Um fenômeno recente tem chamado a atenção de quem se debruça com um mínimo de cuidado sobre temas que envolvem política. Desde o final de 2025, o ecossistema digital brasileiro testemunha uma mudança tática na comunicação política: a migração de discursos ideológicos para perfis de entretenimento e fofoca. Contas como a Alfinetei, que possui mais de 25,4 milhões de seguidores e supera em audiência estrelas da música e também figuras religiosas, passaram a intercalar notícias de celebridades com críticas sistemáticas ao governo Lula e exaltações a políticos como o governador Tarcísio de Freitas e o deputado Nikolas Ferreira. E não é um fenômeno ocasional. Várias dessas páginas estão se tornando peças-chave em estratégias coordenadas para promover algumas figuras da extrema-direita, driblando algoritmos e a fiscalização eleitoral.
Tudo está fundamentado no alto engajamento. Um bom exemplo a ser citado é quando, em um único dia, a Alfinetei registrou sua maior interação, com quase 90 mil curtidas , não em um post sobre famosos, mas em uma publicação sobre sanções judiciais contra bloqueios de rodovias em 2022. Esse movimento sinaliza o uso desse recurso para furar “bolhas” ideológicas, alcançando um público que normalmente não consome notícias em veículos tradicionais ou editorias políticas.
O potencial nocivo dessa engrenagem ficou ainda mais evidente durante a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, em novembro do ano passado. Após a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, iniciou-se uma ofensiva coordenada: cerca de 46 perfis de fofoca dispararam ataques simultâneos contra investigadores e diretores da autarquia federal. Dados da Febraban revelam que, apenas em 27 de dezembro, foram contabilizados 4.560 posts hostis ao BC. A natureza artificial da ação foi exposta quando influenciadores e vereadores de direita vieram a público admitir que foram contatados para participar do linchamento virtual. Com o avanço das investigações, páginas como Comuacim e Divas do Humor apagaram os conteúdos, evidenciando o caráter sob encomenda das postagens.
Outro detalhe: quando se repara na sustentação financeira desses perfis são levantados novos alertas sobre a transparência no marketing político. Muitas dessas páginas ostentam parcerias com plataformas de apostas, como a 7games.bet, ligada ao empresário Fernando Oliveira de Lima, o “Fernandin OIG”, operador do Jogo do Tigrinho, que vem causando um profundo dano financeiro em famílias brasileiras. Existem reportagens investigativas que apontam laços de proximidade entre o empresário e figuras do alto escalão da oposição, como o senador Ciro Nogueira.
Além disso, investigações da imprensa revelaram que funcionários da agência Mynd teriam intermediado negociações para que perfis de sua vitrine elogiassem Tarcísio de Freitas e criticassem o Banco Central, embora as instituições envolvidas neguem oficialmente o investimento direto para este fim.
Para especialistas em comunicação pública, como os professores Sérgio Trein (UFRGS) e Adriane Buarque de Holanda (ESPM-Rio), a estratégia é uma resposta ao crescente desinteresse da população pela política institucional. O cidadão médio não busca mais editorias políticas, mas consome muito as redes sociais para lazer. Ao inserir política nesse fluxo, estrategistas conseguem “manobrar massas vulneráveis”, especialmente as que não costumam checar fatos. A direita tem tido maior sucesso nessa arena ao utilizar discursos inflamados e sensacionalistas, que geram mais viralização do que as pautas sociais e de direitos humanos, historicamente associadas à esquerda.
O investimento em redes sociais tornou-se o maior ralo de recursos das campanhas. Dados do TSE mostram que a Meta (dona do Facebook e do Instagram) é a principal beneficiária das verbas eleitorais. Em 2014, o Facebook recebeu apenas R$ 980,00 de um único candidato, que disputava vaga como deputado federal por Santa Catarina; em 2024, esse valor saltou para mais de R$ 201 milhões, na soma de milhares de candidatos. Na última eleição municipal, o topo dos gastos com impulsionamento nas redes foi ocupado por Pablo Marçal (União), um expoente do uso de cortes e viralização.
Para 2026, o desafio das autoridades eleitorais será regulamentar não apenas o anúncio oficial, mas o mercado paralelo de perfis apócrifos e páginas de entretenimento que atuam como cabos eleitorais disfarçados, explorando a fronteira cinzenta entre a opinião pessoal e a propaganda paga não declarada. E o cidadão comum e eleitor tem que estar mais do que atento, para não se tornar apenas um número, um ninguém que alimenta a engrenagem e não importa em nada para ela.
07.04.2026

O bônus de hoje é a música Fake News, com o Pagode do Borges.
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