CAETANO VELOSO x PAULO FRANCIS
O carioca Paulo Francis de Oliveira (1930-1997) pode ser citado como um dos maiores exemplos de jornalista não apenas influente como ainda provocador. Era ácido e frequentemente arrogante. Radicado em Nova Iorque nos últimos anos de sua vida, buscava manter um estilo erudito, vendendo uma imagem de superioridade intelectual, atrás dos seus óculos de armações grandes e lentes grossas. Mereceu, sem dúvida alguma, o modo como tantos o identificavam: um antipático por vocação. Alguém que conseguia angariar admiradores fervorosos apenas em número inferior aos seus críticos severos. Competente, mas um enorme chato, elitista e prepotente.
Essa sua prepotência se manifestou, em determinada ocasião – nesse caso específico acompanhada de inegável inveja –, quando atacou Caetano Veloso, assim do nada. Acontece que o compositor, músico e cantor baiano fora convidado para entrevistar Mick Jagger, o líder da banda britânica The Rolling Stones, justamente em Nova Iorque, um território que Paulo Francis considerava como seu. De lá, por exemplo, veio a participar do programa Manhattan Connection, que surgiu algum tempo depois, em 1993, no canal GNT. Esse era uma espécie de mesa redonda, com conversas sem pressa alguma e tom opinativo, com ênfase em política, economia, cultura e comportamento.
Caetano foi, fez a entrevista e ela ganhou destaque, uma vez que tanto a língua inglesa quanto a cultura pop eram plenamente dominadas pelo brasileiro. Levada ao ar no programa Conexão Internacional, da TV Manchete, apresentado pelo jornalista Roberto D’Ávila, foi um enorme sucesso. Francis na época era correspondente da Folha de São Paulo e destilou seu rancor já habitual, desancando com o trabalho alheio. Seu artigo “Caetano, pajé doce e maltrapilho” era puro ciúme transformado em texto. Escreveu, por exemplo, que Caetano era o símbolo da miséria raquítica dos baianos e interioranos brasileiros. Que as suas perguntas serviriam no máximo para seminários de comunicação.
Isso terminou provocando ira e resposta, também grosseira: Francis foi chamado de “bicha amarga”, que escrevia bebendo uísque em “gueto” de Nova Iorque. Também foi lembrado que o jornalista, mesmo morando na “Big Apple”, não era colunista em nenhum jornal de lá, por não ter nível para tanto. Caetano falou isso em entrevista concedida ao programa Vox Populi, da TV Cultura. O que rendeu um novo artigo do jornalista, no qual disse que a reação do baiano demonstrava ser “puro Brasil”. Mas, esse segundo texto não recebeu resposta na hora. Ela só veio a ocorrer, mais tarde, na letra de uma das suas músicas memoráveis. Com a sutileza que sua sensibilidade, agora com a raiva um tanto aplacada, era capaz de produzir.
A letra de Reconvexo é dedicada a todos os que diminuem a rica cultura brasileira. E vem plena de referências que a identificam, em especial da Bahia, Rio e Amazônia. Escrita ao menos parcialmente em Roma, tem em si uma pergunta direta ao desafeto: “meu som te cega, careta, quem é você?”, questiona, antes de enumerar essas coisas todas que um alienado, deslumbrado com a suposta superioridade estadunidense, não consegue acessar. Faz isso sem ser excludente, na medida em que acrescenta também citações sobre a própria cultura dos EUA. Ou seja, mostra que o desafeto, um símbolo do aculturamento, não era mais nem côncavo, nem convexo. Não tinha mais os pés em nenhuma cultura. “Seu olho me olha, mas nem me pode alcançar”, bate outra vez. E segue dizendo que “vai descartar” quem não rezou a novena de Dona Canô; quem não seguiu o mendigo do carnavalesco Joãozinho, da Beija-Flor; quem não amou a elegância sutil de Bobô (*); e assim por diante.
Deste modo, a provocação gratuita do enciumado nos rendeu mais uma bela música. E o chapéu foi jogado ao ar, podendo ou não cair sobre a cabeça que o merecia. Isso ocorreu em 1989, ano no qual Reconvexo teve sua primeira e principal gravação, no álbum Memória da Pele, de Maria Bethânia. Francis ainda esteve entre nós por oito anos, mas não se sabe se ele entendeu a letra e sua mensagem pouco subliminar.
20.01.2026
(*) Entre as incluídas no texto e outras que estão na canção, a citação de Bobô talvez seja a menos reconhecida pelo público mais recente. Ele foi um meio-campista talentoso que, no ano anterior (1988), se tornara Campeão do Brasil como o Bahia, time do coração de Caetano. Isso ocorreu no estádio Beira-Rio (Porto Alegre), em partida contra o Internacional.

O bônus é clipe da música em questão (Reconvexo), cantada pelo seu autor, Caetano Veloso.
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