TINTIM E OS VELHOS TEMPOS
Minha filha sempre foi muito criativa e generosa, ao me dar presentes. Foi assim que um dos últimos que recebi me remeteu a um tempo no qual eu era criança e recém estava dominando essa dádiva que são as letras, a palavra escrita – na verdade acho que até hoje ainda não as controlo bem. Então, um dos recursos era aproveitar o lugar onde elas vinham acompanhadas de desenhos, mas não aqueles que ilustram livros infantis, em geral repletos de cor e de menor compromisso. Outro tipo de traço, usado em narrativas mais longas, contando histórias que faziam explodir sonhos de aventuras, conhecer novos mundos, ser um herói na imaginação. Me refiro aos quadrinhos. Eu os via especialmente nas páginas dos jornais, que felizmente tinham uma sessão dedicada a eles. Eram servidos como as telenovelas de hoje em dia, em capítulos, buscando fidelização. O que para mim era fácil, uma vez que meu pai era assinante de pelo menos dois dos que faziam isso.
Foi assim que conheci o belga Tintim, entre outros tantos. Eu recortava as tirinhas e criava meu próprio livro. Podia ver e rever a história, que ficava preservada quando o restante do jornal terminava no lixo. Meu pai dava um consentimento silencioso. Acho mesmo que gostava de me ver fazendo isso. Tanto que quando viajava, principalmente a trabalho, trazia para mim livros de verdade, além de alguns gibis. Era um estímulo nada preconceituoso, que me ajudou não apenas no letramento como também no desenvolvimento da criatividade.
Tintim foi criado por Georges Remi, que assinava com o pseudônimo de Hergé. Isso foi em 1929, quando o personagem de topete ruivo começou a circular pelo mundo, resolvendo mistérios e combatendo injustiças. Ele é um repórter, se bem que quase nunca foi visto escrevendo matérias. Age mais como um detetive aventureiro que tem como suas principais características integridade pessoal inabalável e inteligência rápida. Além disso, o seu universo é povoado por coadjuvantes muitos especiais, excêntricos mesmo, que oferecem um equilíbrio mais do que perfeito entre humor e drama. O primeiro e principal se trata do seu cão, um fiel fox terrier branco de nome Milu. Sempre ao lado de Tintim, de algum modo cumpre também o papel de ser a voz da razão do herói. Frequentemente os leitores são presenteados por balões que mostram a “fala” do bicho, o que ele está pensando ou gostaria de dizer – quando não está distraído com algum osso –, o que obviamente os humanos ao seu redor não entendem.
Entre os demais estão o Capitão Haddock, um marinheiro ranzinza que serve como contraponto emocional de Tintim. Ele é amante de uísque e mestre em insultos com termos que ele mesmo cria. Há ainda a dupla Dupond e Dupont, dois detetives fisicamente idênticos que trabalham para a Interpol, tão incompetentes que se tornam o ápice do alívio cômico nas histórias. E existem o Professor Girassol, um gênio surdo e distraído cujas invenções terminam movendo muitas das tramas, além da barulhenta diva da ópera Bianca Castafiore, mulher rica, elegante e sempre adornada com luxo.
Hergé revolucionou as histórias em quadrinhos com um estilo no qual os traços pretos têm espessura constante, as cores são vivas e planas, não existindo hachuras ou sombras. E os cenários que desenha são muito claros e realistas, contrastando com os personagens em si, que possuem algo de cartunesco. Seu trabalho sofreu muitas críticas, de forma alguma pela qualidade, mas pela temática inicial. O primeiro dos álbuns, Tintim no Congo, refletia preconceitos coloniais da época. Com o passar do tempo, o criador tornou-se um pesquisador obsessivo, retratando com detalhes precisos as culturas, assim como as tecnologias. Isso pode ser confirmado, por exemplo, no álbum O Lótus Azul e também em Rumo à Lua. O primeiro dos dois citados é considerado uma obra-prima, sendo crítica política real sobre a ocupação da China pelos japoneses.
Foram 24 as aventuras publicadas. A última delas, postumamente. Como estava inacabada, alguns dos quadrinhos foram feitos com esboços que o autor havia deixado. Lembro bem de ter recortado algumas delas, como Os Charutos do Faraó, O Caranguejo das Pinças de Ouro e O Segredo do Licorne. O presente que minha filha me deu foi uma edição em tamanho grande, finamente encadernada e com capa dura, de A Ilha Negra. Li com alegria quase infantil, com os olhos sendo acompanhados da memória. Li com alegria quase infantil, com os olhos sendo acompanhados da memória. E vou repetir isso outras vezes, porque o sabor sempre se aviva. Assim como deve ser com a nossa existência, com permanentes renovações e descobertas.
02.02.2026

Obônus de hoje oferece um pequeno vídeo usado como introdução aos episódios da animação As Aventuras de Tintim, uma série produzida para a televisão, em 1991. A música soa como sendo de uma orquestra, embora tenha sido produzida com recursos mais modestos, utilizando uma mistura de instrumentos reais, como metais e sopros, com sintetizadores de alta qualidade para a época. O resultado é um som encorpado, que traz em si toda uma atmosfera de mistério e espionagem. Os compositores são Ray Parker, Jim Morgan e Tom Szczesniak.
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