DISTRIBUIÇÃO DE RENDA

Estive acompanhando – em silêncio, lógico – postagens que foram feitas essa semana em um grupo de WhatsApp onde eu estou apenas de curioso, assim tipo “espião”, criticando pronunciamentos que defendiam a necessidade urgente de combater a desigualdade social em nosso país. Eram raivosas e sem nenhum embasamento, mas o gado surta cada vez que ouve falar em distribuição de renda, mesmo ele próprio tendo pouca ou quase nenhuma. Talvez porque imagine que isso seria feito por emissários de um governo comunista, nas ruas, tirando seus tostões dos bolsos e os entregando para outros passantes. O que diferenciaria por muito pouco da ação de certos pastores, nos templos, que também os retiram, mas dão outro destino. A questão é que ler a Bíblia tem bom valor, desde que não se fique apenas nela. Em Isaías 43:8 está escrito “traga o povo que tem olhos, mas é cego; que tem ouvidos, mas é surdo”. Uma leitura não fanatizada evidenciaria que ele se refere à necessidade de trazer para as luzes do conhecimento, para o convívio com a verdade e não necessariamente para dentro dos templos. E que pouco adianta pregar se a pessoa continuar preferindo ser surda. Aliás, sobre a história de igrejas físicas, Mateus 18:30 desmente essa necessidade: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. Ou seja, em qualquer lugar onde a fé prevaleça.

Termina aqui meu momento pregador e passo a falar sobre economia. Com tanto dicionário à disposição e com a onipresença do oráculo moderno chamado Google, não é possível que as pessoas ainda não tenham tido sequer a curiosidade de dar uma olhadinha rápida na conceituação do que seja “distribuição de renda”. Esse termo não se refere ao rateio das moedas. A referência real é a de “acesso aos bens socialmente produzidos, entre os diferentes estratos da população”. Ou seja, agir para que a demanda não esteja excessivamente concentrada. Isso significa a movimentação dos recursos, mais emprego, mais oferta, mais riqueza para o país e as comunidades que compõem a nação. Distribuição de renda se faz com a busca do pleno emprego e de salários justos. Com a não privatização do que é essencial, como os espaços públicos, o fornecimento de água e energia elétrica, os serviços de saúde e a educação. Porque, estando na iniciativa privada, tudo isso drena renda e qualidade de vida dos mais pobres, agredindo inclusive a sua dignidade e cidadania.

Distribuição de renda real se dá, por exemplo, com a revisão do sistema tributário. Em nosso país, o que se chama de imposto de renda deveria ter o nome de imposto sobre o salário, porque são os assalariados que de fato o pagam. Vem tudo já descontado em folha, não tendo como fugir da mordida. A renda mesmo, que é uma quase exclusividade dos mais abastados, essa escapa da malha da receita. É a única rede do mundo que pega o peixe pequeno e deixa o grande escapar da sua trama. Uma ilogicidade física fascinante, que de fato merece ser estudada a fundo. E enfrentada de verdade.

Acho que, tirada a hipótese também viável da simples ignorância – ou ainda a de interesse próprio –, quem é contra talvez esteja apenas desconfortável com a palavra “distribuição”. Por que ela também aponta para algo dado de graça e ao acaso. Tipo balas para crianças, que são ofertadas por Papai Noel em shopping. Ou quentinhas e cestas básicas, que a generosidade alheia faz muito bem em fornecer aos desprovidos. Afinal, distribuição de renda acontece até mesmo via caridade, mas essa é uma alternativa direcionada e insuficiente. Até mesmo a assistência social faz isso, outra vez sem ter resolutividade elevada. Ambas focam indivíduos isoladamente ou pequenos grupos, não tendo a abrangência socialmente necessária. Para atingir toda a população, apenas com mecanismos viabilizados por decisões políticas, como tributação mais justa, reforma agrária e serviços públicos eficientes. Outros tipos comuns de redistribuição de renda são os subsídios e os vouchers, que é um nome pomposo de origem francesa. Esses são os vale isso, vale aquilo, que chegam a determinadas populações. Agora mesmo estão criando um relacionado ao gás. São emergenciais e não podem ser encarados como uma solução e sim como paliativos.

Os pesquisadores britânicos Richard Wikinson e Kate Pickett fizeram levantamento minucioso de dados estatísticos colhidos em 23 países e nos 50 estados que compõem os EUA. E comprovaram a correlação entre desigualdade de renda e taxas mais elevadas de problemas, tanto sociais quanto de saúde. Isso influencia na gravidez adolescente, no uso de drogas, na delinquência, no encarceramento, na expectativa de vida, no desempenho escolar, na mobilidade social, nos direitos da mulher, na obesidade e até em distúrbios mentais. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por sua vez, em relatório ainda de 2011, publicou estudo que mostra uma forte associação entre períodos de crescimento de países coincidindo com fases de melhor distribuição de renda entre seus cidadãos. Vontade imensa de conseguir esses links e colocar ambos sutilmente no grupo aquele de WhatsApp. Mas, sinceramente, não sei se adiantaria.

24.11.2021

No bônus musical de hoje, Gabriel o Pensador, com Patriota Comunista. Clip gravado em 2021.

NOSSO PAÍS É UM IMENSO PUTEIRO

Tudo bem. Eu admito o exagero do título e até mesmo que pode ser bom para o blog ele chamar atenção e fazer com que as pessoas leiam o texto que se segue. Mesmo não sendo essa a intenção, garanto que tem horas que essa generalização deixa de ser apressada e parece ser mais do que conveniente, chegando a ser apropriada. Vejam que temos um cafetão, cercado por muitos “leões de chácara”, fardados ou não; residentes sempre prontos a atender quem chega de fora, que pode fazer o que bem entender, desde que traga dinheiro na não; a aceitação pública e tácita de uma moral dupla para quase tudo; e hoje vivemos num ambiente bem propício a vícios diversos e contaminação. Só não vamos exagerar, acendendo luzes vermelhas, porque o chefe tem ojeriza à cor. Sei lá por que razão: talvez um trauma do passado ou, quem sabe, medo do futuro.

Pior é que não somos nem mesmo um cabaré destes de novelas da Globo, ambiente decorado com requinte, nos quais as moças que trabalham são todas lindas, muitas vezes educadas, sempre gentis e bem-humoradas. Essas não sofrem com exploração e violência, possuem todos os dentes e se vestem com figurino discreto e elegante. Parece mais um internato do que um estabelecimento dedicado ao meretrício. Assim, não é por acaso que muitas acabam saindo da vida – que no caso delas nunca parece ser tão difícil – e casando com algum personagem da trama. Fosse nos anos 1950 ou 1960 e bastaria colocar em aulas de piano e de francês, para que muitos pais as considerassem noras perfeitas. Se fosse assim na vida real e eu outra vez jovem e sem compromisso, até consideraria procurar nesses endereços uma companheira. Por que não? Talvez nem entre religiosas convictas se encontrasse com facilidade alguma assim, tão recatada e prendada. Me refiro à ficção, naturalmente.

Ironias à parte, que outro lugar do mundo consegue conviver, do modo como acontece em nosso país, com tanta “libertinagem”? Querendo nosso petróleo? Podem vir e se apropriar, pagando pouco. Para facilitar, a gente trata de destruir antes a Petrobras, para o negócio ficar mais barato e ainda mais atrativo. Interessados na Eletrobras? Podemos atender os compradores, fazendo a mesma coisa. O objetivo é levar nosso nióbio? Mais fácil ainda, porque a população nem sabe que temos isso e o quanto ele vale de fato. Precisam quebrar nossas grandes construtoras, destruir nossa indústria naval, prejudicar a Embraer, vender aqui todo o lixo de agrotóxicos que não são usados por quem produz? Deixa com a gente, que “nóis facilita”. Não querem comprar também empresas distribuidoras de água? Podem levar, inclusive com os Correios como troco.

Em que outro país do mundo ao invés de comprar direto vacinas das quais seu povo precisa desesperadamente, o governo autoriza um religioso para ser um intermediário desnecessário? Onde mais se comemora meio milhão de cidadãos mortos, dando um rolezinho de moto? Somos a nação das oportunidades, aquilo que os EUA pensam ser, estando enganados. Por lá ninguém está num bar tomando um chopp no meio da tarde, quando é abordado por alguém que vem oferecer um negócio assim pequeno, de 400 milhões de doses daquelas vacinas, que citei anteriormente, com um “por fora” de um dólar para cada uma delas. Já pensou? Uma propininha de mais de R$ 1 bilhão, deixa mais ligado e tonto do que qualquer bebida.

No Brasil o governo constrói estrada e entrega ela zero bala para que a iniciativa privada cobre pedágio, por 30 anos. O compromisso é manter as faixas pintadas, colocar guincho e, depois de alguns anos, tapar os buracos que apareçam. Mas, para esse último compromisso, se for necessário a gente acrescenta um adendo contratual, garantindo um reajuste maior nos preços cobrados. Só aqui se sucateia o ensino superior público e facilita a entrada do privado; se acaba com a pesquisa e permite a evasão de cérebros. Melhor assim: menos gente pensante aqui dentro.

Só para não ser omisso, já que falei no nióbio lá no terceiro parágrafo, ele é um mineral precioso, raro e muito cobiçado. Pode ser usado em ligas especiais com aço, que fica reforçado com uma pequena porção dele sendo adicionada. Também tem aplicação em joias e ótica. Mas principalmente é essencial para alguns usos em eletrônica e no setor nuclear, em aparelhos de ressonância magnética e aceleradores de partículas. Vale mais do que ouro, do que petróleo. Nossas reservas são as maiores do mundo, com estimativa de 2,9 bilhões de toneladas na Amazônia. Estão entendendo agora porque desmatar e afastar indígenas dos seus territórios, permitindo que “amigos” façam uso de grileiros e fiquem com as terras federais, gratuitamente? Se começa justificando com o gado e, depois, a área de pecuária vira mineração. No Triângulo Mineiro e no Alto Paranaíba estão mais 800 milhões de toneladas.

Sobre toda essa riqueza, um povo empobrecido e explorado. Como aquelas senhoras citadas na abertura – não as glamourosas, mas as verdadeiras. Mesmo a grana que entra, trazida pelos “clientes”, termina em outras mãos. Até o gozo é exportado, quando o Brasil abre as pernas.

11.07.2021

O bônus de hoje é a música Brasil, composta por Cazuza, Nilo Romero e George Israel, na voz de Cássia Eller.