Uma das faixas do álbum The Dark Side of the Moon (A Face Escura da Lua), que seguramente pode ser incluído como um dos mais icônicos de toda a história da música, traz The Great Gig in the Sky (1). A composição foi inicialmente creditada apenas para o tecladista do Pink Floyd, Richard Wright. E o seu tema era a vida e a morte, tendo sido criada sem letra e para piano. Porém, isso foi alterado pouco antes do lançamento, de tal forma que a decisão a tornou uma das mais tocadas entre todas as excelentes que compõem aquele trabalho.
O percurso original foi mudado em um dos domingos de janeiro de 1973, quando a cantora Clare Torry entrou no Estúdio 3 de Abbey Road (2), em Londres. Convidada pelo compositor a partir de sugestão do engenheiro de som Alan Parsons, para contribuir com “acentuações dramáticas”, aplicando sua técnica vocal sobre o instrumental, ela não ficou muito tempo no local. Mas, gravou de improviso algo que soava como um grito de desespero e um lamento, com tamanha expressão que depois foi percebido como o som da alma humana tentando explicar o inexplicável. Seu cachê foi de singelas 30 libras, algo que no câmbio comercial de hoje ficaria em torno de R$ 213,00. E ela foi embora sem ter sequer a certeza de que sua contribuição seria de fato utilizada.
Não apenas foi como se tornou o centro emocional da música, devido a ter alcançado o que Richard Wright buscava: algo que representasse a “morte” e o “medo”. Mesmo que a ideia original fosse deixar totalmente sem letra, acabou tendo algo quase que incidental. No início com “Eu não estou com medo de morrer, a qualquer hora pode acontecer, eu não me importo. Porque estaria com medo de morrer? Não há razão para isso, você tem que ir algum dia.” E no final “Se você não estiver ouvindo isso agora, você está morrendo.” Entretanto, são apenas falas. No espaço entre elas está a essência.
Dizem que Clare se sentiu envergonhada ao sair da cabine. Achava que tinha sido exagerada, que seus improvisos — que navegavam entre o lamento fúnebre e o êxtase orgástico — eram barulhentos demais para a elegância progressiva do Pink Floyd. Ela pediu desculpas e foi para casa, convencida de que não seria incluída. Entretanto, o que ouvimos naquele disco não é uma cantora interpretando uma canção. Se trata de uma mulher traduzindo o desespero de existir sem usar uma única palavra. Clare Torry provou que a linguagem humana é limitada perto da potência do sentimento bruto. Em seus agudos que se quebram e se reconstroem, ouvimos o nascimento e o fim de tudo; e sentimos a saudade de quem ainda nem partiu.
Por décadas, ela foi um fantasma nos créditos, apenas uma “participação especial” eclipsada pelos gigantes do rock. Apenas em 2004, após um acordo com a EMI e o Pink Floyd, ela teve seu nome incluído. E recebeu compensação financeira, quando foi admitido que não se tratara apenas de uma performance, mas de uma composição vocal. O que significa ter autoria. Ela não apenas cantou: conseguiu dar voz ao silêncio que todos carregamos diante da finitude.
Apesar de ser “eternizada” pelo Pink Floyd, a carreira de Clare Torry foi vasta. Ela trabalhou como backing vocal para nomes que alcançaram o estrelato, como Olivia Newton-John, The Alan Parsons Project e Meat Loaf. Também colaborou com Roger Waters em sua carreira solo (álbum Radio K.A.O.S.) e se apresentou com ele no histórico show em Berlim, em 1990. Em 2006, lançou uma coletânea chamada Heaven in the Sky, reunindo seus trabalhos solo das décadas de 60 e 70.
25.03.2026
(1) A expressão “Gig in the Sky” é um eufemismo do mundo da música para a morte. “Gig” é gíria que significa trabalho, show, apresentação. Assim, remete à ideia de vida espiritual após a morte. Ou seja, o nome da música é uma forma poética de dizer que alguém partiu, para realizar um grande espetáculo, para “tocar no andar de cima”. Então, ao invés de uma tradução literal, o melhor nome para esta música seria “A Grande Apresentação na Eternidade”.
(2) Embora os Beatles tenham usado todo o complexo de Abbey Road, existe uma distinção geográfica e emocional entre os espaços. Para os fãs dos Beatles, é o Estúdio 2 o santuário, o mais importante. Foi lá que o quarteto de Liverpool gravou cerca de 90% de sua discografia. Já o Estúdio 3 — onde Clare Torry deu seu grito imortal — é um espaço menor, que fora projetado para recitais de piano e quartetos de cordas. É um ambiente mais íntimo e confinado. Se nos anos 60 o Estúdio 2 era praticamente a casa dos Beatles, na década de 70 o Estúdio 3 tornou-se quase uma “propriedade” do Pink Floyd. Eles adoravam a atmosfera mais fechada e técnica do local, que favorecia as experimentações com sintetizadores e as longas madrugadas de mixagem. Já o Estúdio 1 é o maior de todos, onde são gravadas trilhas sonoras de grandes filmes, como Star Wars e O Senhor dos Anéis.

O bônus de hoje é, por óbvio, a música The Great Gig in the Sky, de Richard Wright e Clare Torry.
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