foi o do engenheiro Godfrey Hounsfield, que trabalhava neste projeto de scanner humano. Mais ou menos na mesma época, com investimentos que já haviam sido feitos, a empresa inaugurou os estúdios na Abbey Road, em Londres, que se tornariam o centro nervoso da sua produção musical. Isso graças ao surgimento de um quarteto explosivo, que alterou toda a concepção da música mundial. Era o ponto da virada, a recuperação não apenas do prestígio como das condições financeiras favoráveis.

Contratados por George Martin, em 1962, os Beatles venderam tanto que a EMI decidiu apostar outra vez na ideia de Godfrey, investindo nela boa parte dos seus inesperados lucros. E ela se mostrou muito mais do que promissora. Tanto que ele ganhou o Nobel de Medicina, em 1979, graças à invenção do Scanner de TC. Enquanto isso, com selos como Capitol, HMV e Parlophone, a EMI se tornou a maior gravadora do planeta. Tinha sob contrato grupos como Pink Floyd, The Beach Boys e Queen. Depois de uma constante expansão, foi adquirida nos anos 1980 pela Thorn Electrical Industries, formando a Thorn EMI. Mesmo assim, sua transição para a era digital, no final dos anos 1990, foi difícil. Ela demorou demais para se adaptar ao compartilhamento de arquivos (Napster) e à queda nas vendas dos CDs. Mesmo ainda tendo sob contrato sucessos de fato indiscutíveis, como Coldplay, Robbie Williams e Radiohead, passou a acumular dívidas muito grandes.

Após anos de instabilidade e uma aquisição desastrosa pelo grupo de capital privado Terra Firma Capital Partners, em 2011 a EMI foi colocada à venda pelo Citigroup. E terminou dividida em duas, sendo “engolida” pelas então maiores concorrentes. O Universal Music Group (UMG) ficou com a divisão de gravação, enquanto a Sony Music Publishing adquiriu sua divisão de edição musical, que trata dos direitos autorais de todas as composições. A marca EMI resiste apenas como um selo, dentro da Universal. E a empresa independente que dominou seu setor durante o século XX deixou de existir, enquanto entidade única.

Entretanto, além do sucesso – mesmo derrubado pelo tempo – com a arte musical, ela deixou um legado na medicina, como se viu. Desde quando foi apresentado em 1971, no Atkinson Morley Hospital, na capital britânica, o scanner de TC segue auxiliando em diagnósticos e salvando vidas. Vou lembrar disso a partir de agora, cada vez que ouvir, como faço vez por outra, Paul, George, John e Ringo.

24.01.2026

Os Beatles, em foto de 1963

O bônus de hoje é uma música dos Beatles. A escolhida é I Want to Hold Your Hand (Eu quero segurar sua mão), de 1963, o seu primeiro grande sucesso internacional. Foi com essa canção que eles chegaram ao primeiro lugar nas paradas dos Estados Unidos, no ano seguinte ao seu lançamento.

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