Uma música muito conhecida também no Brasil, onde faz sucesso há muitos anos, na realidade é belga e foi composta por uma freira, dentro de um convento. A história da mulher é inacreditável e, infelizmente, tem um fim trágico. Aos 15 anos ela relatou que havia tido uma premonição, na qual se via como religiosa, apesar de jamais ter manifestado antes qualquer desejo ou tendência para tanto. Isso, no entanto, não alterou a continuidade de sua vida de adolescente.
Escoteira, ela adorava acampar. Por esse motivo, como uma forma de se enturmar melhor, aprendeu a tocar violão. Afinal, eram comuns encontros ao redor de fogueiras, onde o instrumento destacava quem o dominasse. Aliás, foi em um desses acampamentos que ela veio a conhecer outra garota, mais jovem do que ela, de quem se tornou amiga próxima. Mas, com o passar do tempo, voltou à tona o tal assunto de tornar-se freira. E ela, aos 26 anos, terminou mesmo entrando em um convento, em outra cidade que não a sua. Entretanto, a razão verdadeira foi a dificuldade de relacionamento com seus pais, fazendo com que essa fosse uma “fuga” possível.
No local, foi muito bem acolhida pelas superioras, que inclusive gostaram muito da sua habilidade com o violão e como cantora. A tal ponto que se mobilizaram para conseguir que ela gravasse um disco. Mas, com uma boa dose de segundas intenções, uma vez que pretendiam vender discos em eventos promovidos pela igreja, uma vez que a instituição enfrentava sérios problemas financeiros. De qualquer modo, a noviça aceitou e, ao compor a primeira faixa da obra, fez isso homenageando o fundador da Ordem Dominicana, da qual o tal convento fazia parte: Santo Domingos de Gusmão.
Foi assim que nasceu Dominique, em 1963. Foi escrita e interpretada por Jeanne-Paule Marie Deckers (17.10.1933 – Laeken – Bruxelas), que veio posteriormente a ser conhecida mundialmente como a Sœur Sourire (Irmã Sorriso). A canção, com uma melodia muito simples e alegre, se tornou um “chiclete”. Eram apenas voz e violão, em narrativa do modo como São Domingos combatia a heresia, viajava a pé e vivia em pobreza. Seu refrão em francês dizia “Dominique, nique, nique, s’en allait tout simplement, routier pauvre et chantant…” (Dominguinhos vai por aí, simplesmente, um andarilho pobre e cantando…).
O resultado foi um sucesso instantâneo e astronômico, que ultrapassou em muito a intenção de ser produto ofertado para católicos e visitantes do convento. Começou a tocar em emissoras de rádio e, em 1963, alcançou o topo das paradas em dez países, inclusive na Billboard nos Estados Unidos, um feito muito raro em se tratando de canção em francês. Também por isso, no ano seguinte Sœur Sourire venceu o Grammy de Melhor Gravação Religiosa. E sua autora e cantora chegou a se apresentar no programa de TV mais famoso da época, o The Ed Sullivan Show, que foi gravado no próprio convento e a transformou de vez em celebridade global.
No Brasil, uma versão em português também foi muito tocada. Paulo Queiroz, um radialista e compositor, foi o responsável pela letra. Ela foi gravada em 1964 pela cantora paulista Giane – codinome de Georgina Morozini dos Santos – que com ela ganhou o troféu Chico Viola. Por aqui houve uma mudança completa no sentido da obra. Ela foi transformada em uma música romântica e melancólica, na qual uma jovem sonhadora esperava por seu príncipe encantado. O novo refrão foi “Dominique, nique, nique, sempre alegre esperando alguém que possa amar…”. E no final o rapaz diz adeus e deixa a jovem chorando. Ou seja, de conteúdo religioso se tornou balada sobre desilusão amorosa.
Em 1966 Jeanne-Paule Marie deixou o Convento de Fichermont. Estava descontente com o fato de as freiras censurarem outras canções suas. E também tinha discordâncias quanto à hierarquia da igreja. Uma vez fora dos muros, reencontrou aquela amiga dos acampamentos e passaram a viver juntas, tendo um relacionamento. E pode reiniciar sua carreira de compositora e cantora. Entretanto, a música que lhe deu notoriedade não dava um tostão. O lucro todo ficava com a gravadora e com o convento. Mesmo assim, o Ministério das Finanças da Bélgica travou contra ela uma batalha, na tentativa de cobrar todos os impostos atrasados sobre valores que ela jamais recebeu. Isso durou vários anos, esvaindo seus recursos na defesa.
Com sérias dificuldades financeiras e em depressão, tanto ela quanto a companheira, Annie Pécher, decidiram por uma solução extrema. E juntas abandonaram voluntariamente a vida física, em 1985. Ironicamente, no dia posterior à tragédia chegou um cheque emitido pela Associação Belga de Direitos Autorais, que havia coletado e liberado uma quantia considerável, relativa a royalties que estavam retidos. A chegada desses recursos logo após ao seu ato final tornou o caso um símbolo mundial da burocracia sufocante e da falta de apoio que artistas – especialmente os que vêm de contextos religiosos – enfrentam ao lidar com o sucesso comercial.
14.02.2026

O bônus de hoje é uma gravação feita para o The Ed Sullivan Show, em 5 janeiro de 1964. Nela estão Dominique e também Les Pieds Des Missionnaires (Os Pés dos Missionários), com The Singing Nun – Sœur Sourire (A Freira Cantora – Irmã Sorriso).
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