A descrição fisiológica do que seja um soluço o considera uma contração involuntária, súbita e espasmódica do diafragma, o músculo que separa o tórax do abdômen, e dos músculos intercostais. O movimento é seguido pelo fechamento rápido das cordas vocais – a glote –, o que geralmente produz aquele som muito característico que, em onomatopeia (*) nós escrevemos “hic”.
O mecanismo do soluço é desencadeado através de um “arco reflexo”, que envolve três componentes principais. São eles os nervos, o centro do soluço (localizado no tronco cerebral) e a resposta motora. Os nervos vago e frênico enviam sinais ao cérebro. Ele processa esses sinais e ordena que o diafragma se contraia bruscamente. A medicina os classifica principalmente pela sua duração, o que determina tratar-se apenas de um incômodo passageiro ou um sintoma de algo mais grave. O agudo benigno dura até 48 horas, sendo geralmente causado por alimentação ou estilo de vida. O persistente pode demorar todo um mês para ser superado, requerendo a investigação médica, uma vez que não raras vezes indica doenças subjacentes. E existe também o considerado intratável. Este último, que é muito incomum, interfere no sono, na alimentação e na saúde mental.
Claro que existem os soluços banais, não patológicos, esses que todos nós temos e não duram quase nada. Eles podem surgir do estômago, devido a alguma refeição mais volumosa e pesada ou consumo de refrigerante, assim como ainda do esôfago, garganta e até – vejam só – do ouvido. Também ocorrem por estresse ou excitação, mudança de temperatura, álcool ou fumo. Mas, se pode “tratar” simplesmente aumentando o nível de dióxido de carbono no sangue ou estimulando o nervo vago a interromper o ciclo. Chego a duvidar da existência de um único leitor que não tenha feito isso, em mais de uma oportunidade. Basta prender a respiração, por exemplo. Outras saídas são beber água gelada ou realizar a Manobra de Valsalva. Essa é feita quando se tenta expirar com força, mantendo a boca e o nariz, ambos fechados. E, finalmente, existe a possibilidade de puxar os joelhos contra o peito, para comprimir o tórax e aplicar pressão física no diafragma.
Agora, quero centrar mesmo minha observação sobre os soluços que não são fisiológicos, mas resultado de alguma expressão emocional profunda. Todos conhecemos alguém – ou nós mesmos – que choram a ponto de soluçar. É a resposta intensa do organismo físico ao sofrimento emocional agudo. A perda de alguém que se ama, por exemplo. Nada pode ser pior do que isso. Lembro de um momento que vivi, no qual tive dificuldade inclusive de continuar falando. Fui calado por uma contração, como se estivesse engasgado, com algo fechando a garganta, rasgando o meu peito. E na verdade estava.
Então, vamos pensar nessa dor, quando multiplicada milhares de vezes. A pandemia da Covid-19 não passou faz tanto tempo assim, que faça com que as pessoas se esqueçam dela. E, muito menos, que não tenham mais na memória o falecimento de tanta gente amiga, de familiares, parentes, colegas e vizinhos. O Brasil, com apenas cerca de 2,7% da população mundial, concentrou pouco mais de 13% das mortes globais. Ou seja, teve cinco vezes mais letalidade do que o esperado. Com mais de 700 mil mortos em nosso país, qual deve ter sido o número de soluços que elas causaram?
Muito mais do que a metade desse número de perdas poderia ter sido evitada. Bastava que o então presidente e seus fantoches no Ministério da Saúde não fossem todos negacionistas. Bastava que as vacinas tivessem sido compradas antes, não tendo eles recusado as ofertas recebidas em tempo hábil. Bastava que não se propagasse e impusesse, de forma criminosa, dois remédios criados para outros fins terapêuticos e comprovadamente ineficazes contra o vírus da covid.
O homem que subestimou o problema, chamando covid de “gripezinha”; que imitou, com escárnio e deboche inacreditáveis, pessoas morrendo com falta de ar; que atrasou repasse de recursos; que deixou faltar até oxigênio em hospitais; agora está tendo uma crise de soluços – começaram na sede da Polícia Federal e agora se transferiram para a Papudinha. Mas os seus, podem ter certeza, são os fisiológicos. Porque soluçar de dor pelos outros requer que se tenha coração, consciência, humanidade. Ou ao menos aquela capacidade de ter remorso, algo que psicopatas não possuem.
No mundo espiritual, tanto quanto no físico, deve ter muita gente agora vendo que este efeito é apenas uma pequena e primeira parte de outros tantos que ainda virão. E não há como ter pena disso. Pode ser divino o perdão, mas ele precisa ser concedido após arrependimento sincero. O que nunca irá, no caso dele, acontecer. Então, que soluce a soma de todo o tempo que tirou de vida de cada um daqueles que ajudou a matar. Portanto, por muitas e muitas encarnações. Com boas e salutares passagens no umbral entre uma e outra delas.
16.01.2026
(*) Onomatopeia é o nome que se dá à palavra que se forma a partir da reprodução aproximada, com os recursos de que a língua dispõe, de um som natural a ela associado. Ou seja, se escreve “imitando” aquilo que se ouve. Como são o tique-taque dos relógios, o au-au dos cachorros, o atchim dos espirros, o cof-cof da tosse, etc.

O bônus de hoje começa no clipe da música Canto das Três Raças, com Clara Nunes. Depois temos vídeo de Maryana Damasceno, apresentando cordel sobre o mais novo morador da Papudinha.
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