Uma ação deliberada de patrulhamento sobre a produção de material didático das principais editoras brasileiras que atuam no ramo está buscando remover de todo e qualquer livro citações que sejam “desabonadoras” ao que faz o agronegócio. Isso vem sendo feito especialmente pela ONG De Olho No Material Escolar (Donme), que foi fundada em 2021 e é financiada por players desse setor econômico. Presente em diversos estados brasileiros e já tendo firmado parcerias com órgãos públicos, ela age também com lobbies junto a parlamentares e ações com estudantes. Na sua apresentação, afirma que seu objetivo é “contribuir para uma educação positiva e atualizada sobre o agro”.
A fundadora e presidente da Donme é Letícia Zamperlini Jacintho, filha de produtores rurais e natural de Barretos, São Paulo. Ela trabalhou no sistema financeiro e hoje é sócia de uma empresa familiar com foco na produção de grãos e cana-de-açúcar. Ocupa cargos no setor, como a vice-presidência do Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA) e assento no Conselho Superior do Agronegócio (Cosag), da Fiesp.
A primeira conquista da organização, a bem da verdade, já vinha sendo articulada ainda antes do surgimento da Donme: é a retirada do termo agrotóxico de inúmeras publicações, nas quais houve sua substituição pelo eufemismo “defensivos agrícolas”. Entretanto, agora estão buscando forçar outras alterações, estas em âmbitos como queimadas, desmatamento, mudanças climáticas, consumo de água, conflitos agrários e até mesmo escravidão contemporânea. Assim, querem mudanças em livros de Biologia, Ciências, Geografia e História, tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio, pouco importando se, para tanto, o conhecimento científico precise ser negado, do mesmo modo que o passado.
Buscam, por exemplo, que latifúndio passe a ser designado como “grande propriedade produtiva”. Que conflitos no campo sejam, no máximo, citados como casos isolados e pouco significativos. Que o agro seja apontado como solução, e não como uma das causas das mudanças climáticas. E não aceitam que o termo “análogo à escravidão” siga sendo utilizado — como também faz a imprensa — em casos nos quais é constatada a precarização extrema de pessoas em colheitas e outras atividades.
Algumas editoras já estão cedendo às pressões, como as que integram o grupo Somos Educação, que detém as marcas Anglo, Ática, Pitágoras, Saraiva e Scipione. Consta que FTD, Poliedro e Santillana — esta última com a marca Moderna e responsável pelo Sistema UNO — também estão seguindo pelo mesmo caminho. Elas se sentem acuadas com a publicação de relatórios e artigos pagos, além de eventos que são preparados para o questionamento da qualidade do trabalho editorial. Um trabalho semelhante ao feito pelo movimento Escola Sem Partido, que batia em temas como gênero e sexualidade, igualmente sugerindo denúncias por parte de alunos e seus pais. Com tudo isso, vai ganhando corpo a desinformação.
Para fornecer material às escolas, a Donme criou a Agroteca, que tem um acervo de vídeos produzidos por ela mesma. Um dos que mais insiste em disponibilizar assegura que o agro não tem relação alguma com o desmatamento. Desconsidera, para tanto, os dados oficiais do MapBiomas, que apontam para o fato de que, desde 1985, mais de 60% das novas pastagens no Brasil foram criadas em áreas de florestas e do Cerrado. Se o foco recai sobre a Amazônia, a situação é muito pior: das áreas desmatadas, 90% foram para destinação agropecuária, segundo comprova o relatório do projeto Amazônia 2023.
Para se entender a gravidade da situação, escolas de municípios onde o agronegócio é forte começaram a ameaçar que iriam substituir materiais. Isso explica a capitulação de muitas editoras, que sabem o quanto de prejuízo financeiro teriam se resolvessem entrar em queda de braço, opondo-se às exigências que chegam disfarçadas de sugestões. Resta saber o que pode fazer o Ministério da Educação a respeito do assunto.
21.03.2026

O bônus de hoje é um vídeo com a canção Educação é Direito. Não foi possível descobrir a autoria.
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