BLASFÊMIA INACEITÁVEL

O conceito de blasfêmia é multifacetado, transitando entre as esferas religiosa, social e jurídica. Em sua essência, podemos afirmar que trata-se de uma ofensa, nem sempre verbal ou escrita, dirigida ao que é considerado sagrado. Mas a interpretação do que constitui esse ato mudou drasticamente ao longo dos séculos. Se antes de mais nada a examinarmos do ponto de vista etimológico e linguístico, a palavra deriva de expressões vindas do grego. Naquele idioma, blasphemia une os termos blaptein (ferir) com pheme (reputação). Portanto, significa literalmente ferir a reputação. Em seu uso clássico, apontaria para palavras utilizadas para insultar não apenas divindades, como também a honra de indivíduos ou instituições respeitadas.

Examinando na perspectiva religiosa e teológica, no contexto de religiões teístas, como o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo, a blasfêmia é definida com ato, fala ou escrita que expresse desprezo, desrespeito ou negação de Deus, de figuras sagradas – como profetas e santos – ou de dogmas centrais da fé. Isso geralmente envolve a intenção deliberada de zombar ou profanar o sagrado. E tal profanação em geral é centrada em gestos como a destruição de ícones ou pela reivindicação de atributos divinos para si mesmo.

Foi isso que ocorreu no último domingo, 19 de abril, quando um militar das forças armadas de Israel, utilizando uma marreta, decapitou uma imagem de Jesus Cristo, em uma das muitas aldeias que estão agora ocupadas por Israel, no Líbano. Aquele país do Oriente Médio tem cerca de 60% de sua população muçulmana, com 35% de cristãos e 5% de drusos. Há também judeus vivendo naquele território, mas avaliações otimistas afirmam que eles representam 0,1% da população total, que beira os seis milhões de libaneses.

Houve registro da barbárie com imagens, que logo foram propagadas pelas redes sociais. E as próprias forças armadas de Israel confirmaram sua autenticidade. Este ato transcende o vandalismo religioso para se tornar sintoma de uma desumanização que avança sobre símbolos e também dignidades. É blasfêmia pura e inaceitável. Debl, onde ocorreu este absurdo – também pode ser grafado como Debel ou Dibil – tem pouco mais de 4.500 moradores. Eles são majoritariamente cristãos maronitas, sendo um enclave histórico no distrito de Bint Jbeil. No século XIX, viajantes como Victor Guérin registravam cerca de 400 habitantes no local. O crescimento ocorrido ao longo do século XX acompanhou o desenvolvimento do sul do Líbano, mas acabou freado por sucessivos conflitos transfronteiriços. Mas, é relevante notar que aldeias desse porte e perfil costumam ter laços comunitários muito estreitos. Um ato de vandalismo como o ocorrido tem um impacto emocional profundo, pois a imagem atacada não é apenas um símbolo religioso, mas um ponto de referência para a identidade e a história das poucas famílias que ali resistem.

Em resposta, o comando militar israelense confirmou a autenticidade do vídeo, classificando a conduta como sendo um ato isolado e prometendo punições. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tratou logo de se manifestar, buscando distanciar a imagem do Estado da ação individual do combatente. O que para os cristãos é difícil de acreditar, considerando o histórico tanto do líder israelense quanto das forças de ocupação.

Contudo, para além das notas oficiais de repúdio, o fato levanta o debate sobre a “barbárie como rotina”. Quando a destruição de símbolos de fé é registrada por seus próprios autores e compartilhada como conteúdo de entretenimento ou vitória, percebe-se que a valorização da ética humana está se dissolvendo em favor do culto à força bruta. O incidente ocorre em um momento de fragilidade absoluta na região, onde o cessar-fogo recém-estabelecido não consegue ser capaz de estancar o ódio que se entranhou nas instituições e nos indivíduos. O martelo que golpeia a imagem é o mesmo que, simbolicamente, atinge a possibilidade de uma convivência baseada na dignidade e no respeito mútuo entre judeus, muçulmanos e cristãos.

Voltando à conceituação do que seja blasfêmia, existe ainda como ver esses fatos por uma perspectiva jurídica e sociológica. Mas, com essa abordagem tudo fica ainda mais complexo e chega a esbarrar no direito à liberdade de expressão. Historicamente, muitos países puniam a blasfêmia com prisão ou a morte, entendendo que insultar a divindade oficial do Estado era um ataque à própria ordem social. Hoje, na maioria das democracias ocidentais, a blasfêmia foi descriminalizada. No Brasil, por exemplo, o Código Penal (artigo 208) não pune essa ação como uma ideia abstrata, mas sim como o ato de escarnecer publicamente alguém por motivo de crença ou de vilipendiar (desprezar ou ultrajar) objetos e locais de culto.

Do ponto de vista sociológico, a blasfêmia é frequentemente usada em tempos de conflito como uma ferramenta de dominação. Ao destruir o que o “outro” considera sagrado, o agressor busca anular a identidade e a dignidade desse grupo, sinalizando que nada que lhes pertença merece respeito ou sequer consideração. Ou seja, aquilo que tivemos expressado com enorme clareza e vergonha, no final de semana.

22.04.2026

Soldado israelense golpeia e destrói imagem de Jesus Cristo

O bônus de hoje é Fé Cega, Faca Amolada, de Milton Nascimento e Lô Borges, com legendas em inglês.