A VEJA E A MULHER ERRADA
Virgínia Fonseca é uma influenciadora digital, classificação que se tornou moda aplicar em quem se torna celebridade graças às redes sociais. Seu destaque iniciou com ela, ainda jovem, produzindo vídeos no YouTube e colaborando com outros desses fenômenos midiáticos já estabelecidos. Eles impulsionaram seu crescimento, assim como também foi importante ter se casado com o cantor sertanejo Zé Felipe, que desde pelo menos 2015 já fazia sucesso nesse gênero musical. O casal esteve junto entre 2021 e 2024, sempre com forte exposição na mídia. Postavam sem cerimônia e todos os dias momentos das rotinas familiares e profissionais, bem como suas viagens. Foi assim que ela acumulou os agora milhões de seguidores que tem nas principais plataformas. O que permitiu que se tornasse também uma empreendedora, com marcas de cosméticos, suplementos, espaços para eventos e projetos ligados ao fitness e à moda.
Virgínia é uma pessoa muito conhecida, portanto. Recentemente esteve à frente de um programa no SBT, mas encerrou o contrato para focar em seus projetos pessoais, muito mais rentáveis. Mantendo a capacidade notável de permanecer sendo assunto, está agora namorando Vinícius Júnior, o jogador de futebol. Isso apesar de ela residir em Goiânia, numa mansão de alto padrão, com seus três filhos e a mãe, enquanto ele mora em Madrid, na Espanha. Uma módica distância de 7.900 quilômetros em linha reta, que pode ser coberta em voos de 12 a 16 horas, dependendo da conexão. E a moça, em meio a tantos compromissos e interesses, ainda se tornou rainha da bateria da escola de samba Acadêmicos do Grande Rio, no Carnaval 2026.
Por tudo isso, virou arroz de festa em matérias do portal e da revista Veja impressa. Está de forma constante em pautas de entretenimento e de celebridades. Como uma recente, na qual foi exaltada a sua participação no programa Domingão com Huck, da Rede Globo. Está presente em outros momentos, sendo assunto natural em colunas de celebridades e lifestyle, sem ter jamais estado em reportagens e textos de profundidade maior. Mesmo com tanta “babaovice” da publicação – e não apenas dela, na realidade –, nada causou maior indignação entre pessoas de bom senso do que aquilo que teria dito Gabriel David, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, para a coluna Gente. Ele afirmou que “nenhuma mulher é tão relevante midiaticamente nesse momento no Brasil como a Virgínia”. Lembremos que este cidadão é filho do bicheiro Anísio Abraão David, presidente de honra da Beija-Flor.
Enfim, ele ter tal opinião nem causa espanto. Inacreditável é que aquela que já foi a revista semanal de informação mais importante e influente do Brasil, embarcou nessa, reproduzindo e destacando o exagero. As críticas que recaíram sobre ambos, o autor da frase e a publicação, foram mais do que merecidas. Até porque, para seu azar, caia de madura a oportunidade de serem feitos por ela, a publicação, registros elogiosos para outra mulher brasileira. Visto que se tornava de conhecimento público um trabalho que tem significado científico enorme. Me refiro à coordenadora do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana Sampaio. E essa não os ganhou. Ou foi citada minimamente, se forem comparadas as duas. Os espaços são inversamente proporcionais à importância real de cada uma.
Tatiana é pioneira em uma pesquisa revolucionária, que está estudando a reconstrução de conexões da medula espinhal através da proteína polilaminina, criada por ela. É formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em Biologia. Pela mesma instituição tem ainda mestrado, doutorado e pós-doutorado na mesma área. Há 28 anos vem trabalhando na esperança de encontrar uma forma de minimizar ou resolver problemas decorrentes da paralisia de membros. Ou seja, busca – e ao que tudo indica está alcançando – dar uma nova oportunidade de cura para quem enfrenta as até agora consideradas sem solução paraplegia e tetraplegia. Isso é algo de fato espetacular, um avanço considerável para a medicina, uma vez que seja confirmado seu potencial.
A pesquisa está tendo um resultado mais do que promissor. Já existem exemplos concretos de pessoas que, com o uso experimental desta proteína, estão recuperando movimentos. Estão tendo as suas vidas impactadas de modo contundente. Entretanto, é nisso que está se transformando nossa sociedade. Quem só pensa em si, ou no quanto poderá lucrar com a superexposição de sua imagem, ganha holofotes e recebe aplausos. Quem pensa nos outros, buscando fazer de sua própria existência algo mais do que um brilho circunstancial, falso e inútil, não tem sequer os recursos que precisaria para alavancar o trabalho. E tende a ficar no anonimato. O mínimo que se pode dizer é que a Veja escolheu a mulher errada.
05.03.2026

O bônus de hoje é Pagu, de Rita Lee e Zélia Duncan. A melodia foi feita por Rita, que a enviou para Zélia, que colocou parte da letra. Ela brinca com os estereótipos femininos (“Nem toda feiticeira é corcunda / Nem toda brasileira é bunda“) e celebra a independência da mulher.
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