PARA O GADO, AO INVÉS DE HUMANOS

Conteúdo circulando em redes sociais mostra um produtor rural de Jacinto Machado, em Santa Catarina, destinando pitayas de sua plantação para alimentação do gado. Segundo ele, isso estava sendo feito por conta de dificuldades de comercialização do produto, que estaria com preço mais baixo do que o desejado. As postagens aparecem tanto em reels no Instagram quanto em vídeos no Facebook.

A produção de pitayas, que também é conhecida como fruta-do-dragão, tem crescido no vizinho Estado, de uma forma constante ao longo dos últimos anos. Em termos numéricos, consta estar hoje em dia atrás apenas de São Paulo. A safra do ano passado alcançou mais de 6,5 mil toneladas, que foram cultivadas em cerca de 300 hectares, envolvendo 350 famílias no processo. Projeções da Epagri SC, Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, apontam que a de 2026 ultrapasse 7,8 mil toneladas. Os três municípios com maior quantidade da fruta são Jacinto Machado, Santa Rosa do Sul e Sombrio. Eles a vendem para as regiões Sul e Sudeste, mas também exportam para Inglaterra, Espanha, Portugal, Estados Unidos e Emirados Árabes. Em Porto Alegre, eu sempre a encontro e compro na Feira Ecológica que acontece nas manhãs de sábado, junto ao Parque da Redenção.

O que há de chocante nessa história não é a insatisfação do produtor rural que postou os vídeos, mas a sua decisão. Nada contra o gado, também, mas esse tem pastagens e silagens apropriadas. Agora, qual o motivo de o indignado – que nem sei se estava com razão – não ter optado por destinar as frutas para orfanatos, asilos, escolas, organizações que alimentam moradores de rua? Isso seria inclusive importante para que houvesse engajamento com sua causa. Espanta o fato dele buscar solidariedade das pessoas com sua suposta situação, sem demonstrar o mesmo tipo de empatia. Entretanto, a bem da verdade isso não é inédito e nem sequer algo novo.

Vamos lembrar mais dois episódios. Em 1990, no início do governo de Fernando Collor de Mello, com o confisco determinado nas cadernetas de poupança e contas correntes, o consumo despencou e o setor avícola foi brutalmente atingido. Com isso, granjas do Oeste Catarinense, nas regiões de Concórdia e Chapecó, optaram por sacrificar aves, uma vez que a população não tinha dinheiro para comprá-las. Nenhuma foi doada e milhões delas acabaram mortas em poucas semanas. Há imagens de retroescavadeiras cavando terrenos para que fossem colocadas. Pior do que isso é que foi também comprovado que muitas eram enterradas vivas mesmo ou trituradas para servirem de adubo. As imagens das atrocidades foram veiculadas pelo Jornal Nacional e em grandes jornais.

Em menor escala, isso voltou a ocorrer em 2018, quando aconteceu uma greve de caminhoneiros. Estes bloquearam estradas, motivados por razões políticas e chamamento da extrema-direita, de olho nas eleições presidenciais que ocorreriam. Uma das consequências é que a ração não chegava até as granjas. E outra vez foram sacrificados animais, ao invés de que pelo menos doações pontuais fossem feitas, para organizações e entidades próximas, que pudessem buscar as aves. É o agro como sempre sendo “pop”. E desumano.

03.03.2025

O bônus de hoje é Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho, em versão acústica.

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