TER PARA DISTRIBUIR

Eu fui um dos milhões de brasileiros que apostaram alguns reais e muita esperança na Mega da Virada. Mais do que isso: estive na casa lotérica que vendeu uma das duas apostas vencedoras, que dividiram os mais de R$ 378 milhões do maior prêmio da história, localizada no Shopping Iguatemi Campinas. Lembrei disso agora, duas semanas depois do fato, porque estava lendo um trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo (capítulo XIII, itens 5 e 6), o que por sua vez me remeteu ao que se via nas reportagens de televisão que antecederam o sorteio. Quase que a unanimidade das pessoas ouvidas a respeito do que imaginavam fazer com o dinheiro, caso ganhassem, acrescentava junto aos seus sonhos particulares algo como “ajudar familiares, amigos e pessoas pobres”. A caridade hipotética divulgada previamente, como se fosse um argumento sendo apresentado ao divino, numa barganha, pedindo o apoio dos céus, um empurrãozinho para a sorte. Algo como “se o destino for bom comigo, eu serei bom para o destino de outros”.

Êta coisa mais safada essa! Uma desculpa egoística, uma espécie de habeas corpus preventivo para nos livrar não da prisão, mas das obrigações morais. A miséria existe porque todos nós deixamos ela existir, independente do que cada um de nós possua. Ela existe porque todos nós aceitamos a desigualdade como algo natural e nada fazemos para combatê-la na sua raiz. Doações, de quaisquer tamanhos, são sempre paliativos, algo necessário e meritório, mas insuficiente. Um prêmio inteiro de Mega da Virada não resolveria o problema, mesmo que tivesse uma destinação mais do que apropriada. Outra coisa: historicamente quem mais tem é quem mais resiste contra qualquer iniciativa de distribuição de renda. E o pior é que isso não decorre do medo de ficar sem o suficiente, mas do estúpido temor que de si se aproximem aqueles outros que agora estão mais distantes, na base da tal pirâmide social. Puro egoísmo arraigado e institucionalizado.

Alguém quer uma prova do que eu estou dizendo? Basta rever a reação da elite contra o fato de “empregadas domésticas” terem conseguido viajar de avião nos últimos tempos, dividindo espaços de privilégio, nos nossos aeroportos. Alguém já se esqueceu da recente declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, lamentando que filhos de porteiros estivessem chegando às universidades? Chegaram graças a políticas públicas de apoio e valorização das pessoas, agora esvaziadas pelo governo do qual ele é figura proeminente. O curioso, nesse caso, é que ele próprio foi bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, graças ao qual estudou entre 1974 e 1978 na Universidade de Chicago. Foi lá que ele aprendeu a ser o neoliberal que agora usa o conhecimento adquirido para ajudar Bolsonaro a, entre outras barbaridades, tornar inviável o próprio CNPq. Um típico caso de quem cospe no prato onde comeu. Tudo isso está documentado, está registrado na imprensa e nas redes sociais.

O trecho do Evangelho que eu estava lendo, por mera coincidência, é o que trata do óbolo da viúva. Nele é narrado o momento no qual Jesus está sentado defronte ao gazofilácio – local nos templos nos quais eram recolhidos e conservados os vasos e as oferendas – e vê algumas pessoas ricas que ostentam doações abundantes. Também uma pobre viúva se aproxima e oferece duas moedas de pequeno valor. A diferença, explicou Ele aos seus discípulos, é que os primeiros davam o que lhes abundava, enquanto a mulher doava o que lhe faria falta. Portanto, a doação dela tinha muito maior valor.

Não há saída para financiar o atendimento decente da população que não passe pela taxação das grandes fortunas. Vários países do mundo estão adotando tal alternativa. Com ela seria possível, por exemplo, que se estabelecesse uma renda mínima universal, dando não apenas uma condição de vida melhor para as pessoas, como também lhes restituindo dignidade. Em 2017, os seis homens que detinham as maiores fortunas em nosso país – Jorge Paulo Lemann, Joseph Safra, Marcel Herrmann Telles, Carlos Alberto Sicupira, Eduardo Saverin e Ermírio Pereira de Moraes – tinham juntos a mesma riqueza, por assim dizer, dos 100 milhões de pessoas mais pobres do Brasil somadas. Se esses bilionários gastassem um milhão de reais por dia, não ganhando sequer um centavo a mais, levariam 36 anos para esgotar o seu patrimônio. Sinceramente, esses números há muito não me surpreendem mais. O que de fato sempre me assombra é ver pessoas que se dizem cristãs legitimando essa realidade, ao invés de ajudarem no seu enfrentamento.

13.01.2022

O bônus musical de hoje temos Pecado Capital, de Paulinho da Viola.

NO FUTEBOL, O SOFRIMENTO É ESSENCIAL

Não somos nem masoquistas e nem sádicos. Ao menos, posso afirmar, não em nível patológico. Mas quem conhece, ama e vive o futebol tem que admitir que é impossível ser torcedor sem conviver com esses sentimentos extremos de amor e ódio, de alegria incontida e sofrimento inenarrável. Sem a busca do êxtase que ambos podem propiciar, por razões distintas. “Hinchas” (fãs) argentinos, passionais como qualquer bom tango, que o digam. Se tem uma frase que os distingue é “Em las buenas siempre y em las malas mucho más”. Essa incondicionalidade é a essência desse esporte. E nós gaúchos, aqui pertinho dos “hermanos”, os entendemos muito bem. Porque somos idênticos no modo de torcer.

Outra característica é que, além de incondicional, esse sentimento é eterno. Podem nos pedir qualquer coisa, menos que a gente abandone nosso clube. A gente troca de cidade, de trabalho, de companheira ou companheiro e até de religião. Podemos alterar hábitos os mais variados, mas nunca, nunca mesmo se irá desistir das cores que tomaram conta do nosso coração. E se alguém que você conhece fez isso, não era um torcedor verdadeiro. Nunca tinha de fato sido tocado pela verdadeira febre, não terá a marca de fogo impressa na alma e muitas vezes tatuada na pele. O torcedor extremo, que na verdade é o único que de fato existe – se não for extremo é no máximo simpatizante e todos nós odiamos esse termo morno –, sofre até quando perde o cara ou coroa que sorteia os lados do campo para o início de uma partida. Vibra com carrinho, com escanteio, usa a camisa em todos os jogos, canta os mais absurdos cânticos, gasta o que não tem para garantir ingressos.

Esse torcedor comemora vitória em amistoso, transborda de alegria quando ganha um título. E quando perde, pode até chorar escondido. Mas estará de volta na arquibancada ou na frente da televisão, no próximo compromisso do seu time. Ele fica louco e critica os dirigentes que não contratam quem gostaria. Busca no aeroporto o suposto craque que chega. Sem abrir mão, lógico, do seu direito de amaldiçoar cinco gerações do mesmo atleta, quando ele perder um gol. E vai voltar a fazer juras eternas ao mesmo, tão logo ele aproveite a próxima chance criada.

Eu, particularmente, me enquadro em várias dessas características que acabei de citar. Só nunca fui em aeroportos nem tatuei distintivo ou taça no corpo, porque seria mesmo um exagero. Mas já estive em jogos do Grêmio, de Criciúma ao Maracanã, de Erechim ao Mário Cini onde o time reserva enfrentaria o Pratense. Já trabalhei como repórter de campo em Gre-Nal, tendo que ser profissional na descrição de gol daquele que é o maior adversário. Muitas vezes voltei para casa arrasado por dolorosas derrotas. Mas já comemorei Libertadores no Olímpico e no Parcão. E, o maior de todos os orgulhos, dividi essa paixão com a minha filha Bibiana. Em algumas dessas ocasiões vitoriosas ela estava comigo. Em vários momentos menos felizes, um consolou o outro.

Estou escrevendo isso quando o tricolor está num incômodo lugar, entre os últimos colocados no Brasileirão deste ano. E quando faltam oito dias para um Gre-Nal que poderá ser verdadeira encruzilhada para o nosso destino, nessa e na próxima temporada. Pior é que entre o dia de hoje e esse confronto ainda teremos duas partidas, contra vice-líder e líder da competição. Desse jeito, estou quase querendo ver se temos uma funda e uma pedra, para cada um desses três complicados jogos. Vai que alguém do nosso lado incorpora um David. Fé nós também ainda temos, mas claro que não vai aqui nenhuma comparação: faço apenas uso de uma figura. Aliás, a propósito disso, o estudioso da Bíblia, Joel Baden, professor na Universidade Yale, afirma em seus estudos que o confronto não se deu bem assim, que não houve a morte do gigante naquele momento. No seu livro David: a vida real de um herói bíblico ele tenta recuperar a imagem histórica e remover as lendas, daquele personagem igualmente amado por judeus e cristãos, uma vez que foi um dos maiores reis de Israel e ancestral de Jesus.

Voltando ao futebol, onde as batalhas são apenas simbólicas, repito o que afirmei no título: o sofrimento é essencial. E acrescento que uma das vantagens é que ele nunca se torna definitivo. O derrotado pode se reerguer, o vitorioso não raras vezes é surpreendido depois. E ser também surpreendido é o que mais quero, por esses dias. Até porque novas derrotas não seriam surpresa nenhuma. Agora, que fique bem claro e de antemão: aconteça o que acontecer, em 2022 vou como sempre estar no lado azul da força, esteja ela onde estiver.

29.10.2021

No bônus musical de hoje, Titãs. A música, bastante apropriada para o momento, tanto clubístico quanto da política brasileira, é Enquanto Houver Sol. Enfim, haveremos de encontrar saídas.