SOBRE O QUE É BREVE

É lugar mais do que comum pessoas dizerem que a vida é breve, pouco importando suas próprias idades. Até porque algumas vezes falam de si mesmas, em outras tantas se referindo a alguém. Saber se algo é de fato breve ou não, demanda comparação. E também se precisa acrescentar a percepção da qualidade do tempo: alguns dias de sofrimento parecem uma eternidade; uma vida inteira, sendo plena, saudável e bem vivida, parecerá sempre que mereceria ter extensão maior.

Na verdade, no sentido existencial, a brevidade nos recorda que o valor das coisas está muito mais na sua intensidade do que na sua duração. Isso permite que muito do que seja efêmero, por isso mesmo se torne precioso. O que pode ser notado inclusive na natureza: um pôr do sol dura minutos e nós paramos para olhar, embevecidos. As centenas de flores diferentes que existem e nos presenteiam com cores e perfumes todos os dias, sendo perenes, jamais murchando, talvez se tornassem menos notadas. Um beijo na boca pode acelerar o coração tanto quanto correr uma razoável distância. E ter uma boa ideia – um lampejo, um estalo – leva uma fração de segundo e pode repercutir por décadas.

Todos somos breves. O que nos diferencia é o quanto breve somos. Se o tempo fosse ilimitado, no entanto, com certeza não teria o mesmo valor. Em função do seu estoque ser finito é que a experiência humana fica validada, ganha luz. Um abraço só se torna emocionante porque não pode durar para sempre. A urgência de declararmos “eu te amo” nasce do medo de se perder a oportunidade de dizê-lo e ela nunca mais se repetir. A brevidade da vida, enfim, nos obriga a fazer escolhas, a tomar decisões. Assim sendo, viver é essencialmente a arte de decidir onde é que vamos investir os nossos minutos, que são contados.

Os gregos, com toda a sua sociedade fundada no pensar, na filosofia, se referem ao tempo de duas formas. Usam duas palavras distintas para o identificar, desde a antiguidade. E se faz necessário conhecer ambas para que se entenda melhor a brevidade. A primeira delas é Chronos, o tempo sequencial, o tique-taque do relógio, aquele que consumimos e que nos consome, a quantidade. A outra é Kairós, que refere o momento oportuno, o tempo “sentido”, no qual um minuto pode valer por uma vida inteira, a qualidade. Filosoficamente, a brevidade do Chronos é de fato inevitável, enquanto a profundidade do Kairós é uma conquista.

Sêneca, em uma livre adaptação de seus conceitos, ensinava que “a morte não é o que vem depois: a morte é o que vai ficando para trás. O que já vivemos é o que já morreu.” Se dar conta disso é dar um peso especial para o agora, o entender se torna respeito. Muitas vezes sofremos pela brevidade do tempo porque nos esforçamos, de modo inútil, tentando acumular os momentos, como se fossem uma posse. Só que o tempo não se guarda e sim se gasta. Então, a única forma de superarmos essa sua brevidade é estando plenamente presentes. Isso e apenas isso pode transformar a contagem regressiva em uma experiência.

Sobre perdas, muitos anos atrás me foi pedido que escrevesse uma letra de música para que um grupo de amigos concorresse com ela em um festival. Cometi a ousadia de atender o pedido, me inspirando para tanto na circunstância de ter perdido um colega de trabalho de uma forma súbita e inesperada. No estribilho tentei colocar essa perplexidade do nunca mais se compartilhar aquelas horas de cada dia. Da inexorabilidade da morte, a percepção de que todo o tempo se esgota, junto ao desejo que não fosse assim. E saiu o seguinte: “Nunca mais é muito tempo /Nunca mais não deixa alento /Nenhum pra gente agarrar. /Para sempre é toda a vida /Uma esperança incontida /É todo o espaço das horas /Um imenso céu pra voar.”

O 22 de janeiro sempre é referência para mim, por outra perda. Essa, muito maior, não foi aguda ou surpreendente. Foi a consequência de uma situação crônica cujo desfecho era rigorosamente esperado. E se torna importante eu ter a cada ano a oportunidade de voltar a sentir, agora não uma dor idêntica a de antes, mas tudo o que a situação me ensinou. Ou deveria ter ensinado. O que porventura ainda não foi assimilado é culpa única e exclusiva de eu ser um mau aluno. A vida e o tempo cumpriram o seu papel. Meu menino também.

22.01.2026

O bônus de hoje é a música Pedaço de Mim, de Chico Buarque. Neste clipe é cantada pelo autor, ao lado de Zizi Possi, em gravação de 1978.

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