Deixo de cara a minha opinião registrada, para que não restem dúvidas: eu sou contra a divulgação de pesquisas eleitorais. Simplesmente não entendo que sua existência possa ser importante para a democracia e creio que se tratam de um instrumento facilmente fraudado e que, mesmo quando correto, de modo algum é neutro. Isso não significa desconfiar da estatística, da precisão da matemática, mas da coleta e do tratamento dado às respostas recebidas. Mesmo admitindo que devam existir as que abordam o assunto com todo o rigor – e não apenas o científico, como também o ético –, de modo algum isso é a regra geral. Há risco imenso de contaminação por interesses tanto ideológicos quanto financeiros, com consequências de fato inquestionáveis trazidas a partir da exposição dos “resultados”.
Começo argumentando em análise das que sejam honestas. Essas no mínimo moldam os ânimos. Quando você vê que o adversário está muito à frente ou muito atrás, perde ímpeto na luta pelo voto. Porque considera que não adianta ou que não acrescenta. E defender ideias e pontos de vista é algo que deve ser feito sempre com convicção e esperança, não importando quais sejam. Essa é a essência da diversidade e da política. Além disso, há o “efeito manada”. Não é de hoje que muitos especialistas apontam para a realidade desse fenômeno: eles afirmam que é grande o número de eleitores que são induzidos a seguir a maioria, seja isso algo consciente ou não. Porque querem que termine logo a disputa ou porque têm a vontade de integrar o “grupo vencedor”. No primeiro caso temos um desejo concreto, no segundo um impulso explicado pela psicologia. Porque seria uma característica humana a necessidade de pertencer a um projeto triunfante, ser reconhecido como alguém vitorioso.
Claro que não estou aqui me referindo aos que são engajados, aos militantes, àqueles que têm preferência partidária definida. Mas, esses grupos todos identificados, sejam eles do espectro político que forem, precisam ter os votos de um bom número dos “indiferentes” sendo conquistados, ou não terão como alcançar o que é necessário para vencer. Porque a pluralidade política não assegura vitória para lado algum, quando visto isoladamente. Então, arrastar eleitores para seu campo é fundamental, sendo para tanto relevante contar com as pesquisas.
E, se eu tivesse alguma dúvida a respeito do que estou afirmando agora, teria afastado ela pela coincidência de ter ouvido, na noite do sábado que era véspera do primeiro turno, conversa em um supermercado. Uma senhora disse para outra que estava cansada da propaganda eleitoral e que, por essa razão, decidira votar no Melo, porque ele venceria ainda no primeiro turno “acabando de vez com isso”. Como ela saberia dessa possibilidade, se não tivesse sido informada pela última pesquisa, que fora divulgada pouco antes? E sobre o aspecto “pertencimento”, prestem atenção num detalhe: se no primeiro turno a propaganda do candidato à reeleição focava sempre na palavra ‘melhor”, ela foi trocada por “juntos” ao ser deflagrado o segundo. Uma demonstração de competência da sua equipe, que se mostrou atenta aos detalhes.
Quanto ao risco trazido por pesquisas desonestas ou fraudulentas esse é autoexplicativo. Não se precisa argumentar quanto ao seu perigo. Para quem acredita serem essas inexistentes, uma vez que as divulgadas pelos meios de comunicação precisam cumprir uma série de requisitos, subestima o jeitinho de alguns deles serem distorcidos. E também desconhece as que são produzidas para distribuição interna ou direta de partidos, igrejas, associações e grupos de interesses específicos. Mesmo com alcance menor, essas repercutem e podem influenciar.
Sintetizando, pesquisas de consumo e de posicionamento podem ser ferramentas relativamente precisas e interessantes para aferir muitas coisas. Entretanto, no caso das eleitorais, elas podem ser indutoras do resultado final. Podem sem dúvida alguma alterar a história, influenciar destinos, facilitando ou dificultando a vida de muita gente, por muito tempo. Até porque não se estará discutindo a qualidade de um creme dental, a excelência de um par de tênis, qual o melhor extrato de tomate. O produto em questão é a vida das pessoas, coletiva e individualmente. É a escolha dos rumos das comunidades, a determinação do futuro dos nossos filhos e netos. Serão esses, em última análise, os que pagarão caro pelas más escolhas de agora.
20.10.2024

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Faça uma doaçãoDoar mensalmenteDoar anualmenteO bônus musical de hoje é o áudio de Serpente, de Pitty. A canção é uma espécie de mantra com o qual ela reafirma ser necessária a resiliência. “Chega dessa pele: é hora de trocar”, diz ela ao se referir à cobra venenosa que nos ameaça. E diz ainda que é fundamental que se aprenda a recomeçar, acreditando em novos dias.
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