O QUE VIU (E SENTIU) O ASTRONAUTA

Ron Garan era um astronauta estadunidense. Ao longo de sua carreira na NASA ele participou de duas expedições espaciais. Na segunda das missões, depois de lançado em 4 de abril de 2011, a bordo da nave russa Soyuz TMA-21, ele passou quase seis meses orbitando o nosso planeta. Foram exatos 164 dias, com seu retorno ocorrendo no dia 15 de setembro do mesmo ano. Ao longo desse tempo, ele acumulou mais de 114 milhões de quilômetros viajando, distância alcançada com um total de 2.842 órbitas completas ao redor da Terra, a bordo da Estação Espacial Internacional. Imaginem só se isso pudesse ser trocado por milhas para uso posterior em companhias aéreas.

Vejam que ele nem é o recordista em tempo de permanência no espaço. Pelo menos outros cinco astronautas, dois deles estadunidenses e três russos, o superaram nesse quesito. O cosmonauta Oleg Kononenko é o que tem a maior marca, com 1.111 dias completados até setembro de 2024. Os demais são Gennady Padalka (878), Peggy Whitson (675), Sunita Williams (608) e Valeri Polyakov (437). Então, por que o caso de Garan merece ser destacado nesta crônica? Porque além dos seus números, que não deixam de ser impressionantes, ele também experimentou algo que poucos humanos já vivenciaram: o chamado Overview Effect – em uma tradução livre, Efeito de Visão Geral. Esse é o nome dado a um fenômeno psicológico que transforma a maneira de enxergarmos nosso planeta, numa mudança radical de consciência.

O espaço não alterou apenas a carreira ou a rotina de Garan. Mudou a forma como ele passou a compreender o mundo e o papel que nele tem a humanidade. Este choque de realidade não ocorreu apenas com ele, obviamente, sendo comum em vários outros astronautas. Só que ele passou a falar mais abertamente sobre a situação, ganhando destaque por isso. Um parêntesis: fico aqui pensando se não seria muito positivo enviar o atual presidente dos EUA para uma boa volta no espaço.

Ao observar a Terra do espaço, ele percebeu – o que deve ter sido o que também os colegas verificaram –, de forma visceral, que o planeta é um sistema único, frágil e interconectado. Depois dessa experiência, que foi tão marcante, ele disse que a melhor descrição seria chamá-la de um “grande despertar”. De sua janela na Estação Espacial Internacional, Garan testemunhou fenômenos naturais de tirar o fôlego: “tempestades com relâmpagos que pareciam flashes de paparazzi, auroras boreais dançando como cortinas brilhantes e a atmosfera terrestre, tão fina que dava para quase tocar com as mãos”. Foi justo essa última percepção que o sensibilizou ainda mais: “Percebi que tudo o que mantém a vida na Terra depende de uma camada frágil, quase como papel”, explicou ele depois, em inúmeras entrevistas.

Isso a ciência já sabe e comprovou. Os poucos quilômetros de espessura da atmosfera é que protegem todas as formas de vida na Terra, contra as condições hostis do espaço. E o paradoxo diante do qual se viu Garan é que, enquanto a biosfera é vibrante e cheia de vida, a atual estrutura da sociedade trata o planeta como “subsidiário da economia”. Ou seja, seguimos priorizando o crescimento econômico em detrimento dos sistemas naturais que geram e sustentam a vida. “Estamos vivendo uma mentira”, afirmou o astronauta. Ele também destacou como problemas mais do que relevantes o aquecimento global, o desmatamento e a perda da biodiversidade, tudo resultante da desconexão do homem como o seu único lar.

De lá de cima o que ele não viu, pois de fato elas não existem, foram as fronteiras que estabelecemos ao longo da história, artificialmente. Nosso planeta é único, indivisível, de todos. Então, na opinião dele, precisamos inverter a forma como a política estabeleceu as coisas, até hoje em dia. Ao invés de “economia, sociedade, planeta”, devemos adotar – com a máxima urgência – “planeta, sociedade, economia”, na ordem de importância. Se faz necessário, ainda segundo ele, a percepção de que cada ação humana, por menor que ela seja, afeta o equilíbrio global. Uma epifania que deveríamos compartilhar, todos nós.

Garan agora dedica-se a projetos que promovem sustentabilidade e cooperação global. Sua mensagem é clara: precisamos urgentemente repensar nosso lugar no mundo. Até porque cada escolha pessoal, seja ela quanto ao consumo de energia ou ao uso de outros recursos, se torna um passo para preservar (ou destruir) essa “casca delicada que chamamos de lar”.

30.01.2026

Ron Garan, ex-astronauta estadunidense

O bônus de hoje é a música Espacial, de Belchior.

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