A INCRÍVEL HISTÓRIA DOS PEIXES EMPANADOS COM COCAÍNA

Em junho de 2001 o traficante italiano Antoni Quinzi, como capitão de um iate de 14 metros chamado Sun Kissed, cruzou o Atlântico tentando levar 500 kg de cocaína da Venezuela para a Europa. Tudo estava correndo bem, até que uma tempestade avariou o leme da embarcação, que ficou à deriva. Foi necessário pedir socorro mas, antes da chegada da ajuda e para evitar de ser preso em flagrante, a mercadoria ilegal foi amarrada em redes e afundada perto da costa portuguesa. Havia esperança de recuperar a carga depois. Acontece que as amarras se soltaram e o produto, extremamente puro, chegou até a vila piscatória Rabo de Peixe, na Ilha de São Miguel, no Açores.

A comunidade local, muito pobre e isolada na época, recebeu os pacotes como se fossem uma dádiva, um presente. Isso sem ter a menor noção do que seria aquele pó branco. O que terminou resultando em fatos que misturaram comédia absurda com tragédia. Relatos feitos por moradores e confirmados posteriormente por autoridades, dão conta de que muitos passaram a usar a farinha misteriosa – seria amido de milho, segundo alguns imaginaram – para empanar chicharros. Esse é o nome de um peixe muito comum e apreciado por lá. Tem tamanho médio e corpo alongado, com uma linha lateral bem marcada por escamas duras. Outro uso inusitado foi para adoçar café, como se fosse açúcar. Devido aos 80% de pureza da droga e à inexistência de tolerância ao seu consumo, os experimentos causaram um surto de overdoses, lotando o hospital local e outras casas de saúde.

Com tamanho rebuliço e a dinâmica social da região alterada, finalmente lhes foi informado do que se tratava. Consta que depois disso algumas pessoas, entre as mais “ligeiras” das redondezas, conseguiram mesmo comercializar parte do que tinham recolhido. Copos de cerveja cheios da droga eram vendidos por quantias irrisórias, algo do que seriam 20 ou 30 Euros hoje em dia. Mesmo assim, a polícia recuperou mais da metade do total.

O traficante chegou a ser detido e foi levado para o Estabelecimento Prisional de Ponta Delgada, em São Miguel. Mas não ficou muito tempo no local, tendo realizado uma fuga cinematográfica. O recurso foi o uso clássico de uma “teresa” – como se chama a corda improvisada, feita com lençois cortados em tiras e amarrados. Depois de vencer os muros da prisão, devido ao descuido da vigilância, furtou uma scooter para buscar um lugar seguro. Com portos e aeroportos sendo vigiados, ele permaneceu escondido nas redondezas por duas semanas. Terminou localizado em um barraco existente junto a um canavial. Na ocasião já estava de posse de um passaporte falso, indicando que em breve iria deixar os Açores. Outra vez preso, foi então levado para Coimbra, no continente. Julgado, recebeu condenação com pena de nove anos e dez meses.

Consta, sem que se tenha obtido mais detalhes, que ele conseguiu fugir também daquela penitenciária. E que terminou sendo outra vez preso, na Itália, de onde também se evadiu. Seu paradeiro seguinte foi o Brasil, onde continuou envolvido com o tráfico internacional. Em 2021 foi apanhado transportando 632 quilos de haxixe em um veleiro, perto de Fernando de Noronha. Cumpria essa nova pena no Rio Grande do Norte, tendo obtido progressão, podendo circular com restrições e uso de tornozeleira eletrônica. Isso até agosto de 2025, quando ela foi rompida e, desde então, seu paradeiro não é mais conhecido.

A Netflix lançou, em 2023, uma série portuguesa chamada “Rabo de Peixe” (Tum of the Tide é seu título em inglês. Ela é baseada naquela história original, que deu fama e notoriedade ao traficante. Porém, como se trata de uma ficção, tempera os fatos com alguma liberdade para criar mais drama e ação. Por exemplo: nela o personagem Eduardo e três dos seus amigos encontram a droga e decidem se tornar traficantes para mudar de vida, passando a viver fugas alucinantes. Isso não existiu. Na realidade, vários pescadores e moradores a encontraram ao mesmo tempo. A maioria a consumiu sem saber do que se tratava ou tentou vender pequenas quantidades, de forma desorganizada. Outra diferença é que o dono da droga termina retratado na série como um vilão que persegue os jovens, o que jamais aconteceu.

Na série, uma inspetora vem de Lisboa e se envolve no caso, como se fosse um suspense policial clássico. Na vida real toda a apreensão foi coordenada pela Polícia Judiciária e autoridades locais. E o volume da droga era tão grande que não adiantaria a tentativa de estabelecer controle e buscar responsabilidades. Foram montados postos para recolhimento, nos quais as pessoas poderiam entregar a quantidade que possuíam, anonimamente e sem serem presas. Enquanto na ficção o foco fica no tráfico e no lucro, na vida real o que há de mais bizarro é a confusão do produto com farinha, açúcar e amido de milho, resultando em crise absurda na saúde pública.

A série ajudou a colocar os Açores no mapa do streaming mundial, mas para os locais, a lembrança ainda é de um período muito difícil, que lhes rendeu um estigma. Não há quem desconheça a receita inacreditável de peixe empanado com cocaína. Só não recomendo que turistas peçam a iguaria, nem por brincadeira. Porque os nativos detestam essa história.

04.02.2026

Os chicharros empanados são um clássico da culinária portuguesa, com textura crocante por fora e suculenta por dentro.

O bônus de hoje é Como Vovó Já Dizia (Óculos Escuros), de Raul Seixas.

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