QUEM LEMBRA DOS TELEGRAMAS?
Tive um sonho mais do que peculiar, na noite de hoje. Nele, recebia um telegrama enviado por um amigo. Para quem não saiba do que se trata, o que é bem provável entre eventuais leitores mais jovens, era um meio de comunicação que envolvia mensagens trocadas por um sistema de nome telégrafo. Algo relativamente tecnológico, mas que não prescindia de intermediários entre as duas pontas.
Me deixem explicar rapidamente. Você queria avisar para um familiar que estava a caminho da casa dele, em outra cidade. Antes da viagem, ia até uma agência dos Correios, escrevia a mensagem curta em um papel e fazia o pagamento conforme o número de palavras. Profissionais daquela agência a enviavam para a que existia próximo do destino, utilizando um instrumento elétrico e código morse, uma espécie de alfabeto que é baseado na emissão de sinais curtos e longos. Lá, devidamente decodificado, o texto original era posto em um papel fechado e levado até a porta do destinatário. Algo como se fosse o tataravô do e-mail. Ou antepassado ainda mais velho do WhatsApp.
A história do telégrafo é fascinante porque ele foi, durante mais de um século, aquilo que hoje a internet representa: uma revolução absoluta na velocidade da comunicação humana. Pela primeira vez na história, uma mensagem conseguiu viajar mais rápido do que qualquer pessoa, um cavalo ou um navio. Isso alterou política, guerras, comércio, jornalismo, diplomacia e até a percepção psicológica das distâncias.
Antes da eletricidade já existiam formas rudimentares de “telégrafo”. Na França revolucionária, por exemplo, foi criado no final do século XVIII o chamado telégrafo óptico: torres com braços móveis e sinais visuais transmitidos de uma cidade para outra. Funcionava apenas de dia e com tempo bom, obviamente. Mas o grande salto veio no século XIX com a chegada da eletricidade.
O telégrafo elétrico começou a ganhar forma entre as décadas de 1830 e 1840. Em 1844 ocorreu a primeira transmissão telegráfica pública considerada histórica, entre Washington e Baltimore. A frase enviada foi “What hath God wrought” (O que Deus criou). Depois, se pode afirmar que um dos maiores feitos tecnológicos do século XIX foi a instalação de cabos telegráficos submarinos. Em 1866 um cabo transatlântico estável ligou Europa e América do Norte. Isso foi tão revolucionário quanto décadas depois seriam o rádio, a televisão, os satélites e a internet.
Hoje parece banal enviar uma mensagem instantânea. Mas imagine o mundo antes disso. Até meados do século XIX uma notícia levava dias, semanas ou meses para viajar; guerras eram conduzidas com enorme atraso de informação; mercados financeiros funcionavam lentamente; jornais recebiam notícias internacionais muito depois dos fatos. Com o telégrafo mudou tudo. Pela primeira vez governos conseguiam coordenar decisões em tempo quase real; jornais passaram a publicar notícias recentes; bolsas de valores ficaram interligadas; empresas multinacionais tornaram-se viáveis; e ferrovias puderam operar com mais segurança.
O Brasil aderiu relativamente cedo ao telégrafo. O primeiro sistema telegráfico brasileiro surgiu em 1852, por decisão de Dom Pedro II, uma vez que nosso imperador era fascinado por ciência e tecnologia. Foi ele que também incentivou eletricidade, fotografia, ferrovias e telefonia no Brasil. Também Cândido Rondon, no final do século XIX e início do XX, liderou enormes expedições para instalar linhas telegráficas pelo interior do Brasil, especialmente no Mato Grosso e na Amazônia.
Enfim, depois dessa digressão pela história disso que agora parece algo arqueológico, me falta contar que não lembro o que tinha no telegrama que recebi durante a madrugada. Quem o teria enviado e de que mundo? Não consegui saber se era uma notícia, um aviso, mera saudação ou despedida. Se a origem era meu próprio subconsciente ou se outras dimensões estavam usando este meio antigo como metáfora. E, como a mensagem não foi posta na “nuvem”, sequer tenho como recuperar seu conteúdo. Este que acabou se transformando em inspiração para a crônica de hoje.
04.06.2026

O bônus de hoje é a música Eu Tive um Sonho, do Kid Abelha.