OS OVOS E A BOLINHA DE PAPEL

Domingo, 27 de setembro, em Goiânia. Uma carreata com o candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) circula pela cidade. Quando cruza pela Rua 15, no Jardim Goiás, ovos arremessados da varanda de um prédio alcançam os veículos. Ninguém foi atingido, segundo apurou a imprensa. O senador, no entanto, exigiu que a polícia identificasse o apartamento de onde eles partiram. E alegou que o incidente caracterizava uma tentativa de homicídio.

Flávio estava acompanhado, entre outros, de Wilder Morais (PL), que é o candidato ao governo daquele estado pelo seu partido. A carreata havia começado nas proximidades do Estádio Serra Dourada e seguiu até a região do Parque Flamboyant. É importante salientar que o bairro onde os ovos voaram até os automóveis é considerado nobre. Nele habitam pessoas integrantes predominantemente das classes média alta e alta de Goiânia. A própria UFG o descreve dessa forma, sendo região associada à renda elevada, em especial nas proximidades do shopping e do Parque Flamboyant.

Os dados imobiliários reforçam isso: agora em setembro de 2026 o custo do metro quadrado naquela área passava fácil dos R$ 10 mil, ficando atrás apenas de Marista, Sul e Bueno. Do ponto de vista político-ideológico, pesquisas apontam que a preferência dos moradores, em relação ao pleito deste ano, para a presidência da República, recai sobre Ronaldo Caiado. E, a respeito do episódio dos ovos, não há como deixar de lembrar de outro ocorrido anos atrás.

Em 20 de outubro de 2010, faltando dez dias para o segundo turno da disputa presidencial entre José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), Serra fazia uma caminhada de campanha em Campo Grande, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Houve confronto entre militantes tucanos e petistas. Imagens do SBT mostraram o candidato, que a exemplo de Flávio agora estava atrás nas pesquisas, sendo atingido na cabeça por um objeto. Vista e revista a imagem, inclusive em câmara lenta, fica constatado que se tratava de uma pequena bolinha de papel.

Serra leva as mãos a cabeça, alega estar “meio grogue”, sendo então conduzido ao Hospital Samaritano, em Botafogo, onde passou por uma tomografia. Nenhum problema neurológico foi constatado, mas recebeu recomendação médica de 24 horas de repouso. O episódio chegou a ser comparado à teatralidade do goleiro chileno Roberto Rojas, que simulou ter sido atingido por um rojão, em disputa de jogo classificatório para a Copa do Mundo, no Maracanã, em 1989.

A bolinha de papel, de 16 anos atrás, se junta aos ovos de agora. São fatos que já integram o folclore político brasileiro, useiro e vezeiro em criar situações nas quais a realidade perde longe para o relato, a ficção. Em 2003, por exemplo, aconteceu um fato durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Uma integrante dos autodenominados “Confeiteiros sem Fronteiras” levantou-se durante uma entrevista coletiva e acertou uma torta de morango com chantilly diretamente no rosto do então presidente do PT. José Genoíno pediu calma, tirou o paletó, limpou-se e continuou respondendo as perguntas feitas.

Para quem prefira continuar em âmbito de maior proximidade com o ocorrido agora em Goiânia, há várias outras histórias. Uma delas foi em Salvador, em 2017. Quando chegava para receber o título de cidadão soteropolitano, João Doria foi atingido em cheio na testa por um ovo. Os seguranças chegaram a usar guarda-chuvas como escudo para evitar que outros chegassem, mas para o primeiro foi tarde demais. Existem fotografias e vídeos muito bons do episódio. Não consta que o paulistano tenha sido submetido à exames em algum hospital ou registrado BO por tentativa de homicídio.

29.09.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial. 

O bônus de hoje é Rap do Ovo, com Sérgio Mallandro e Faustão.