A FORÇA DO TREZE

O Brasil fez ontem, 13 de junho, a sua estreia na Copa do Mundo de 26, que é o dobro de 13. Seu atual técnico, o italiano Carlo Ancelotti, fizera 67 anos três dias antes (6+7=13). Essa foi sua 13ª partida comandando o selecionado, sendo que, por uma série de circunstâncias, ele nunca pôde repetir o time. Portanto, usou 13 escalações diferentes. Como torcedor, eu teria ficado muito feliz com uma vitória sobre Marrocos por 3×1, que simplesmente seria um 13 invertido. Mas, ficamos no empate, com um gol para cada lado.

Quem tinha obsessão pelo número 13 era outro técnico que também teve oportunidade de comandar a Seleção Brasileira. Porém, sem quaisquer conotações político-partidárias, até porque ele jogava no time oposto, do ponto de vista ideológico. Mário Jorge Lobo Zagallo foi – sem nenhuma ironia nisso – ponteiro esquerdo do Flamengo, depois de ter passado nas categorias de base do América, equipe da Zona Norte do Rio de Janeiro que atua com sua tradicional camisa vermelha. Como ele tinha uma sorte dos diabos e um oportunismo maior ainda, conseguiu fazer carreira razoável tanto dentro quanto fora do campo. Mesmo assim, jamais foi além de apenas mediano em ambas as funções.

Em 1958, o melhor ponta-esquerda do Brasil era Pepe, do Santos. Mas, o treinador da seleção, Vicente Feola, colocou Zagallo no seu lugar, em tese por ser mais defensivo. O mesmo Pepe lesionou o joelho em 1962 e não pode disputar a camisa 11 – não era a 13. Para a Copa de 1970, João Saldanha havia montado e comandado o time desde os jogos eliminatórios até 78 dias antes da estreia. Mas foi demitido por ordem de Emílio Médici e trocado por alguém submisso às vontades da ditadura. A mesma figura sentou ao lado de Carlos Alberto Parreira, em 1994, em cargo criado para ele, de coordenador técnico. Foi assim que alcançou o feito de ser a única pessoa até hoje com quatro títulos em mundiais de futebol.

O número 13 pode simbolizar coisas bem diferentes e mesmo opostas. Para algumas pessoas é visto como sinal de azar, enquanto outras falam em sorte, proteção e transformação. A origem exata de ambas as coisas se perdeu no tempo. Entretanto, para quem desconfia dele a causa vem do fato dele representar uma quebra da ordem supostamente lógica que estaria estabelecida. Porque ele é o seguinte, o que sobra vindo depois do que seria perfeito: são doze os meses do ano, os signos do zodíaco, as horas do dia e da noite, os apóstolos e os deuses do Olimpo. Aqueles que o enxergam como algo positivo seguem muitas tradições esotéricas e místicas, segundo as quais ele simboliza renovação, final de um ciclo, recomeço e principalmente evolução.

Carlo Ancelotti seguidamente é apontado como um dos cinco maiores treinadores de futebol de todos os tempos. E provavelmente seja mesmo, ao lado de Rinus Michels, Alex Ferguson, Pep Guardiola e Arrigo Sacchi. Ele foi o único da história que conseguiu ser campeão dirigindo equipes nas cinco principais ligas europeias: Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França. Além disso, em feito ainda maior, foi cinco vezes vencedor da Champions League, comandando Milan e Real Madrid. Sua contratação pela CBF demandou uma negociação demorada e cara, mas ele veio para mudar alguns paradigmas e ajudar na superação de uma demorada má fase, tanto técnica quanto administrativa.

Para quem gosta de coincidências, em 1994 o Brasil enfrentava 24 anos sem vencer uma Copa do Mundo – desde 70, no México – e conseguiu isso nos Estados Unidos. Hoje, estamos outra vez 24 anos sem levantar a taça – desde 2002, na Coreia do Sul e Japão – e a final será em solo estadunidense. O número 24 é igual a 13+11. São 11 os que em campo têm a missão de levar consigo a nossa esperança. Farão isso outra vez na sexta-feira 19, contra o Haiti; e na quarta-feira 24, contra a Escócia. E tomara que sigam fazendo nas fases seguintes, até a grande final, no domingo, 19 de julho, no gigantesco MetLife Stadium, de Nova Jersey. Onde, aliás, ocorreu a estreia ontem.

Ancelotti faz um tipo discreto. Acho que jamais vamos ouvir ele afirmar, por exemplo, “vocês vão ter que me engolir”. E também é cuidadoso o suficiente para não menosprezar adversário algum. Como dizer que a Holanda é que devia se preocupar com o Brasil e não o contrário, o que afirmou Zagallo antes de ser devorado pelo “Carrossel Holandês”, em 1974. Assim, mesmo sem ter a seu dispor o mesmo enorme número de jogadores fora de série, de outros tempos – nem tendo recebido nas mãos, de bandeja, um timaço montado por outro –, pode até conseguir não fazer feio agora em 2026. E, se tiver um quinto da sorte daquele outro, quem sabe não se belisca o título?

14.06.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a música Bate no Peito, com Papatinho, Ludmila, João Gomes, Zeca Pagodinho, Samuel Rosa e Veigh. Ela é um tipo de hino do selecionado e da torcida brasileira, para a Copa de 2026.