UM ESNOBISMO CHAMADO SUMMIT

Nos últimos tempos estamos vivendo uma verdadeira febre – ou seria uma epidemia? – de summits. Tem em toda cidade, em cada esquina, sobre todo e qualquer assunto e os mais variados temas. O uso exaustivo deste termo, que em inglês quer dizer topo ou cume, para qualquer reunião de mais de três pessoas com um powerpoint, é um fenômeno do marketing corporativo. Sem nenhum pudor, ele substitui outros mais humildes e realistas, como “conferência”, “fórum” ou “simpósio”. E acaba sendo vulgarizado, devido à arrogância.

Sua origem está na Diplomacia de Alto Nível. Era utilizado apenas para referir reuniões entre chefes de Estado. Então, organizadores de eventos se deram conta de que poderiam se apropriar de sua estatura, transferir essa aura de “decisão histórica” e de “exclusividade” para o que estão oferecendo. Há também um aspecto psicológico a ser considerado. Isso porque participar de uma conferência parece ser uma obrigação do seu trabalho, enquanto estar em uma summit dá a impressão de que você foi selecionado, convidado para estar em um grupo de elite, com poderes para definir o futuro do setor.

Diferente do que seja um workshop – que é colocar a mão na massa – ou de uma convenção – festa da firma ou do grupo de empresas –, estar em um summit significa ocupar outro nível, outro patamar, esse focado na estratégia. E quem não gosta de se sentir importante, mesmo que isso no fundo seja uma fraude? Quem primeiro se deu conta de oferecer esse atrativo foram as empresas de tecnologia e inteligência artificial. Passaram a usar o termo para sinalizar que ali, naquele local e momento, estariam não apenas oferecendo o aprendizado de uma ferramenta nova, mas discutindo uma visão de mundo. O que também permitiu, evidentemente, que seus organizadores passassem a cobrar ingressos mais caros. Se você quer fazer parte da elite, então pague o preço justo.

Depois, houve uma extrapolação da marca, que virou global e para tudo. Passaram rede com malha fina, espaço reduzido para pegar peixes mais miúdos. Serve para todo e qualquer executivo – ou ocupantes de cargos menores na organização –, que podem se inscrever, participar, sentir um momento de importância e poder. O que seria um prato cheio para Foucault. Qualquer assunto se torna, sem vergonha alguma pela inverdade, uma “revelação”. Mas, provavelmente – e isso não se pode negar –, o que mais relevante consigam é a troca de informações e a possibilidade de realizar networking com aparência de luxo.

Porém, como todo fluxo tem depois um refluxo, já se percebe que muitos organizadores estão adotando “experience”, “unconference” ou mesmo “connect” – evidente que adotando outras expressões em inglês, como convém ao subdesenvolvimento –, na tentativa de reencontrar originalidade. Mas, convenhamos, esses termos também cairão rapidamente na vala comum. Se tornarão outras etiquetas chiques para reuniões rotineiras. Agora, existem muitas organizações que lucraram valores significativos explorando com maestria esse aspecto psicológico que citei. Isso porque, embora o termo summit seja de uso livre, no contexto de eventos de tecnologia, marcas como Web Summit (Lisboa) e South Summit (Madrid) foram registradas. Isso impede que outros organizadores, em qualquer lugar do planeta, usem o nome completo ou mesmo a identidade visual sem licenciamento.

Por essa razão, ao não optar por criar um termo próprio – algo como RS Technology Summit ou RS Innovation Summit, por exemplo –, o que poderia ter sido feito sem problema algum e com custo zero, o evento que vem ocorrendo em Porto Alegre pagou um valor absurdo para os espanhóis. Preferiram usar a marca South Summit Brazil (assim, com Z) despendendo, em 2025, perto de R$ 5 milhões para a empresa Spain Startup and Investors Services S.L., detentora dos direitos. A existência de outros custos elevaram a despesa para cerca de R$ 27,6 milhões, 86% do total sendo coberto pelo Estado. A prefeitura de Porto Alegre contribuiu com mais R$ 3,5 milhões e a Assembleia Legislativa destinou outros R$ 400 mil. Recentemente, o governo estadual formalizou a extensão do acordo para garantir que o evento anual permaneça na capital gaúcha até 2030, ampliando os valores que terão que ser repassados.

Existe retorno e isso é inegável. Só que não se pode precisar com maior exatidão de quanto e em que tempo. Assim, a iniciativa tem seu valor, sendo apenas questionável não ter havido a coragem de estabelecer a sua marca própria. E se precisa ver se ao longo dos próximos quatro anos esse termo esnobe continuará prevalecendo com a mesma força e valendo a mesma coisa.

10.02.2026

O bônus de hoje é Até o Fim, de Chico Buarque, com o autor e Ney Matogrosso. A letra é uma crítica direta e brilhante a quem tenta se colocar acima dos outros, por causa de posses, títulos ou falsa superioridade. O autor faz uso da ironia para desconstruir a prepotência de quem se acha melhor do que o “homem comum”. E isso se tornou um clássico do Samba/MPB.

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