EU ODEIO O APLICATIVO GOV.BR

Um aplicativo móvel, disponível para Android e iOS, que em tese deveria permitir com muito maior facilidade acesso a diversos serviços públicos digitais, se tornou uma verdadeira panaceia. O termo que uso parece ser mais do que adequado, uma vez que ele faz referência à deusa grega da cura universal, a um remédio que supostamente combate todos os males ou a uma solução ideal para qualquer tipo de problema. É apresentado como um canal perfeito, que oferece consulta de documentos digitais, a feitura de assinatura eletrônica e até mesmo ser o modo apropriado para quem precisa realizar prova de vida. Falo do gov.br.

Com o passar do tempo, ele foi se tornando caminho para que se chegue a outros pontos desejados. Por exemplo, alguns serviços relativos ao Detran só podem ser obtidos, pelo menos aqui no caso do Rio Grande do Sul, se a pessoa valida a solicitação por intermédio dele. E já acontece o mesmo com muitas das nossas prefeituras. Tenho medo que em breve até o condomínio do meu prédio só permita participação através dele.

A relação começa com o aplicativo querendo uma foto da gente. Como acontecia com namoros antigos, só que ela não fica na carteira. Agora, quando ele pretende confirmar que sou eu mesmo, em algum contato que sou obrigado a manter, nunca me reconhece. Fica aquela voz que é feminina, mas seca como maringá (*), me cobrando que aproxime meu rosto, que afaste meu rosto, que aproxime outra vez, que volte a me afastar, que busque um lugar mais iluminado, que tire meus óculos. Mesmo assim, costuma depois enviar códigos para validação, que tem um prazo tão curto de tempo para uso que em geral se perde antes que eu faça qualquer coisa. E vira um looping, um retornar ao início eternamente. São raras as vezes que ele soluciona algo para mim, sendo muito mais corriqueiro me deixar ameaçando jogar meu celular pela janela, como se o coitado tivesse alguma culpa.

Não sou contra o reconhecimento facial. Tem isso na Arena do Grêmio e funciona rapidinho. Sou reconhecido de imediato e quase que recebo um abraço de boas-vindas. No apartamento da minha filha, em São Paulo, é a mesma coisa. O que já não se repete no meu mesmo, aqui em Porto Alegre. Fica aquela troca de olhares desconfiados entre eu e o aparelho, até que o porteiro termina liberando o acesso. Então, é compreensível que as tecnologias vez por outra precisem de ajustes. Só que neste aplicativo do governo isso não ocorre nunca: o normal se torna o desajuste.

Agora eu descobri que existe um serviço – também digital – com o qual se pode registrar problemas que se esteja enfrentando com a conta gov.br, solicitando também ajuda para encontrar a solução adequada. Por um instante me entusiasmei. Isso até que vi ser necessário o acesso através da conta gov.br. Assim não há como manter um butiá sequer nos bolsos. Os caras só podem estar tentando me enlouquecer. Para informar e descobrir a razão de não estar conseguindo acessar, basta acessar que eles me auxiliam.

Malditos burocratas, todos filhos de boas mães. Não sei se rogo alguma praga para eles, para os desenvolvedores do aplicativo ou para ambos. Porque alguém criou a porcaria, mas ela precisou ser aprovada. O que deve ter sido feito por quem nunca sequer tira a bunda de uma cadeira confortável, em gabinete com ar-condicionado. Essas pessoas, quando precisam resolver algo, na certa têm quem faça isso por elas. Então, não convivem com o inferno que criaram para os outros. Não foi uma, nem duas, nem dez vezes que já me frustrei tentando acreditar que daria certo o uso. Claro que há ocasiões em que consigo, que sou premiado. Mas é assim, raro como acertar na loteria. Então, eles só simplificaram – ou asfaltaram – foi o caminho rumo à minha insanidade.

14.01.2026

(*) A expressão gaúcha “seca como maringá” faz referência a um tipo de arbusto que é comum no pampa, sendo conhecido por ser muito resistente, mesmo ao longo de períodos de muita estiagem: fica seco, mas não morre. É usada para descrever também o que é seco no sentido de magro.

O bônus de hoje é a música Pare o Mundo Que Eu Quero Descer, de Sílvio Brito. Ela foi lançada em 1976, atingindo grande sucesso e se tornando um marco em sua carreira. A letra expressa cansaço com a situação do mundo, na época. Trata-se de um folk rock, no qual o autor desfia seu desejo de escapar de adversidades.

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